Na edição desta terça-feira (24) da Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, o presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, fez um balanço de quatro anos da guerra na Ucrânia, comentou as tensões no estreito de Taiuã, falou sobre o caso Epstein e discutiu a inteligência artificial, além de tratar de temas da política nacional, como o Banco Master e a crise do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao avaliar o conflito na Ucrânia, Rui Costa Pimenta afirmou que a operação russa “foi um fato decisivo da política mundial” e sustentou que ela ocorreu após “a derrota catastrófica” dos norte-americanos e da OTAN no Afeganistão. Para ele, a iniciativa russa “colocou em cheque a ordem mundial imperialista” em um ponto decisivo, com efeitos sobre o “equilíbrio de forças”.
“O imperialismo vem, desde a queda da União Soviética, cercando a Rússia com bases militares”, disse.
Pimenta atribuiu a escalada na Ucrânia a uma ofensiva de maior envergadura das potências imperialistas, mencionando o golpe de 2014 que derrubou um governo “simpático aos russos” e a formação de um novo regime apoiado “nas milícias de extrema direita”. Ele também disse que a Ucrânia tem “larga tradição de confluência com o nazismo alemão” e que esses agrupamentos foram financiados pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra.
Para o dirigente, a guerra consolidou uma “guerra virtual entre o imperialismo de conjunto e a Rússia”, com a OTAN fornecendo armamentos à Ucrânia, e destacou a situação no leste ucraniano, afirmando que Donetsk é “composto de maioria russa” e que “toda a parte oriental da Ucrânia” tem a mesma composição, “até a Crimeia” e citando também Odessa.
Pimenta disse considerar “incerto” o quadro completo de perdas ucranianas, mas mencionou estimativas elevadas e afirmou que o conflito representa “um desastre nacional sem precedentes”, atingindo setores não profissionais das Forças Armadas e a parte produtiva da população.
“Muita gente considera que os ucranianos perderam mais de 500.000 soldados”, ressaltou Pimenta.
Ainda sobre a condução do conflito, ele classificou como “anúncios desesperados” as ameaças recentes de escalada, como a discussão sobre armamento nuclear para a Ucrânia, e afirmou que há “uma política de desespero” agravada, em sua avaliação, pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, por se tratar de um político que “sempre se pronunciou contra a guerra” e cuja posição, segundo ele, “dificulta” a ação do imperialismo na Ucrânia.
Esquerda brasileira e o ‘imperialismo russo’
Ao comentar divisões na esquerda brasileira em torno da caracterização da Rússia, Pimenta criticou os partidos e grupos que adotaram a fórmula de “defesa da democracia contra as ditaduras” como eixo, descrevendo-a como “sem disfarces a política do imperialismo”. Ele afirmou que essa linha cria uma divisão fictícia do mundo entre “democracias” e “ditaduras”, classificando como “peça de ficção política” a ideia de que a luta internacional se resumiria a esse contraste.
“A esquerda adotou integralmente essa concepção imperialista da luta política”, afirmou.
Pimenta disse que, para sustentar essa orientação, setores da esquerda “inventaram” que China e Rússia são países imperialistas, criticando com mais ênfase o caso russo. Ele apontou a estrutura econômica da Rússia, baseada na exportação de petróleo e gás, para rejeitar a caracterização.
“O caso da Rússia é absurdo, porque todo mundo sabe que a Rússia é um país que vive da exportação de matéria-prima”, explica.
Ele também afirmou que, ao tratar a guerra como “interimperialista”, esses setores acabam, na prática, alinhados ao bloco imperialista, inclusive porque, mesmo sob essa hipótese, “não cabe defender a Ucrânia”, por se tratar de “um joguete” nas mãos de um dos lados.
Taiuã, rearmamento japonês e cerco à China
Sobre o aumento das tensões em Taiuã, Pimenta disse que o governo chinês “tem o direito à ilha”, sustentando que Taiuã “sempre foi parte da China”, compartilhando “a mesma cultura” e “a mesma língua”. Ele atribuiu a separação ao deslocamento das forças contrarrevolucionárias de Chiang Kai-shek, “apoiadas pelo imperialismo norte-americano”, após a derrota no continente.
Pimenta descartou a ideia de que o tema central do conflito seja apenas a tecnologia de semicondutores e enfatizou, em seu comentário, a dimensão de segurança, dizendo que a ilha funciona como “um território hostil” em frente ao continente. Ele comparou a situação ao que ocorre na Rússia, afirmando que o imperialismo agora busca algo semelhante contra a China, incluindo uma espécie de “OTAN do extremo Oriente”, citando Filipinas e Austrália, além do grupo de inteligência conhecido como “Cinco Olhos”.
“Eles estão montando todo um cerco à China da mesma maneira como montaram um cerco à Rússia”, afirmou.
Epstein, conspirações e crise interna nos Estados Unidos
Ao tratar do tema das “teorias da conspiração”, Pimenta disse que a expressão costuma ser usada de forma pejorativa para desacreditar denúncias, argumentando que “há muita conspiração” na política internacional e que o caso Epstein é uma conspiração real, envolvendo “chantagem” e “favores sexuais”.
“O caso Epstein não é teoria da conspiração, é conspiração mesmo”, disse.
Para ele, o episódio revela aspectos da “podridão” da sociedade capitalista e ganha dimensão pública em razão da divisão interna da burguesia norte-americana. Pimenta disse que escândalos desse tipo emergem quando facções em conflito “jogam lama um sobre o outro”, e citou o embate político em torno de Trump como expressão desse choque.
Questionado sobre Noam Chomski, Pimenta disse ser “difícil saber” a profundidade das relações citadas e avaliou que o vazamento teria servido para “desmoralizar a esquerda”, sugerindo que, diante do impacto sobre a direita, haveria interesse em envolver “um esquerdista” no mesmo escândalo.
Banco Master, vazamentos e STF
Na parte nacional do programa, Pimenta comentou o caso envolvendo vazamentos de dados atribuídos a familiares de ministros do STF e as investigações sobre quem teria divulgado as informações. Ele disse considerar “aberração” a perseguição a quem vazou dados, defendendo que o essencial seria esclarecer negócios vinculados ao Banco Master.
“Se alguém vazou o imposto de renda da mulher do Alexandre Moraes, é uma falta menor. O importante é explicar o contrato de 130 milhões”, defendeu.
Ao ser perguntado se a divulgação das informações teria sido “um serviço público”, Pimenta respondeu afirmativamente e defendeu que autoridades devem estar sob escrutínio público, dizendo que “república com segredo das autoridades não é república, é uma oligarquia”. Ele citou a relatoria do caso com o ministro André Mendonça e afirmou que tornar tudo público é “mais acertado” do que confiar em apurações fechadas, acrescentando que a Polícia Federal “não merece nenhuma confiança”.
No mesmo bloco, Pimenta criticou a escalada de censura e perseguição sob o argumento de “defesa da democracia”, afirmando que o STF está “completamente desmoralizado” e que isso teria impacto na disputa eleitoral, com setores bolsonaristas explorando o tema.
França, polarização e aviso para o Brasil
Ao comentar a situação na França, Pimenta disse haver uma campanha para igualar “extrema esquerda” e extrema direita, citando uma ofensiva contra a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon. Ele avaliou que a classificação como “extrema esquerda” é “forçação de barra” e afirmou que não há ponto de contato entre as duas, ressaltando que a extrema esquerda, em geral, tem posição democrática.
Ele relacionou essa operação à falência do centro político francês e à tentativa da burguesia de restabelecer esse centro. Pimenta citou o uso de expedientes repressivos e afirmou que a ofensiva contra a esquerda também envolve partidos ligados ao grande capital, incluindo o grupo de Macron, o Partido Socialista e setores conservadores.
“A colocação é clara: ‘ambos são violentos; nós somos pacíficos’”, disse.
Pimenta disse que o episódio serve como aviso ao Brasil, afirmando que medidas repressivas não se restringem a um alvo e podem se voltar contra qualquer setor. Ele ainda mencionou que, em casos de violência atribuída à extrema direita na França, não teria havido comoções equivalentes, indicando que o tratamento desigual faria parte da operação política.
Assista ao programa na íntegra:





