Renúncia

Bernie Sanders: o fracasso da via reformista e conciliadora

Pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos, Bernie Sanders desistiu de sua candidatura.

No dia de ontem (8), Bernie Sanders desistiu de sua pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos da América. Até então, Sanders era o segundo mais bem cotado para concorrer às eleições presidenciais do fim do ano pelo Partido Democrata.

A participação de Bernie Sanders na disputa pela candidatura do Partido Democrata foi uma das mais importantes expressões da polarização política no principal país do capitalismo mundial. Em 2016, após oito anos de um governo tipicamente pró-imperialista, disfarçado pela demagogia com o povo negro e com a população LBGT e comandado pelo democrata Barack Obama, emergiram no cenário duas figuras que chamaram bastante atenção: por um lado, o empreiteiro multimilionário Donald Trump, um fascistoide de primeira linha, e, por outro, Bernie Sanders, o primeiro pré-candidato do Partido Democrata a se declarar socialista.

Naquela época, apenas Trump conseguiu ser alçado à condição de candidato — Bernie Sanders foi derrotado nas primárias por Hilary Clinton. A aparição de pré-candidatos da extrema-direita e da extrema-esquerda, por sua vez, foi o resultado da revolta crescente dos trabalhadores com a política neoliberal, levada a cabo tanto pelos representantes tradicionais do Partido Democrata, como pelo Partido Republicano. No entanto, a imprensa capitalista, para quem a vitória de Sanders seria um imenso fracasso, realizou uma imensa campanha afirmando que uma candidatura de centro – leia-se profundamente direitista —, como a de Clinton, seria a única alternativa para derrotar Donald Trump. Contudo, o que se viu foi o que já se esperava: revoltados com o regime político de conjunto, os norte-americanos preferiram Trump à candidata do imperialismo, Hilary Clinton.

Quatro anos se passaram. A política neoliberal ficou ainda mais desmoralizada em todo o mundo, e Trump não conseguiu mais se disfarçar como um elemento de fora do regime. As condições para que surgisse um candidato de extrema-esquerda, que erguesse um verdadeiro programa em defesa dos trabalhadores, jogando o ônus da crise para os capitalistas e pondo um basta na desastrosa política externa do imperialismo norte-americano, se tornaram ainda mais favoráveis. Eis que surge novamente, agora em 2020, Bernie Sanders, apresentando um ótimo desempenho no início das consultas internas do Partido Democrata.

A campanha da burguesia contra Bernie Sanders, obviamente, não só se dissipou como se tornou ainda mais feroz. Nenhuma novidade, contudo, quando comparada às campanhas do imperialismo contra os governos e candidatos de esquerda em todo o mundo, como no caso da campanha suja contra Lula, no Brasil, e Nicolás Maduro, na Venezuela. A pressão do imperialismo foi tal que os próprios integrantes do Partido Democrata se organizaram para sabotar a pré-candidatura do social-democrata.

O segundo fracasso da pré-candidatura de Bernie Sanders, no entanto, não deve ser compreendido unicamente a partir da iniciativa do imperialismo. Afinal, nada seria mais natural do que os capitalistas lançarem mão de todos os meios que lhe fossem cabíveis para impedir a vitória de uma figura que poderia acelerar a crise do regime político. É preciso, portanto, avaliar o papel que as decisões do próprio social-democrata tiveram nesse evento.

Ao ser derrotado em 2016, Bernie Sanders decidiu apoiar publicamente a candidatura de Hilary Clinton, apelando para seus apoiadores, portanto, que votassem na principal candidata do imperialismo. Naquele momento, Sanders já havia demonstrado os limites e a confusão de princípios que giravam em torno de sua campanha. Afinal, se o objetivo de Sanders era atacar os especuladores de Wall Street, não faria o menor sentido apoiar mais um governo Clinton.

A incapacidade de Bernie Sanders responder à pressão do imperialismo se tornou novamente visível na última campanha. Dividido entre travar uma luta em torno dos interesses da maioria da população e ganhar o apoio de algum setor dissidente da burguesia norte-americana, Sanders foi incapaz de seguir um programa acabado para as camadas mais exploradas do país mais rico do planeta. Como prova dessa política de cameleão, ora atendendo às demandas de sua base, ora procurando se mostrar um político perfeitamente compatível com o regime burguês, podemos citar a posição centrista do social-democrata em relação ao assassinato do general iraniano Qassem Soleimani. Na época, o social-democrata apenas criticou superficialmente o presidente Donald Trump, alegando que o ataque poderia aumentar a instabilidade no Oriente Médio.

A partir de fevereiro, no entanto, um evento pegou Bernie Sanders, Donald Trump e o mundo inteiro de surpresa: o novo coronavírus, que apareceu no final de 2019 na China, saiu completamente de controle. No dia 9 de março, a doença influenciou na queda generalizada das bolsas de valores em todo o mundo, encabeçada por conflitos em torno do petróleo. A partir de aí, o aumento no número de casos levou a uma série de episódios que apontam para uma crise econômica de enormes proporções.

Hoje, o coronavírus é considerado uma pandemia. Em todo o mundo, já morreram mais de 85 mil pessoas em decorrência da doença. Mais de 1,5 milhão já foram infectadas. Os Estados Unidos se tornaram, há algumas semanas, o epicentro da pandemia, concentrando o maior número de casos. São mais de 14 mil mortes no território norte-americano, o que coloca os Estados Unidos virtualmente empatado com o número de óbitos da Espanha, atualmente a segunda colocada em número de mortes provocadas pelo vírus.

Nessas condições, em que a saúde da classe trabalhadora mundial está sob seríssimo risco e os capitalistas se encontram em falência iminente, a esquerda e todas as organizações populares têm um papel fundamental. é hora, portanto, de travar uma intensa luta pela sobrevivência dos trabalhadores, uma luta para tomar dos capitalistas o poder de decidir se a população irá morrer de fome ou perecer diante da pandemia. Se os bancos estão ameaçados a falir, que entrem em falência! Se os capitalistas não encontram mais meios para sustentar seus negócios, que os entreguem aos trabalhadores! Nenhum centavo aos capitalistas, todos os recursos do Estado para salvar a população: é esta que deve ser a palavra de ordem da esquerda.

A renúncia de Bernie Sanders, no entanto, vai completamente na contramão dos acontecimentos. Se apoiar Hilary Clinton, em 2016, já foi uma capitulação do social-democrata, desistir de sua pré-candidatura, em um momento em que o governo norte-americano está transferindo trilhões de dólares para os bancos e duas mil pessoas estão morrendo diariamente por causa do coronavírus é um erro de proporções catastróficas. Se Sanders, que era o único pré-candidato que propunha medidas sociais em meio à profunda crise do capitalismo, está fora da disputa, o que será da classe operária norte-americana nas mãos dos capitalistas?

Na mensagem que Bernie Sanders gravou aos seus apoiadores, publicado em seu canal no YouTube, o social-democrata alega que iria abandonar a pré-candidatura porque a disputa se tornou matematicamente impossível. Tal argumento, ainda que fosse verdade, não deveria ser levado em consideração. A crise é tamanha que torna a situação cada vez mais imprevisível — a única certeza é que, na medida em que Bernie Sanders sai da disputa, a polarização com as posições pró-imperialistas de seu adversário, Joe Biden, irão prevalecer.

Deixando-se levar, novamente, pela campanha imperialista de que qualquer candidatura que se coloque contra Donald Trump seria favorável para a esquerda, Bernie Sanders afirmou que não faria sentido continuar em uma campanha que sairia perdedor. Isso, no entanto, vai totalmente de encontro aos interesses de seus próprios eleitores. No chat do vídeo em que Sanders confirmou sua renúncia, a principal palavra de ordem era never Biden — isto é, Biden nunca.

A burguesia, por sua vez, está bastante atenta aos clamores da base de Bernie Sanders. Sabe, conforme sua capacidade de tomar a iniciativa na luta política, que uma explosão social está colocada na ordem do dia por causa do total colapso do sistema de saúde — e que, portanto, ter um pré-candidato falando a todo o país que pretende universalizar o acesso à saúde seria tremendamente arriscado para o regime político. Assim, ao desistir da disputa, Sanders está cumprindo exatamente a política do imperialismo.

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