Em artigo publicado no Brasil 247, no dia 1º de maio de 2026, intitulado Alexandre de Moraes, Eduardo Guimarães, responsável pelo Blog da Cidadania, saiu em defesa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) diante das acusações que pesam contra ele. O autor afirma que Moraes não é “super-herói”, não é “infalível” e não está acima de críticas, mas sustenta que pessoas justas deveriam evitar condená-lo de maneira definitiva.
O argumento é infantil. Ninguém disse que Alexandre de Moraes é infalível. Ninguém está discutindo se ministros do STF podem ou não errar. O que está em debate é uma acusação gravíssima: a suspeita de que Moraes teria utilizado sua posição no Judiciário para intermediar negócios com banqueiros de modo que sua mulher faturasse um contrato milionário. Isso, caso confirmado, não é um “erro”. É um escândalo repugnante.
Reduzir uma denúncia dessa natureza à ideia genérica de que “ninguém é perfeito” é fugir completamente do problema. O povo trabalhador conhece muito bem o peso do Judiciário quando esse mesmo Judiciário resolve agir contra os pobres, contra grevistas, contra militantes, contra os movimentos populares. Para esses, nunca há o “benefício” generoso que certos articulistas querem reservar a ministros poderosos.
A defesa de Moraes feita por Eduardo Guimarães não convence porque não enfrenta o conteúdo político do problema. Ela tenta deslocar a discussão para o terreno moral abstrato: seria injusto condenar alguém apressadamente, seria exagero atacá-lo duramente, seria covardia aderir às acusações. Quando um ministro do STF é acusado de estar envolvido em negócios milionários ligados a banqueiros, a primeira obrigação de qualquer setor que se reivindique democrático e popular é exigir esclarecimento completo e independência diante do acusado, não fechar fileiras em torno dele.
O problema central é de classe. Alexandre de Moraes não é amigo dos trabalhadores. Nunca foi. Não é uma liderança popular, não é um defensor histórico das liberdades democráticas, não é um aliado da esquerda. É um homem do aparelho de Estado burguês. Foi ministro do governo Temer, isto é, de um governo que nasceu do golpe contra Dilma Rousseff e avançou contra os direitos do povo. Foi secretário de Segurança de Geraldo Alckmin em São Paulo, cargo no qual representou a política repressiva típica da direita contra a população pobre, os movimentos sociais e a juventude.
A esquerda que resolveu transformar Moraes em uma espécie de barreira democrática contra o bolsonarismo cometeu um erro profundo. Confundiu uma disputa interna entre setores do regime com uma luta real pelos interesses dos trabalhadores. Moraes entrou em choque com Bolsonaro em determinado momento, mas isso jamais fez dele um representante do povo. Um juiz, um ministro do STF, um chefe do aparato repressivo do Estado, pode entrar em conflito com outro setor da direita sem deixar de ser aquilo que sempre foi: um representante das instituições da burguesia.
É justamente por isso que a defesa acrítica de Moraes é tão perigosa. Ao se aliar a uma figura desse tipo, a esquerda fica refém dela. Fica obrigada a silenciar quando surgem denúncias graves. Fica constrangida a relativizar escândalos. Fica incapaz de dizer ao povo a verdade: que não se pode confiar nas instituições controladas pela classe dominante para defender os direitos democráticos até o fim. Hoje, Moraes pode aparecer como adversário de Bolsonaro. Amanhã, se a situação política exigir, esse mesmo aparelho judicial poderá voltar-se contra greves, contra militantes de esquerda, contra organizações populares e contra o próprio PT.
Aliás, isso não seria novidade. A história do Judiciário brasileiro é a história de uma instituição profundamente reacionária, aristocrática, distante do povo e ligada aos interesses dos ricos.
Eduardo Guimarães tenta apresentar a defesa de Moraes como uma atitude de justiça. Mas justiça, nesse caso, não é pedir silêncio ou moderação diante de denúncias gravíssimas. Justiça seria exigir que um homem com tamanho poder político e judicial fosse investigado com o máximo rigor. Justiça seria lembrar que ninguém que ocupa posição tão alta no Estado pode estar imune à crítica pública. Justiça seria recusar a chantagem segundo a qual criticar Moraes significaria, automaticamente, fortalecer a extrema direita.





