O Comunicado do Partido Comunista Português – (PCP), publicado no sítio PCB nesta quarta-feira (18), não faz uma análise realista do que ocorreu nestas últimas eleições presidenciais em Portugal.
No início, o texto diz que “a expressiva derrota de André Ventura no segundo turno das eleições para Presidente da República em Portugal assume particular importância. Este resultado traduz a rejeição clara de um projeto reacionário e retrógrado, particularmente significativa, tendo em conta a promoção de que tem se beneficiado ao longo dos últimos anos, intensificada nestas eleições”. O que esse parágrafo não diz, é que tão expressiva quanto foi o crescimento do Chega, que dos anteriores 23,5% (que já representava ótimo percentual) ultrapassou os 33%, consolidando o partido como principal voz na extrema direita.
Para justificar seu apoio, o PCP diz que “é preciso não desvalorizar o impacto negativo que a ampla difusão de concepções retrógradas e reacionárias, nestas eleições e para além delas, tem se estabelecido junto a largas camadas da população. A insistência num discurso assentado na intolerância e na mentira, o estímulo a concepções xenófobas e racistas, os apelos à divisão e à discriminação, a instrumentalização de justas insatisfações e descontentamentos, o ataque a valores e direitos democráticos, exigem firme denúncia e combate”.
Democracia x Fascismo
Vemos, neste último trecho destacado, uma expressão da política “antifascista”, ou da “democracia x fascismo”, que tem tomado conta da esquerda mundial. Isso tem servido como desculpa para fazer a esquerda aderir a uma campanha de colaboração de classes, pois, supostamente, haveria um inimigo maior a ser derrotado.
No Brasil, vimos claramente essa política em ação, quando a maioria da esquerda apoiou Joe Biden contra Donald Trump, e também nas eleições de 2022, quando se propôs um candidato “do campo democrático” contra Jair Bolsonaro.
Embora o PCO (Partido da Causa Operária) tenha proposto Lula como candidato unitário da esquerda, os demais partidos tentaram emplacar João Doria e Ciro Gomes, ambos rejeitados pela base, mostrando que o PCO estava correto em sua avaliação, de que a classe operária tinha esperanças com o petista e que precisava fazer essa experiência.
O que deu errado no Brasil, em Portugal, por sua vez, deu certo, pois António José Seguro era o candidato do imperialismo. Mesmo o PCP é obrigado a reconhecer o passo que deu ao dizer que, ao candidato eleito “é exigido o dever de ser fiel ao juramento que fará de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa e não de ser suporte de uma política que a afronta. As repetidas declarações que fez, quer antes quer depois das eleições, de garantia de cooperação com o Governo, ou o reiterado compromisso de criação de condições de estabilidade ao prosseguimento da atual política a serviço do grande capital, constituem opções contrárias às que se impõem no exercício dessas funções, de recusa de apoio ao rumo de retrocesso e ataque a direitos que o Governo tem em curso”.
A ressalva, para todos os fins, é inútil, pois foi dado o apoio. De nada adianta dizer que “O PCP determinará o seu relacionamento institucional com o Presidente da República pela clara e frontal afirmação dos valores constitucionais e pela exigência do seu cumprimento”. Para o eleitor, o PCP se confunde com o governo.
Conforme escrevemos (leia na íntegra), a atuação de Seguro como Secretário-Geral do Partido Socialista (2011-2014) consolidou sua imagem como homem de confiança da burguesia. No auge da crise da dívida, Seguro foi o rosto da “oposição responsável”, garantindo que, independentemente da alternância de governo, Portugal honraria rigorosamente os compromissos com a Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia). Embora fizesse críticas pontuais ao ritmo da austeridade, Seguro foi o avalista político que impediu qualquer ruptura com o sistema financeiro internacional, assegurando a continuidade das políticas que sacrificaram o bem-estar da classe trabalhadora em favor da estabilidade bancária.
Alternativa
O PCP, sem independência política, não pode se apresentar como alternativa para a classe trabalhadora, o que só pode resultar em fracasso. O partido compôs uma verdadeira operação de guerra para barrar o Chega. Como dissemos, a vitória de Seguro foi o resultado de um gigantesco aparato que se mobilizou para garantir a continuidade do regime. Essa vitória veio em meio a uma ampla frente de apoio que atravessou diferentes setores políticos e partidários, formando uma verdadeira coalizão de conveniência. Apesar da vitória com 66,8% dos votos, há o enfraquecimento geral da esquerda, que abre espaço para o ascenso da extrema direita.
Neste momento em que o imperialismo prepara uma agressão ao Irã, além dos que vem praticando contra a Venezuela e Cuba, os setores mais centristas da esquerda estão saltando para posições cada vez mais à direita.
Apoiar as democracias liberais não é lutar contra o fascismo. São elas que estão levando o mundo para a Terceira Guerra Mundial, e que estão promovendo uma censura a cada dia mais brutal, e com apoio da maioria da esquerda. Não ha contradição entre o grande capital e o fascismo.
A maioria da esquerda está presa em uma armadilha, em nome da luta contra os fascistas, está apoiando justamente os pais do fascismo, que não hesitara em convocar seus cães se o momento exigir.




