Em Nas ruinas do neoliberalismo. A “ascensão da política antidemocrática no ocidente” da feminista Wendy Brown, a professora da Universidade da Califórnia, analisa a ascensão da “direita”, abordando os parâmetros da “antipolítica ” neoliberal.
A surpresa com a vitória de candidatos vinculados a direita ou extrema direita em eleições em diversos países europeus e nos Estados Unidos combinados com a exaltação de discursos de valorização do “moralismo, do autoritarismo, do nacionalismo, do conservadorismo cristão e do racismo” provocaram a reflexão de Wendy Brown sobre a relação entre o neoliberalismo e o desmantelamento das instituições democráticas.
“Para sua própria surpresa, forças da extrema direita subiram ao poder nas democracias liberais pelo mundo todo. Cada eleição traz um novo choque: neonazistas no parlamento alemão, neofascistas no italiano, o Brexit conduzido pela xenofobia alimentada por tabloides, ascensão do nacionalismo branco na Escandinávia, regimes autoritários tomando forma na Turquia e no Leste Europeu e, é claro, o trumpismo. O ódio e a belicosidade racistas, anti-islâmicos e antissemitas crescem nas ruas e na internet. Grupos de extrema direita recentemente amalgamados têm eclodido audaciosamente na vida pública após terem passado anos à espreita, na maior parte do tempo nas sombras. “ ( Brown,Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo).
Ao passo que o neoliberalismo é estabelecido com características em diversos aspectos contraditórios ou mesmo ambivalentes, é intensificado um processo de retirada de direitos econômicos, sociais e políticos/ democráticos. Para Wendy Brown o neoliberalismo poderia ser caracterizado como “favorecimento do capital, repressão do trabalho, demonização do Estado social e do político, ataque às igualdades (com exaltação da liberdade) com opostos aparentes”
O balanço da implementação da agenda neoliberal é a constituição “ experiência de abandono, dizimações de empregos, declínio das oportunidades”, dessa forma, a exacerbação do neoliberalismo provocou um descontentamento difuso, que se expressa na ascensão da política antidemocrática, como uma resposta com características de negação da política, mas que não rompe com a implementação do neoliberalismo. Dessa forma, uma agenda cultural regressiva é impulsionada em aparente aversão ao neoliberalismo, mas no fundo vinculada a uma “racionalidade neoliberal”.
Decerto, os efeitos sociais devastadores da política econômica provocaram a rejeição da política tradicional, o que explica em todo caso a ascensão da direita truculenta. No entanto, nos governos da “nova direita” não ocorreu uma mudança na trajetória de ataques contra os direitos, uma vez que a redução do Estado social (especialmente na Europa), a desregulamentação do capital e amordaçamento dos sindicatos não somente continuam como até mesmo se intensificaram.
Wendy Brown identifica nos regimes políticos neoliberais a modificação de um governo exercido por lideranças ou por partidos políticos para um governo dirigido em praticamente todos os terrenos pelo interesse do capital.
Apesar disso, a autora não realiza uma análise sobre o conteúdo dos ataques do neoliberalismo, nem no terreno econômico nem na esfera política. O texto envereda pela discussão dos fundamentos do que ela, e outros autores chamam de “ racionalidade neoliberal”.
“O ataque contemporâneo à sociedade e à justiça social em nome da liberdade de mercado e do tradicionalismo moral e, portanto, uma emanação direta da racionalidade neoliberal, e não se limitam aos assim chamados “conservadores” ( idem, p.29).
Na segunda parte da resenha será abordada o debate ideológico promovido por Wendy Brown com os autores fundadores do neoliberalismo, discutindo autores da ideologia neoliberal como Friedrich Hayek, Milton Friedman e os ordoliberais.





