Na edição desta quinta-feira (26) do programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária no YouTube, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, avaliou medidas recentes do governo de Gustavo Petro, na Colômbia, e relacionou o cenário latino-americano e a guerra na Ucrânia a uma escalada mais ampla das pressões do imperialismo, com foco crescente no Irã.
Ao responder a uma pergunta sobre o aumento de 23% do salário mínimo decretado por Petro, Pimenta afirmou que se trata, “sem dúvida”, de “uma medida eleitoral”. Ainda assim, sustentou que a iniciativa “mostra que existe uma possibilidade de fazer alguma coisa mais do que o que nós estamos vendo no Brasil com o governo Lula”. Para ele, uma vez em vigor, o reajuste tende a tornar “cada vez mais difícil evitar esse aumento”, e o percentual elevado indicaria o grau de crise social e política enfrentado pelo governo colombiano.
Pimenta também disse que Petro está “acossado” e que “todos os governos de esquerda estão sendo acossados pelo imperialismo”, o que leva o presidente colombiano a se defender “como pode”. Na avaliação do dirigente, o decreto “mostra a fragilidade do governo”, mas também “possibilidade de reagir no sentido de conquistar um apoio popular”, algo que, segundo ele, o governo Lula se recusou a fazer neste mandato.
Conciliação do PT e limites do governo Lula
Questionado sobre por que Lula não adota iniciativas semelhantes por decreto, Pimenta respondeu que a orientação do governo petista é “governar em acordo com os partidos burgueses”, evitando “medidas que vão desagradar a maioria da burguesia”. Ele afirmou que o PT alimenta a “ilusão” de se manter no poder por meio da conciliação, definida por ele como “não fazer nada que agrida os interesses da burguesia”.
No mesmo trecho, Pimenta citou o debate sobre a escala 6×1 e declarou que Lula “até flertou” com o tema, “mas não fez nada”. Para o presidente do PCO, a linha do governo tem sido buscar “dentro do Congresso Nacional uma solução de compromisso”, o que produziria um “balanço meio negativo”, porque o governo “não consegue fazer nada”.
Urnas e estado de emergência
Ao comentar a exigência de Petro de acesso ao código-fonte das urnas eletrônicas e a denúncia de fraudes eleitorais na Colômbia, Pimenta ironizou a reação que esse tipo de declaração teria no Brasil: “urna eletrônica? Alexandre de Moraes, é o presidente da República [que está falando] aqui. Nossa, que heresia”.
Sobre a decretação de estado de emergência e o uso do decreto para pressionar o Congresso, Pimenta avaliou que se trata de “uma manobra válida” e que, no caso colombiano, poderia produzir “inclusive respaldo popular”. Ele voltou a comparar com o PT, afirmando que a política petista é “puramente institucional”, enquanto Petro busca uma saída “mais agressiva”, definida por ele como “chutar o balde” e “pôr fogo no parquinho”.
Ainda assim, Pimenta ponderou que, no Brasil, uma iniciativa desse tipo poderia enfrentar reação mais rápida do Supremo do que a verificada na Colômbia, onde a decisão sobre o decreto de emergência foi suspensa. Para ele, a diferença central estaria no fato de que, numa coalizão com partidos burgueses, um reajuste de 23% do salário mínimo colocaria o governo “em choque” com esses setores, enquanto Lula aposta na “boa vontade da burguesia” para sobreviver politicamente.
América Latina, Cuba e a política golpista do imperialismo
Ao tratar da situação cubana e do aumento de tensões na América Latina, Pimenta disse ver um movimento estratégico que “vai além” do governo norte-americano da vez. Ele caracterizou a orientação do imperialismo como “cerceamento das liberdades democráticas” e “política de guerra”, afirmando que, “Trump ou não Trump”, essa é a “política dominante”.
No entendimento do dirigente, o imperialismo buscaria “colocar ordem na casa” em sua área de influência principal, a América Latina. Ele recordou um ciclo de golpes de Estado iniciado “cerca de 15 anos atrás”, citando o Brasil em 2016. Pimenta afirmou que se trata de uma “política golpista” do imperialismo “de um modo geral”, mencionando processos semelhantes no Leste da Europa, especialmente em países próximos à Rússia.
Nesse sentido, Pimenta classificou Cuba como “um dos países mais independentes da América Latina” e considerou “natural” o aumento da pressão sobre a ilha, bem como sobre Nicarágua e Venezuela, por serem aliados de Rússia, Irã e China. Para ele, a ofensiva não é “ocasional”, mas “estratégica”.
China como alvo e preparação de uma guerra maior
Comentando a Coreia do Norte e a escalada militar na Ásia, Pimenta afirmou que a situação ali poderia caminhar “mais rapidamente para um desfecho militar” do que em outros lugares. Segundo ele, “os verdadeiros alvos” são China e Rússia, “principalmente a China”, porque o imperialismo “não pode conviver mais” com o país asiático após seu crescimento econômico.
Pimenta descreveu o ambiente internacional como “preparação para a guerra” e criticou o fato de que a imprensa trataria o tema “como se não tivesse acontecendo nada”. Ele citou o rearmamento alemão e japonês e declarou que, na Europa, teria havido até discussão sobre colocar “nas mãos de um maluco como o Zelensqui uma bomba atômica”. Para Pimenta, há um processo de acúmulo de fatores e, se isso não for percebido, um desfecho “violento e catastrófico” poderá surgir como surpresa.
Irã, Ormuz e o petróleo mundial
Ao discutir o risco de uma guerra de grandes proporções, Pimenta disse que um uso da Ucrânia como instrumento de provocação poderia resultar em cenário “catastrófico”. Ele afirmou que não se deve “excluir nenhuma dessas possibilidades” e avaliou que a “timidez” das respostas de Irã, Rússia e China seria “natural”, porque enfrentar o imperialismo é “um problema muito grande”, dada sua força.
Ainda assim, Pimenta afirmou notar uma movimentação maior de russos e chineses diante das ameaças contra Irã e Cuba. Ele citou anúncios de envio de painéis solares chineses para Cuba, estudos russos para mandar petróleo à ilha “desafiando o embargo e bloqueio norte-americano”, além de exercícios navais de China e Rússia com o Irã no Golfo Pérsico e fornecimento de armamentos “mais modernos e poderosos” a Teerã.
Na parte final, ao comentar a hipótese de fechamento dos estreitos de Babelmândebe e Ormuz em caso de ataque ao Irã, Pimenta disse concordar que a medida seria “viável”. Ele questionou se o imperialismo bancará uma crise desse tipo, mas sustentou que, se houver confronto militar, eles precisariam prever a possibilidade de bloqueio “do Golfo Pérsico, por onde passa quase 30% do petróleo mundial”, sob pena de a ameaça ser “puro blefe”.
Lula III e a eleição de 2026
Sobre o cenário brasileiro, Pimenta afirmou que o Lula III está “mais para um momento contrarrevolucionário” do que revolucionário. Ele comparou a situação à experiência de 1989, quando o PT teve uma posição “capituladora”, o que contribuiu para uma desmoralização do movimento operário e popular com a vitória de Collor.
Pimenta disse que, hoje, a experiência com o PT é mais extensa e poderia, em médio e longo prazo, dar lugar a uma reorganização das forças populares, mas ressaltou que prognósticos políticos são condicionais. Ele citou pesquisa da Atlas Intel mencionada no programa, que colocaria Flávio Bolsonaro à frente de Lula num segundo turno, avaliando que isso poderia ser “realidade” ou “um sinal da burguesia” ao PT de que haverá disputa dura. Ele levantou, inclusive, a possibilidade de Lula sequer concorrer, o que, segundo ele, seria “ainda mais desastroso”.
Assista ao programa na íntegra:




