O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de Pernambuco, Victor Assis, rejeitou o roteiro eleitoral baseado em promessas e apresentou um programa de mobilização dos trabalhadores. Em entrevista ao programa Radar 98, da Rádio Marinha FM, ele defendeu o não pagamento da dívida pública, o armamento da população, a estatização dos serviços e o fim da proibição dos celulares nas escolas.
Assis explicou que o PCO não pretende apenas trocar os ocupantes do governo. O Partido luta para que a população controle as instituições e imponha suas necessidades contra os interesses dos bancos e das grandes empresas.
Um partido de militantes
Militante há dez anos, Assis entrou no PCO em 2016, durante o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff. Naquele momento, identificou-se com a posição de que a ofensiva não seria derrotada por acordos no Congresso ou decisões judiciais.
“O PCO, ao contrário dos grandes partidos, lança pessoas que são militantes. Não são políticos profissionais, mas pessoas que atuam diariamente organizando o Partido, participando dos movimentos, da luta sindical e divulgando a imprensa partidária”, afirmou.
O candidato lembrou que os responsáveis pela derrubada de Dilma também prepararam a prisão de Lula. Agora, esses mesmos setores procuram manipular as eleições e impedir que os candidatos de maior apoio popular decidam a disputa.
“Eu me identifiquei com o PCO por ser um partido consequente, que não acreditava que as mudanças no País seriam resolvidas pelos meios institucionais, mas por meio do enfrentamento e da mobilização contra os banqueiros, os latifundiários e aqueles que promoviam o golpe contra Dilma”, declarou.
Assis citou o escândalo do Banco Master para contestar a apresentação do Supremo Tribunal Federal (STF) como “guardião da democracia”. O episódio expôs ministros comprometidos com banqueiros e empresários, não com os interesses da população.
“A diferença principal é que nós, do PCO, não consideramos possível resolver os problemas fundamentais dos trabalhadores pela via institucional, por meio de acordos no Parlamento ou no Judiciário. Todo o regime político está apodrecido”, disse.
Os demais concorrentes prometem construir hospitais, escolas e obras caso sejam eleitos. Assis rejeitou essa forma de fazer campanha porque uma medida isolada não retira a saúde, a educação ou o dinheiro público do controle dos capitalistas.
“Nós somos um partido revolucionário. Consideramos que a própria população deve impor sua vontade aos governantes. Os outros candidatos vêm aqui e dizem: ‘Se eu for eleito, vou resolver a educação, vou construir isso, vou fazer aquilo’. Na nossa opinião, isso é mentira”, afirmou.
O PCO apresenta reivindicações como o salário mínimo de R$7.500,00, a estatização da saúde e da educação, o fim das privatizações e a retomada das grandes empresas entregues ao capital privado.
“Nosso papel na eleição não é prometer nada. É denunciar o regime político, denunciar as autoridades públicas e convocar os trabalhadores a se mobilizarem por meio de um programa de luta. Em vez de um conjunto de promessas, apresentamos aquilo pelo que os trabalhadores devem lutar”, explicou.
A dívida pública entrega a arrecadação aos bancos
Assis apontou a dívida pública como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do País. O mecanismo retira dinheiro dos serviços públicos e transfere uma parcela enorme da arrecadação aos bancos na forma de juros.
“O problema da dívida pública estará presente em todas as questões do estado e do País. Faço questão de explicar isso porque, para nós, ela é um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento nacional. Metade do dinheiro arrecadado vai parar nas mãos dos bancos por meio desse mecanismo criminoso”, denunciou.
A população paga impostos elevados, mas não recebe hospitais, escolas, transportes e moradias nas condições necessárias. O dinheiro arrecadado é usado para manter uma dívida que já foi paga inúmeras vezes.
“Fizeram a dívida pública há muito tempo e, desde então, a população vem pagando seus juros. Isso impede que o País e os estados tenham recursos para fazer alguma coisa. Defendemos o não pagamento e o fim da dívida pública, porque essa dívida já foi paga, para que sobrem recursos para investir naquilo de que a população precisa”, afirmou.
O entrevistador perguntou se a suspensão do pagamento afastaria investidores. Assis respondeu que os investimentos já não são realizados porque os recursos do Estado acabam nas mãos dos banqueiros. Caso os capitalistas se recusem a investir, o próprio poder público deve fazê-lo.
A proposta inclui a retomada de empresas privatizadas e um amplo plano de obras. Assis citou a Eletrobrás, construída com o dinheiro e o trabalho dos brasileiros e entregue por uma pequena parcela de seu valor. A estatização permitiria criar empregos, enquanto as obras resolveriam problemas de infraestrutura de Pernambuco.
Contra a proibição dos celulares
Na educação, Assis criticou as escolas de ensino integral que mantêm adolescentes durante todo o dia em prédios sem bibliotecas, quadras ou condições adequadas. Os estudantes são obrigados a permanecer ali, mas não participam das decisões sobre o ensino.
“A escola hoje é um presídio. O adolescente acorda às seis horas da manhã, chega em casa às seis da tarde e praticamente não aprende nada. Ao mesmo tempo, não pode sair de lá porque será reprovado”, criticou.
O programa do PCO prevê comissões formadas por representantes dos professores, dos estudantes e dos pais. Esses organismos decidiriam sobre reformas, investimentos e funcionamento das aulas.
“O aluno que estuda com uma goteira no teto é quem vai se incomodar e pressionar para que haja uma reforma. A decisão sobre os investimentos deve ficar com aqueles que são diretamente afetados”, explicou.
Assis também atacou a proibição dos celulares nas escolas, medida apoiada pela direita e pela esquerda parlamentar.
“O PCO é o único partido do Brasil absolutamente contra a proibição dos celulares nas escolas. Consideramos que isso é uma repressão aos direitos políticos dos adolescentes. Hoje, é por meio do celular que o adolescente aprende muita coisa, infelizmente até mais do que na escola”, afirmou.
Proibir o aparelho transfere aos estudantes a responsabilidade pelo fracasso do ensino. A solução está em melhorar as aulas, reduzir o número de alunos por sala e permitir que a comunidade escolar decida como a escola deve funcionar.
“Se ele está usando o celular e não presta atenção na aula, é porque a aula está desinteressante. Então, é preciso mudar a aula, discutir com o professor e fazer a sala funcionar. Não adianta colocar 150 alunos dentro de uma sala”, declarou.
Armamento para toda a população
Na segurança pública, Assis defendeu que os moradores elejam os responsáveis pelas forças policiais de cada bairro. Hoje, os agentes respondem a uma burocracia acusada de envolvimento com o tráfico, milícias e outros crimes.
O candidato também criticou mecanismos que premiam policiais pelo número de prisões ou apreensões. Esse sistema estimula abusos e pode levar agentes a implantar drogas para atingir metas.
“Em vez desse tipo de polícia, defendemos que a população do bairro eleja quem vai comandar aquela força. Essa pessoa poderá ser cobrada tanto pelos excessos, porque a polícia mata muita gente que não tem nenhuma relação com o crime, quanto pela falta de eficiência”, explicou.
O PCO defende ainda o armamento irrestrito da população. Assis distinguiu essa política tanto do desarmamento defendido pela esquerda parlamentar quanto da posição limitada do bolsonarismo.
“Nós somos o único partido totalmente favorável ao armamento. A esquerda, em geral, desistiu dessa defesa, e o bolsonarismo se diz defensor do armamento, mas é um defensor parcial. Bolsonaro foi presidente e não liberou o armamento da população”, afirmou.
O direito às armas não deve ficar reservado aos ricos, fazendeiros, policiais e colecionadores.
“Defendemos o armamento total da população pobre, do camponês e do índio. Todo mundo tem direito a ter sua arma”, declarou.
Assis também defendeu o armamento como instrumento de autodefesa das mulheres. O aumento das penas não impediu o crescimento dos homicídios e apenas colocou mais pessoas nas cadeias.
“A mulher estará mais protegida se tiver o direito à autodefesa, ou seja, o direito ao armamento. Criar uma lei para aumentar a pena não resolve o problema. A única coisa que acontece é colocar mais gente na cadeia”, disse.
O crescimento da violência acompanha a miséria, o desemprego e a falta de perspectivas. A criação de empregos e a melhoria das condições de vida atacam as causas sociais do problema, enquanto o direito às armas permite que a população se defenda.
Saúde e transporte fora das mãos dos empresários
O programa apresentado por Assis retira a saúde e o transporte do controle das empresas privadas. Na saúde, os recursos que deveriam financiar os hospitais acabam nos bancos, nas seguradoras e nos grandes grupos do setor.
“O maior problema da saúde é que ela responde aos interesses privados. As pessoas morrem todos os dias porque o dinheiro que deveria ir para os hospitais vai parar nos bancos, no pagamento da dívida pública, nas seguradoras e nos grandes hospitais privados”, afirmou.
No transporte, o governo entrega subsídios às empresas sem garantir qualidade. O candidato propôs uma empresa estatal submetida à fiscalização dos passageiros.
Durante a pandemia de covid-19, as empresas reduziram o número de ônibus, aumentaram a lotação e facilitaram a propagação da doença. Para Assis, os moradores de cada bairro devem decidir o número de linhas, a frequência dos veículos e os principais destinos.
“As decisões hoje são tomadas com base no lucro. O Estado não existe para dar lucro. Existe para atender aos interesses do povo”, declarou.
Abaixo a censura
Ao falar sobre o racismo, Assis defendeu o combate à discriminação contra negros no emprego e nas demais relações sociais. Ele também denunciou o uso das acusações de racismo para censurar opiniões e promover figuras ligadas ao regime político.
A indicação de uma pessoa negra para o STF, por exemplo, não muda o caráter do tribunal. Serve apenas para melhorar a imagem de uma instituição que atua contra os trabalhadores.
A censura já alcança o PCO por sua defesa do povo palestino.
“Chegamos ao ponto em que o PCO, por defender o povo palestino, massacrado pelos países mais poderosos do mundo e pelo próprio Estado de ‘Israel’, é acusado de racismo. Interpretam a defesa da Palestina como racismo contra os judeus”, afirmou.
Assis ressaltou que combater a discriminação é diferente de proibir opiniões. A população negra precisa de emprego, salário, moradia e melhores condições de vida, não da promoção de indivíduos dentro das instituições responsáveis por sua exploração.
A inspiração de Rui Costa Pimenta
No fim da entrevista, Assis foi questionado sobre sua principal inspiração. Ele citou Rui Costa Pimenta, presidente do PCO e candidato à Presidência.
“Rui Costa Pimenta é uma inspiração para todos do nosso Partido. São 40 anos de militância e hoje ele é perseguido pela Polícia Federal por falar o que ninguém tem coragem de falar”, declarou.
Ao responder sobre o compromisso do qual jamais abriria mão, Victor Assis foi direto: “a luta pela revolução socialista”.




