O artigo O caso Master e a implosão da família Bolsonaro, de Florestan Fernandes Jr., publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (20), afirma que:
“O bolsonarismo vive seu grande teste de fogo. Apanhados em contradições, os irmãos Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro tropeçam nas próprias versões na tentativa de sustentar narrativas tão inverossímeis que constrangem até os fiéis da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, liderada pelo pastor Silas Malafaia. O roteiro improvisado criado pelos filhos de Jair Bolsonaro não resiste à verdade dos fatos, revelada aos poucos, em conta-gotas. A cada dia, Flávio Bolsonaro se vê obrigado a reformular a versão apresentada anteriormente.”
A esquerda já deveria ter aprendido isto com os processos contra o Partido dos Trabalhadores (PT): a divulgação de crimes, escândalos, têm quase que exclusivamente motivação política. E nem é necessário que os crimes existam de fato, pois podem ser fabricados, ou poderiam estar guardados em alguma gaveta esperando o momento oportuno para serem divulgados.
Todos devem se lembrar das inúmeras denúncias que surgiram no início do mandato de Bolsonaro, como rachadinhas, vizinho miliciano, compra de mansão à vista. Tudo isso deu em nada, ou está sendo cozinhado em banho-maria.
A aparição desses casos reforça a tese de que a burguesia não quer nenhum Bolsonaro na presidência, mas um candidato de terceira via, dado que Lula também não aparece nos planos do grande capital. Que o grande capital tenha seus planos não é certeza de que darão certo, mas estão jogadas as cartas.
Adiante, Florestan Fernandes Jr. escreve que “de sua prisão domiciliar em um condomínio de luxo em Brasília, usando tornozeleira eletrônica, o ‘ex-poderoso’ chefão da máfia tupiniquim vê ameaçado o seu maior patrimônio político: os milhões de seguidores da seita ‘Deus, Pátria, Família e Liberdade’, abalados agora por uma denúncia de corrupção difícil de contestar”.
Colocar as coisas nesses parâmetros não vai resolver a vida da esquerda. O Brasil está polarizado entre Lula e Bolsonaro. Assim como o PT tem um eleitorado fiel, o bolsonarismo formou sua base, e é a partir daí que as ações políticas devem ser elaboradas.
Muitos apoiadores de Bolsonaro foram atraídos pelo discurso antissistema, coisa que a esquerda perdeu desde que se tornou governo. E não apenas isso: Lula se aproximou demais de instituições amplamente rejeitadas pela população, como o Supremo Tribunal Federal – STF, a mesma corte que, com o julgamento farsa da “trama golpista”, faz com que os bolsonaristas apoiem com mais convicção o ex-presidente.
A esquerda deveria se ocupar e debater com a direita, mostrar suas contradições, para trazer de volta a parcela da classe trabalhadora que desgarrou. Ficar tratando essa gente de “seita” apenas impede o debate.
Fernandes Jr. escreve que “em pesquisa da Atlas/Bloomberg, Renan [MBL] aparece em terceiro lugar, com 6,9% à frente dos ex-governadores de direita Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O líder do Movimento Brasil Livre tem cobrado explicações de Flávio Bolsonaro após o vazamento de áudios nos quais o senador pede R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Renan Santos chegou a afirmar recentemente que ‘onde há escândalo de corrupção, há Flávio’”.
Esse cenário não é necessariamente bom para Lula, e pode, inclusive, dificultar sua reeleição. Se um desses nomes ultrapassar Flávio Bolsonaro, em um segundo turno a direita vai se unificar.
Pessoas como Tarcisio de Freitas, Renan dos Santos, Romeu Zema, têm o perfil esperado pelo grande capital. Um candidato sem base eleitoral – o que o torna fácil de controlar — e que esteja disposto a aplicar uma política fortemente neoliberal, como faz Javier Milei na Argentina.
Portanto, é fato que “o enfraquecimento do bolsonarismo não significa, necessariamente, o fim da extrema direita”. E é preciso dizer que o problema não está em enfrentar o suposto fascismo, mas as democracias liberais, que estão implementando a censura e penas cada vez mais duras. Os fascistas não ficam devendo nada para os democratas, cada vez mais autoritários e violentos.
O jornalista pergunta se “no pior dos cenários para a família Bolsonaro, o ex-presidente poderá acabar tendo a companhia de dois de seus filhos no cumprimento de eventual pena de prisão”. Aqui é preciso perguntar: o que aconteceu com Lula quando saiu da prisão? Foi eleito presidente da República.
Nos Estados Unidos, Donald Trump se fortaleceu quando esteve a ponto de ir para a cadeia, pois seu eleitorado entendeu que se tratava de uma perseguição política e que Trump seria uma vítima do sistema.





