O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, analisou nesta terça-feira (8), no programa Análise da terça, da Rádio Causa Operária, a crise política na Alemanha, o avanço da extrema direita, a situação da Venezuela, o escândalo do Banco Master e as tentativas de impedir ou ocultar a participação do PCO nas eleições de 2026.
As eleições na Baixa Saxônia abriram o programa. A AfD obteve 43% dos votos, enquanto a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) ultrapassou a cláusula de barreira e entrou no Parlamento estadual. Rui Costa Pimenta destacou que os dois resultados devem ser considerados em conjunto.
“Nós não temos apenas uma vitória da extrema direita, nós temos um crescimento da polarização política na Alemanha. E uma polarização política entre extrema direita e extrema esquerda. É natural que a extrema direita tenha muito mais voto do que a extrema esquerda, que não tenha apoio da burguesia. Então, é importante registrar esse fato, porque essa é a tendência natural das coisas.”
A eleição também apresentou uma forte queda dos partidos tradicionais. A social-democracia obteve uma de suas piores votações, enquanto a CDU, principal partido da burguesia imperialista alemã, também perdeu espaço.
Rui Costa Pimenta relacionou o avanço da AfD ao desgaste do regime que sustenta a política econômica e militar da União Europeia:
“O que nós estamos vendo é aquilo que a gente já falou aqui um milhão de vezes. E é curioso porque nós somos o único Partido que fala isso. O regime político imperialista está caindo aos pedaços e a ascensão da extrema direita é um reflexo dessa crise do regime político burguês imperialista em toda a Europa, nos Estados Unidos, nos Estados Unidos com a ascensão do Trump. E a coisa está chegando num ponto de colapso total.”
A guerra contra a Rússia aprofundou esse processo ao agravar a situação econômica da população europeia.
“O regime político burguês entra em crise porque ele é o guardião da política de fome do imperialismo. E com a guerra na Ucrânia essa situação se agravou de uma maneira extraordinária. Não é que a guerra da Ucrânia tenha provocado isso, mas foi um fator de agravamento, sem dúvida nenhuma.”
A AfD defende a retomada das relações com a Rússia, em choque com a política seguida pela direção da União Europeia. Caso o partido avance nas eleições nacionais, a Alemanha poderá sofrer uma mudança importante de orientação, com consequências para todo o bloco europeu.
A esquerda alemã discute formar um bloqueio com os partidos tradicionais para impedir a chegada da AfD ao governo. Rui Costa Pimenta rejeitou essa política.
“Se juntar com o imperialismo para combater a AfD é uma posição reacionária. Isso aí não pode ter dúvida. Em nome da chamada democracia, quando o imperialismo está pisoteando todos os direitos democráticos da população na Alemanha. Agora, logicamente, não dá para fazer aliança entre um partido de esquerda e a AfD, que é um partido de extrema direita.”
Questionado sobre a possibilidade de um Parlamento incapaz de produzir maioria, respondeu:
“Não é a função da esquerda estabilizar o regime político burguês. Se eles não conseguem formar governo, convoca novas eleições.”
A política adotada pelo Die Linke, que aceita sustentar governos com a CDU para bloquear a AfD, foi comparada à frente ampla brasileira.
“Essa frente CDU, social-democracia, Die Linke e outros é a frente ampla da Alemanha. […] Esse é o caminho mais curto e mais seguro para a derrota do povo alemão, do trabalhador alemão, diante da burguesia e até da extrema direita.”
A saída, afirmou, está na independência política dos trabalhadores:
“Ou você confia no povo, leva adiante uma política revolucionária, progressista, ou você vai acabar nos braços da burguesia.”
Rui Costa Pimenta também comentou o crescimento do BSW. O partido de Sahra Wagenknecht rompeu com o Die Linke, critica aspectos da política identitária e mantém posições mais favoráveis à Rússia.
Os ataques contra o BSW frequentemente procuram classificá-lo como um partido de direita por suas posições sobre imigração e determinados problemas sociais. Para o presidente do PCO, esses não são os critérios fundamentais para definir a natureza política de uma organização.
“O BSW é um partido de esquerda. O critério fundamental é o posicionamento em relação aos trabalhadores, em relação à classe operária, não é o problema dos costumes. Nenhum programa sobre a questão dos costumes transforma um partido nisso ou naquilo, principalmente hoje em dia.”
Existem, nesse sentido, pontos de aproximação entre o BSW e o PCO:
“Tanto o PCO quanto o Sahra Wagenknecht se opõem a essa onda que vem do imperialismo, que é a onda identitária. Colocam o problema da classe operária em primeiro lugar. Nesse ponto, nós somos partidos parecidos.”
A discussão passou ainda pela França. Pesquisas mencionadas durante o programa apontam Jean-Luc Mélenchon com força para chegar ao segundo turno presidencial, ao mesmo tempo em que setores da burguesia procuram viabilizar uma candidatura de centro contra a extrema direita.
“Eu acho que essa é uma pesquisa que está indicando, como no Brasil, a tentativa da burguesia de construir a chamada terceira via: nem esquerda, nem extrema direita. Quer dizer, o macronismo seria essa terceira via. Logicamente, os partidários do Macron não podem encabeçar essa opção porque não teriam voto. Eles têm que arrumar um candidato independente.”
Na Venezuela, Rui Costa Pimenta rejeitou a ideia de que o governo atual seja simplesmente produto de um golpe interno contra o chavismo. O movimento realizado pelo governo em direção a Donald Trump conta, até agora, com o apoio das principais instituições do regime.
“Toda a cúpula do regime venezuelano está levando adiante essa mesma política. Não é uma pessoa. As Forças Armadas não se manifestaram contra, o Parlamento não se manifestou contra, o PSUV não se manifestou contra; pelo contrário, se manifestou a favor. Então, nós temos aqui um deslocamento do conjunto do regime chavista para a direita.”
O acordo com Trump foi definido como uma capitulação que pode produzir consequências graves:
“O chavismo, assustado com Trump, decidiu pela política tipo PT: pragmatismo. ‘Vamos fazer um acordo com o Trump para sobreviver.’ […] Eles estão enveredando por uma política que é perigosa, perigosíssima, que pode terminar com o colapso do regime chavista.”
Ainda assim, não houve até agora uma alteração das estruturas fundamentais do chavismo que permita caracterizar a situação como um golpe:
“Não houve golpe no sentido de que eles, por exemplo, dissolveram as organizações chavistas, nada disso, que seria fundamental. O golpe teria que ser uma mudança nas Forças Armadas, uma mudança na milícia bolivariana e por aí vai. Enquanto isso não se manifestar, não dá para falar em golpe.”
No Brasil, a crise do Banco Master ocupou boa parte da análise. Rui Costa Pimenta criticou a campanha realizada por setores da esquerda para defender Alexandre de Moraes depois da divulgação de informações sobre os vínculos de Daniel Vorcaro com sua família.
“A propaganda que é feita por uma parte da esquerda em defesa do Alexandre de Moraes é uma coisa delirante. O homem apareceu aí inquestionavelmente vinculado a um favorecimento vindo do banqueiro, autor de vários crimes financeiros, Daniel Vorcaro. A mulher dele teria acertado para receber mais de R$200 milhões. Isso aí não tem como você ignorar esse fato, que é o que esse setor do PT está fazendo. É um escândalo de enorme magnitude no STF. É um escândalo do regime político burguês de conjunto.”
A transformação de Moraes em símbolo da luta contra o bolsonarismo, afirmou, pode favorecer justamente a direita:
“Para a população, essa história de que o Alexandre de Moraes é o herói é absurda. E quanto mais o pessoal bater nessa tecla, mais a extrema direita vai ganhar terreno, destacando a realidade. Isso daí é pura delinquência política dentro do STF. Não tem como ignorar esse fato.”
Rui Costa Pimenta comparou o tratamento dispensado ao ministro com a investigação realizada contra o PCO:
“Veja só, o nosso processo, o processo contra o PCO, nós não fizemos nada contra a lei. […] O Partido político vai procurar pessoas de confiança para fazer o seu trabalho. […] A lei estabelece que você tem que simplesmente provar que o trabalho foi realizado e a gente demonstrou isso para a Polícia Federal. Eles ignoraram.”
E acrescentou:
“Agora, se no nosso caso eles consideram que você dá dinheiro do fundo eleitoral para advogado do Partido e isso é suspeito, imagina você dar R$200 milhões para a mulher de um juiz. Não tem como escapar disso aí pelos próprios critérios que o pessoal usa.”
A tentativa de responder às revelações atacando André Mendonça também foi criticada. Para Rui Costa Pimenta, os interesses políticos existentes em torno do caso não anulam os fatos revelados.
“Você simplesmente chegar e falar: ‘Alexandre de Moraes é inocente porque Flávio Bolsonaro, Mendonça e a Rede Globo querem atacar o PT.’ Não é assim que funciona o negócio. Se fosse mentira, tudo bem, mas não é mentira. Quer dizer, eles estão se aproveitando da situação? Lógico. Quem não se aproveitaria? Pega o adversário no contrapé, ele vai atacar mesmo. Isso daí não é um bom argumento. A situação do Moraes é indefensável.”
A ofensiva não partiria simplesmente do bolsonarismo, mas de setores poderosos da própria burguesia interessados em administrar a crise aberta pelo Banco Master.
“O inimigo aqui é o grande capital. São os banqueiros e os grandes capitalistas tipo Rede Globo. Eles não estão agindo no interesse do Flávio Bolsonaro, embora o Flávio Bolsonaro tenha condições de se aproveitar da situação. Estão agindo em interesse próprio.”
Parte da burguesia estaria disposta inclusive a afastar Moraes para impedir que o escândalo se espalhe pelo restante do STF.
“Até setores da burguesia que não têm nenhuma simpatia pelo Bolsonaro estão falando que precisa tirar ele para preservar o STF. […] O pessoal quer conter a crise. Meio que fala assim: ‘vamos sacrificar Alexandre de Moraes para salvar o regime político’. […] Não é o nosso caso, porque nós não queremos salvar o regime político. Na nossa opinião, esse regime político está condenado.”
A dificuldade do PT para abandonar Moraes mostra o grau de dependência criado em relação ao Supremo.
“Eu estou até estranhando que eles não tenham saído cortando Alexandre de Moraes. Eles já fizeram isso com muita gente em outras oportunidades, quando o negócio começou a ficar feio, e muito menos feio do que agora.”
Rui Costa Pimenta advertiu que a crise permanecerá mesmo numa eventual vitória de Lula:
“Se eles tomarem a decisão de não fazer, eles estão revelando uma dependência muito grande do STF, o que compromete o PT, logicamente. E vou dizer mais: mesmo que isso daqui não custe a eleição para Lula, se Lula ganha a eleição, a situação posterior vai ficar muito complicada. Não tem como evitar essa crise.”
O caso Moraes também já serve para mobilizar a direita. Rui Costa Pimenta rejeitou a tentativa de apresentar os atos bolsonaristas de 7 de Setembro como um fracasso.
“O pessoal fala que o ato dos bolsonaristas na Paulista foi um fracasso. Mentira, foi um ato grande. Poderia ser maior, já fizeram maior, já. Mas eles fizeram atos grandes em vários estados do País. Quer dizer, o caso Alexandre de Moraes está servindo como combustível para mobilização da direita.”
A perseguição contra as candidaturas do PCO em São Paulo encerrou os principais temas do programa. O Ministério Público Eleitoral pediu o indeferimento de 28 candidaturas devido à situação do diretório estadual, relacionada a antigas prestações de contas de anos em que não houve movimentação financeira.
Durante o programa, foram relatadas as sucessivas tentativas do Partido para resolver o problema junto à Justiça Eleitoral, incluindo pagamentos exigidos e recursos apresentados sem que a situação fosse regularizada a tempo da campanha.
Rui Costa Pimenta caracterizou o episódio sem rodeios:
“O que acontece com o PCO é uma perseguição política, não tem por onde correr. Nós estamos vendo, inclusive, que a imprensa está fazendo um esforço sistemático para ocultar a existência do PCO.”
A exclusão não ocorre apenas na Justiça Eleitoral. O presidente do Partido lembrou o levantamento da Folha de S.Paulo que classificou os partidos entre esquerda e direita, mas deixou justamente o PCO de fora.
“A Folha de S.Paulo fez um tabelamento de todos os partidos políticos, quais seriam mais à esquerda e quais seriam mais à direita. Não colocou o PCO. Daí eles publicam uma matéria falando: ‘o Novo é o partido mais à direita e o PSTU é o partido mais à esquerda’. É uma manipulação. A pessoa que vê isso não vai saber se o PCO estava lá.”
Também foram citadas as pesquisas da Quaest que omitiram candidatos do Partido e as campanhas realizadas por setores da própria esquerda para exigir a participação de PCB, PSTU e UP nos debates sem reivindicar o mesmo direito para o PCO.
“Eu acho que a esquerda colabora com a política repressiva da burguesia contra o PCO.”
Rui Costa Pimenta afirmou que a repetição das exclusões mostra que o Partido passou a incomodar setores importantes do regime:
“É óbvio que o PCO está incomodando muito. E não é que está incomodando um identitáriozinho de fundo de quintal. Está incomodando gente poderosa, que decidiu abrir fogo contra o Partido.”
As manobras podem dificultar a campanha, mas não eliminam a força política conquistada pelo PCO:
“O PCO é mais forte que esses partidos, tem programa, tem política. Não vai ser uma mera manobra eleitoral que vai mudar a situação. Eles estão tentando impedir um maior desenvolvimento, não há dúvida nenhuma.”
A edição completa da Análise da terça tratou ainda do sistema eleitoral, das candidaturas presidenciais e das atividades programadas pelo Partido para os próximos dias.




