Análise da 3ª

Rui: ‘o PT é um partido decadente’

Presidente do PCO atribuiu a derrota de Lula ao esgotamento da política petista e criticou a hostilidade de setores da esquerda contra os trabalhadores

Rui Costa Pimenta classificou o resultado do primeiro turno como uma derrota política de grandes proporções para Lula e para o PT. Na primeira edição da Análise da 3ª depois da votação, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) afirmou que o avanço de Flávio Bolsonaro não pode ser explicado simplesmente por erros cometidos nas últimas semanas da campanha. Para ele, a votação mostrou o esgotamento de uma política seguida pelo petismo há mais de duas décadas.

Lula disputou a eleição ocupando a Presidência da República e enfrentou Flávio Bolsonaro, que entrou na disputa no lugar do pai. Além do resultado presidencial desfavorável, Pimenta chamou atenção para o crescimento parlamentar do PL, que conquistou as maiores bancadas na Câmara e no Senado, enquanto os partidos da base governista perderam terreno. Também citou derrotas importantes do PT nas eleições estaduais.

“Esse desastre não depende do segundo turno para a gente fazer essa caracterização. O resultado do primeiro turno já permite essa caracterização. É um fracasso político, é uma derrota política muito significativa do PT. Do PT e da esquerda, porque o PT comandou uma frente política de vários partidos.”

O resultado, segundo Rui, não surgiu de repente. A política petista já apresentava sinais de esgotamento em 2016, quando Dilma Rousseff foi derrubada. O golpe, seguido pelo governo profundamente impopular de Michel Temer e posteriormente pela crise do governo Bolsonaro, permitiu ao PT recuperar terreno e retornar ao Palácio do Planalto. Lula teve, então, a possibilidade de modificar a política que havia levado o Partido ao desgaste anterior. Não fez isso.

“O terceiro governo do Lula foi uma continuação piorada da política seguida até então, que já estava esgotada. Não é o problema de tal ou qual medida que o Lula poderia adotar, mas é a falta de uma perspectiva de oferecer ao trabalhador brasileiro, ao povo brasileiro, uma perspectiva nova. O PT ofereceu a mesma perspectiva de praticamente 20 anos atrás, piorada. E isso daí levou à completa exaustão do ciclo petista.”

Uma das ilusões alimentadas pelo petismo, explicou, foi a ideia de que os trabalhadores teriam acumulado grandes conquistas nos governos do PT e, por isso, naturalmente reconheceriam Lula nas urnas. A avaliação ignora a perda de direitos, a destruição de empregos estáveis, o baixo salário mínimo, a crise da aposentadoria e o retrocesso da indústria brasileira.

Para Pimenta, é preciso partir da ofensiva desencadeada contra a economia nacional durante os governos de Fernando Henrique Cardoso. Privatizações, entrega de empresas estatais e aumento do desemprego deterioraram profundamente as condições de vida da população. O PT chegou ao governo sem reverter esse processo e respondeu à miséria crescente principalmente com programas de auxílio.

“O trabalhador não ganhou nada. O governo FHC inaugura uma nova etapa política no Brasil. E essa etapa política é marcada por um ataque gigantesco à economia nacional com as privatizações, a entrega das grandes empresas estatais brasileiras para o capital estrangeiro e o ataque contra as condições de vida da população. […] Aí o PT chega ao governo em 2002 e vai implantar o Bolsa Família. O Bolsa Família é um programa paliativo. Ele não resolve nenhum problema real. Ele simplesmente diminui o sofrimento da população.”

Rui comparou esses programas aos cuidados paliativos utilizados na medicina: reduzem o sofrimento, mas não eliminam a doença. Enquanto a direção petista apresentava essa política como uma transformação social de grande alcance, milhões de brasileiros continuavam submetidos ao desemprego, ao subemprego, aos baixos salários e à falta de perspectiva. A economia, por sua vez, tornou-se cada vez mais dependente da exportação de produtos agrícolas e minerais sem beneficiamento.

A revolta que apareceu na eleição teria essa base material. O eleitor que procura uma mudança pode votar no bolsonarismo sem possuir uma adesão ideológica consolidada à direita. O que ele sabe, explicou Rui, é que sua situação continua ruim e que o governo não apresentou uma saída.

Os erros cometidos pelo PT na reta final agravaram uma situação que já era desfavorável. Pimenta citou a proibição das apostas eletrônicas, o reajuste do Bolsa Família poucos dias antes da votação, a associação política com Alexandre de Moraes e uma campanha concentrada em apresentar Flávio Bolsonaro como criminoso.

No caso das apostas, o governo adotou uma política moralista sem considerar que milhões de pessoas participavam desse tipo de atividade e que os clubes de futebol passaram a depender fortemente desse financiamento. Já o aumento do Bolsa Família na véspera da eleição, depois de anos sem reajustes significativos, foi pura e simples compra de votos.

“As coisas que o PT fez na reta final reforçavam na cabeça de muita gente aquilo de que elas não gostam no governo do PT. Por exemplo, o aumento do Bolsa Família dez dias antes da eleição. Bom, a gente olha e fala: ‘essa é uma picaretagem’. Aí você fica na seguinte situação: o que vai pesar mais? O aumento ou a picaretagem? É a picaretagem, porque a situação é desfavorável. As bets são a mesma coisa. O benefício que eles estavam colocando nas bets é um benefício abstrato, moral. Mas, no imediato, contrariaram um monte de gente que já está insatisfeita.”

Outro erro foi o tratamento dispensado ao eleitor bolsonarista. Durante anos, setores da esquerda preferiram chamá-lo de fascista, gado, criminoso ou ignorante em vez de disputar politicamente esse eleitorado. Depois do primeiro turno, a atitude chegou a um nível ainda mais grave.

Durante o programa foram mostradas dezenas de publicações nas redes sociais nas quais pessoas identificadas com a esquerda desejavam que trabalhadores que votaram em Flávio perdessem benefícios sociais, enfrentassem jornadas maiores, passassem fome ou fossem abandonados diante de enchentes e outras tragédias. Houve quem prometesse negar carona a conhecidos bolsonaristas, retirar gorjetas de trabalhadores ou tratar pior motoristas e entregadores de aplicativos.

Rui comparou essa reação à antiga UDN, partido apoiado por setores mais ricos da classe média antes do golpe de 1964. Os udenistas desprezavam o trabalhador pobre que votava em Getúlio Vargas ou, em São Paulo, em Ademar de Barros. O argumento era semelhante: a população seria moralmente inferior porque não acompanhava as escolhas políticas da camada social que se considerava mais esclarecida.

“Isso é a mudança de mentalidade dentro do PT e da esquerda brasileira. A falta de simpatia pelos trabalhadores, pelo povo pobre, é muito grande. É uma espécie de UDN, de PSDB. […] O PT está totalmente perdido. Isso já é um sintoma muito agudo do esgotamento político do PT.”

Esse desprezo pelo trabalhador ajuda também a explicar, segundo Pimenta, o fracasso da campanha permanente do medo. O PT tenta convencer o eleitor dizendo apenas que a alternativa será pior: perderá benefícios, direitos e serviços públicos caso a direita vença. O problema é que esse mesmo trabalhador passou quatro anos sofrendo com um governo que prometia defendê-lo e não modificou substancialmente sua situação.

O presidente do PCO rejeitou também a conclusão de que o resultado demonstraria uma transformação ideológica da classe operária em direção à direita. A polarização leva milhões de pessoas a se declararem de esquerda ou de direita, mas isso não significa que possuam uma posição política consolidada. O voto pode mudar conforme a experiência concreta e a capacidade das organizações políticas de apresentar uma saída.

“O trabalhador não é de direita, não é de esquerda, não é nada. Ele vai se definir de acordo com a situação política. Se o trabalhador estiver confuso, estiver enganado, não adianta chorar. A única coisa que a gente pode fazer é tentar esclarecer as coisas para ele. Isso tem que ser feito de uma maneira paciente e respeitosa. Não adianta sair por aí chamando o trabalhador de fascista, de gado, porque você não vai conseguir nada com ele.”

Por isso, Rui afirmou que a tarefa de uma esquerda operária é justamente disputar os trabalhadores que hoje são atraídos pelo bolsonarismo. Em vez de organizar uma campanha para castigá-los por terem votado “errado”, é preciso ir aos bairros operários e apresentar uma perspectiva de mobilização em torno de seus interesses materiais.

A possibilidade de Lula entregar o Ministério da Fazenda a Geraldo Alckmin foi apresentada como mais um sinal da desorientação petista. Para Pimenta, uma escolha desse tipo não teria como objetivo principal conquistar o eleitor de direita, mas agradar à burguesia. Depois da reação favorável da Bolsa ao resultado eleitoral, Lula procuraria mostrar aos grandes capitalistas que estaria disposto a aprofundar uma política ainda mais conservadora.

A votação do próprio PCO também foi discutida. Segundo os números apresentados durante o programa, o Partido cresceu expressivamente nas eleições para governador. Em São Paulo, Izadora Dias alcançou mais de 22 mil votos, contra pouco mais de cinco mil obtidos pelo candidato do Partido na eleição anterior. Nacionalmente, Rui mencionou crescimento de 130% para os governos estaduais.

O avanço ocorreu apesar das impugnações, da demora na liberação dos recursos eleitorais, da operação policial contra o PCO durante a campanha e do boicote da imprensa. Rui destacou particularmente São Paulo, onde a candidatura de Izadora chegou a aparecer como se não estivesse concorrendo.

A votação presidencial, entretanto, foi considerada incompatível com os demais resultados. Rui apareceu com aproximadamente 15 mil votos para presidente, praticamente o mesmo número obtido 12 anos antes, apesar do aumento da influência política e da estrutura do Partido. Ao mesmo tempo, candidaturas do PCO ao Senado e aos governos estaduais receberam, somadas, números muito superiores.

“Logicamente, o pessoal vai falar: ‘você está dizendo que a eleição foi fraudada?’. Não podemos dizer nada porque a gente não sabe. Mas que esse resultado não é real, não é real. Nós tivemos 40 mil votos para governador e 15 mil votos para presidente. Como é possível isso? […] O voto útil não explica que você tenha tido a mesma votação de 12 anos atrás. Isso aí não tem o menor sentido.”

Pimenta defendeu que o Partido investigue as denúncias de irregularidades e reúna informações de eleitores que afirmam não ter encontrado seus votos nos boletins de determinadas urnas. O objetivo é comparar os relatos com os dados divulgados pela Justiça Eleitoral e verificar o que ocorreu.

Para Rui, porém, a questão fundamental colocada pelas eleições vai além da própria votação do PCO. A política adotada pelo PT desde 2002 chegou a um ponto em que já não consegue entusiasmar nem uma parcela importante de sua antiga base social. A tentativa de responder a essa situação atacando os trabalhadores ou deslocando o governo ainda mais para a direita apenas aprofunda o problema.

“O PT é um partido decadente, isso que o pessoal precisa entender. E a eleição marcou claramente essa decadência.”

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.