Oriente Médio

Vitória do Eixo da Resistência: tropas dos EUA fogem do Iraque

Após 23 anos de invasão e ocupação, últimos militares norte-americanos deixam o país; organizações armadas iraquianas comemoram a retirada

Os Estados Unidos chegam ao fim de setembro retirando do Iraque os últimos militares mantidos no país sob a chamada coalizão internacional. O acordo para encerrar essa presença havia sido firmado em 2024, mas o imperialismo ainda tentou, neste ano, condicionar sua saída ao desarmamento das organizações xiitas que exigem há anos a expulsão das forças estrangeiras. O governo iraquiano rejeitou a manobra e manteve 30 de setembro como prazo final.

A retirada está sendo comemorada pelas principais organizações da Resistência Islâmica no Iraque e na região como resultado de mais de duas décadas de luta contra a ocupação. Abu Mojtaba al-Yasiri, dirigente da coalizão, classificou a saída como uma “vitória histórica”. Militantes convocaram uma comemoração em Bagdá atribuindo o resultado ao “sangue dos mártires”, à persistência dos combatentes e à resistência contra a presença norte-americana.

O primeiro-ministro Ali al-Zaidi anunciou que 1º de outubro deverá marcar, segundo o governo, um novo momento para a soberania iraquiana. A afirmação precisa de uma ressalva: tropas turcas ainda permanecem no norte, embora Ancara tenha acertado a transferência gradual da base de Baxica-Zelican ao governo iraquiano até o fim do ano.

O exército americano sai do Iraque 23 anos depois de entrar no país baseado numa mentira. Em março de 2003, George W. Bush lançou a invasão afirmando que Sadam Hussein mantinha armas de destruição em massa e representava uma ameaça internacional. O arsenal não foi encontrado. A guerra era uma operação imperialista montada sobre pretextos falsos para submeter um país estratégico e rico em petróleo.

O preço pago pelos iraquianos foi enorme. O projeto Costs of War, da Universidade Brown, calcula que as guerras no Iraque e na Síria ligadas às operações norte-americanas produziram entre 550 mil e 580 mil mortes diretas entre 2003 e 2023. O levantamento chama atenção ainda para um número muito maior de mortes indiretas provocadas pela destruição dos sistemas de saúde, abastecimento, saneamento e de outras condições elementares de vida. Antes disso, somente as sanções aplicadas pela ONU ao Iraque nos anos 1990 haviam matado mais de meio milhão de crianças.

A ocupação não se resumia aos grandes bombardeios. Prisões arbitrárias, invasões de residências, revistas e postos militares passaram a fazer parte da vida cotidiana. A própria ONG imperialista Human Rights Watch registrou que mais de 12 mil iraquianos haviam passado pela custódia norte-americana pouco depois da invasão, o que, vindo de quem vem o dado, é claramente conservador. Segundo militares dos próprios Estados Unidos ouvidos pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, entre 70% e 90% das pessoas detidas em 2003 poderiam ter sido presas por “engano”.

Abu Ghraib mostrou ao mundo alguns dos métodos empregados. Presos foram espancados, mantidos nus, privados de sono, submetidos a posições dolorosas e humilhações sexuais. Eram as regras de interrogatório adotadas pelo governo Bush.

Faluja tornou-se outro símbolo. A cidade, um dos grandes centros da oposição armada à ocupação, sofreu duas grandes ofensivas norte-americanas em 2004. O Pentágono acabou reconhecendo posteriormente que fósforo branco havia sido empregado como arma incendiária contra combatentes, mas é claro que a ONU ou a famigerada “comunidade internacional” nada fizeram contra os EUA.

A resposta à invasão começou muito antes de Washington conseguir organizar um regime político estável sob sua tutela. Uma história oficial produzida pelo próprio Exército norte-americano registra 160 ataques contra forças da coalizão em maio de 2003, cerca de 300 em junho e quase 500 em julho. Em agosto do ano seguinte, o número mensal já havia ultrapassado 600. A proclamada vitória rápida dos Estados Unidos transformou-se quase imediatamente numa guerra de ocupação contra forças armadas espalhadas pelo país.

A resistência não formava um bloco único. Nos primeiros meses, parte considerável dos ataques ocorreu nas regiões de maioria sunita. Entre os xiitas, porém, também cresceu rapidamente a oposição armada. Muqtada al-Sadr organizou o Exército Mahdi, que em 2004 entrou em grandes confrontos com tropas norte-americanas em Najaf, Cidade Sadr e outras localidades.

Outras organizações xiitas mantinham relações muito mais estreitas com o Irã. A Revolução Islâmica do Irã forneceu armas, treinamento, financiamento e apoio político a diferentes forças iraquianas. O Cataebe Hesbolá tornou-se uma das principais delas. Seu fundador, Abu Mahdi al-Muhandis, havia integrado as Brigadas Badr e mantinha ligação com a Força Quds iraniana. Anos depois, al-Muhandis seria assassinado pelos Estados Unidos ao lado do general iraniano Qassem Soleimani, em janeiro de 2020. Essas organizações são parte do processo que daria forma ao atual Eixo da Resistência.

A própria expressão “Eixo da Resistência” tem uma ligação histórica com a guerra no Iraque. O termo apareceu em 2002 no jornal líbio Al-Zahf Al-Akhdar, em resposta ao “Eixo do Mal” de Bush. Em 2004, o iraniano Jomhuri-ye Eslami utilizou a expressão para se referir à luta iraquiana contra a ocupação, com destaque para as organizações xiitas. Posteriormente, a denominação passou a englobar o Irã, o Hesbolá libanês, forças palestinas, organizações iraquianas e o Ansar Alá no Iêmen.

O primeiro grande ciclo da ocupação terminou em 2011, quando os Estados Unidos retiraram a maior parte de suas tropas. Washington voltou militarmente ao país em 2014, durante o avanço do Estado Islâmico, um pretexto para retomar a ocupação. No mesmo ano, o aiatolá Ali Sistani convocou os iraquianos a combater a organização, dando impulso às Forças Populares de Mobilização. Parte importante de seus agrupamentos, porém, já vinha da luta contra a ocupação norte-americana.

O equilíbrio regional mudou novamente depois de 7 de outubro de 2023. A operação do Hamas contra “Israel”, uma ação revolucionária da resistência palestina, desencadeou uma guerra que se espalhou para outras frentes. Organizações iraquianas passaram a atacar bases norte-americanas e alvos israelenses sob o nome de Resistência Islâmica no Iraque. Em 2026, autoridades ouvidas pela Reuters estimavam em cerca de 50 mil o número de combatentes nas principais facções alinhadas ao Irã.

No Iêmen, o Ansar Alá enfrentou diretamente Estados Unidos e “Israel”, ao mesmo tempo em que ampliou a luta contra forças apoiadas pela Arábia Saudita. No Líbano, o Hesbolá manteve a frente militar contra “Israel”. Essas guerras mostram uma coordenação regional que impede Washington e Telavive de tratarem cada adversário isoladamente. Rui Costa Pimenta resumiu essa posição ao afirmar, durante a atual guerra contra o Irã, que o imperialismo enfrenta “uma estrutura” formada por Hesbolá, resistência iraquiana, Iêmen, organizações palestinas e a própria República Islâmica.

O Irã passou também ao confronto aberto. Na guerra de 12 dias de 2025, “Israel” iniciou os ataques em 13 de junho e os Estados Unidos intervieram posteriormente bombardeando instalações nucleares iranianas. Uma avaliação preliminar da inteligência militar norte-americana apontou que os ataques não haviam destruído o programa nuclear iraniano, contrariando as declarações de Donald Trump de que ele teria sido eliminado. O conflito terminou após 12 dias com um cessar-fogo.

Esse resultado foi uma derrota dos objetivos de Washington e de Netaniahu: o governo iraniano não caiu, o país manteve capacidade de lançar mísseis contra “Israel” e os ataques norte-americanos não conseguiram produzir a destruição anunciada do programa nuclear.

A nova guerra, iniciada em fevereiro de 2026 por Estados Unidos e “Israel”, aumentou ainda mais o alcance do confronto. O Irã passou a atingir diretamente posições militares norte-americanas no Golfo. Em junho, a Guarda Revolucionária reivindicou ataques contra bases dos EUA no Cuvaite e no Barém. No Iraque, as ações contra instalações norte-americanas foram realizadas por organizações locais alinhadas a Teerã. Em 17 de março, foguetes e pelo menos cinco VANTs foram lançados contra a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá; um dos aparelhos atingiu o interior do complexo.

A guerra de 2026 ainda não terminou. Em setembro, Estados Unidos e Irã continuam negociando por intermédio de mediadores enquanto prosseguem os confrontos. Mas os acordos provisórios alcançados ao longo do ano constituem derrotas dos planos norte-americanos, sobretudo por Washington não ter conseguido impor a capitulação de Teerã, destruir o Eixo da Resistência ou abrir permanentemente o Estreito de Ormuz nas condições pretendidas pelos EUA.

No Iraque, porém, há um resultado material imediato: os soldados norte-americanos estão saindo. Washington tentou usar a retirada como instrumento para exigir que o Cataebe Hesbolá, o Haracat al-Nujaba e outras organizações entregassem seus arsenais. Bagdá adiou para junho de 2027 a questão da integração ou do desarmamento dessas forças, enquanto alguns dos grupos mais poderosos afirmam que não aceitarão entregar as armas.

Isso não transforma automaticamente o Iraque num país independente da pressão imperialista. O imperialismo conserva instrumentos financeiros, econômicos e diplomáticos. Nesta terça-feira (29), por exemplo, o governo iraquiano anunciou que a Iraqi Airways só retomará voos para o Irã depois de receber uma autorização especial do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, necessária por causa das sanções contra Teerã.

Mas a diferença em relação a 2003 é concreta. O país que Bush ocupou prometendo remodelar o Oriente Médio vê partir os últimos militares daquela presença enquanto organizações que Washington tentou destruir continuam armadas e possuem enorme peso político e militar. É por isso que para a Revolução Islâmica do Irã e para as organizações da Resistência Islâmica, a retirada norte-americana aparece como uma vitória acumulada em mais de duas décadas de luta contra a ocupação.

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