O governo da Somália anunciou, na quarta-feira (22), que proibirá a passagem de embarcações ligadas a “Israel” pelo estreito de Babelmândebe, uma das passagens marítimas mais importantes do mundo. A medida foi apresentada como resposta ao reconhecimento, por parte da entidade sionista, da Somalilândia, região separatista que declarou independência em 1991, mas não é reconhecida por nenhum país membro da Organização das Nações Unidas (ONU).
O anúncio foi feito pelo embaixador da Somália na Etiópia e na União Africana, Abdullah Warfa. Segundo ele, violações da soberania da Somália “não serão toleradas”. Warfa afirmou ainda que interferências externas podem levar a medidas de retaliação, “como restringir o acesso à rota marítima-chave de Babelmândebe”.
A decisão ocorre após “Israel” tornar-se, no fim do ano passado, a primeira entidade a reconhecer a Somalilândia como um Estado independente. A Somália condenou a medida, assim como outros países da região, entre eles a Turquia. No início deste mês, o governo somaliano também criticou a nomeação de um embaixador israelense para a Somalilândia.
A Somalilândia funciona, desde 1991, com instituições próprias e estrutura de segurança separada, mas segue sem reconhecimento. Para a Somália, a iniciativa de “Israel” representa uma violação direta da integridade territorial do país. O reconhecimento da região separatista pela entidade sionista foi condenado até mesmo pelo Conselho de Segurança da ONU.
O Babelmândebe liga o mar Vermelho ao Golfo de Ádem e ao Oceano Índico. Pela passagem transitam cerca de 12% do petróleo mundial e 8% do gás natural liquefeito (GNL) transportado no comércio internacional. A região já vinha ganhando importância com as operações do Ansar Alá, do Iêmen, contra embarcações ligadas a “Israel” e aos EUA no Mar Vermelho.
Embora haja dúvidas sobre a capacidade militar da Somália para impor a medida, diante de sua limitada força naval e aérea, o anúncio tem grande importância política. A decisão pode aproximar o país africano do Iêmen, especialmente em torno do controle de uma das principais rotas marítimas do planeta.
Um dia depois do anúncio, a Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) informou que um navio cargueiro, a 83 milhas náuticas a sudeste de Eyl, na Somália, foi abordado por duas pequenas embarcações armadas. Uma delas teria se aproximado a cerca de 600 metros do navio.
“Tiros de advertência foram disparados e a embarcação suspeita respondeu ao fogo. A pequena embarcação suspeita afastou-se e deixou a área do navio cargueiro que fez o relato. Toda a tripulação está segura e contabilizada”, informou a UKMTO.
O anúncio do governo somaliano também ocorre em meio à tensão entre o Irã e os EUA, mesmo após o cessar-fogo. O Estreito de Ormuz permanece fechado, e o Irã retaliou o bloqueio e a apreensão de suas embarcações pelos norte-americanos, capturando dois navios nesta semana.
O Ansar Alá, que controla uma região próxima ao Babelmândebe, realizou diversas operações durante a guerra dos EUA e de “Israel” contra o Irã. A organização iemenita afirmou recentemente que retomará as operações se o cessar-fogo entre EUA e Irã for rompido.
No início deste mês, Behnam Saeedi, membro da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano, afirmou que o eixo anti-imperialista possui novas formas de pressão sobre os EUA e “Israel”.
“Temos cartas de vitória mais sérias; os EUA devem entender que, com a ajuda de nossos irmãos iemenitas, a questão do estreito de Babelmândebe também está sob consideração e ação”, disse Saeedi.
No Plantão Irã desta sexta-feira (24), programa diário da Causa Operária TV (COTV) em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), Victor Assis comentou a decisão da Somália e destacou seu significado político. Assis avaliou que a medida aprofunda o desgaste da entidade sionista, pois demonstra que até países de menor peso na política internacional passaram a enfrentar “Israel” abertamente.
“Quando você chega ao ponto de um país como a Somália, um país extremamente secundário na política internacional, estar enfrentando ‘Israel’, significa que a Somália não teme as consequências, as retaliações que poderiam vir por parte do sionismo e do imperialismo”, afirmou.
O comentário foi feito após a observação de que o caso ocorre em uma área decisiva para o comércio marítimo e para a pressão contra “Israel”. A atuação do Iêmen e do Ansar Alá no mar Vermelho já havia demonstrado que o controle dessas rotas é um dos pontos fracos da política norte-americana e sionista na região.
Segundo Assis, a situação também expressa a pressão das populações árabes e muçulmanas sobre governos alinhados ao imperialismo. Ele citou Egito e Arábia Saudita como exemplos de regimes ligados aos EUA, mas que enfrentam forte pressão popular em defesa da causa palestina e contra a agressão ao Irã.
“Há uma tendência à unificação da população daquela região, que faz com que, por exemplo, o Egito, que é uma ditadura militar pró-imperialista, não tenha intervindo nesta guerra, o que seria natural. O imperialismo está com dificuldade, normal seria o Egito ir lá e apoiar os esforços norte-americanos contra o Irã. Mas ele não faz isso porque a pressão da população contra o seu governo é muito grande, o apoio ao Irã e à causa palestina é muito grande”, explicou.





