O escândalo do Banco Master colocou Alexandre de Moraes no centro de uma crise que parte da esquerda tenta deslocar para André Mendonça. O motivo é simples: empresas de Daniel Vorcaro firmaram contratos que somavam R$208 milhões com o escritório dirigido por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Um dos contratos, assinado com o Banco Master, previa R$108 milhões em 36 parcelas de R$3 milhões. Outros dois acordos, de R$50 milhões cada, foram firmados com a Viking Participações, empresa de Vorcaro.
Um dos acordos com a Viking previa inclusive a possibilidade de pagamento de R$40 milhões mediante participações em fundos proprietários de um jato Legacy 650 e de um helicóptero Airbus.
A ligação não pode ser descartada com o argumento de que o escritório pertence à esposa de Moraes. O próprio escritório reconheceu que o ministro foi consultado sobre a “eventual existência de impedimentos legais para a contratação”.
A Polícia Filial encontrou ainda comunicações que aproximam diretamente Vorcaro do ministro. Entre elas está o contato realizado pouco antes de o banqueiro tentar deixar o País, quando acabou preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Foi diante dessas informações que André Mendonça levantou o sigilo de relatório elaborado pela Polícia Filial e encaminhou o problema ao Supremo.
A reação contra Mendonça foi imediata.
Setores da esquerda, seguindo a burguesia “liberal”, passaram a destacar a suspeita de que ele teria recebido de pessoas ligadas a Vorcaro um terno. Mendonça apresentou comprovantes afirmando que ele e sua família haviam pago pelas peças.
Mesmo que todas as relações de Mendonça com personagens ligados ao Banco Master sejam sintomáticas do nível de promiscuidade do STF com os banqueiros, é impossível não perceber a diferença entre o caso de Moraes e o de Mendonça.
Um terno virou motivo para apresentar Mendonça como suspeito. Três contratos que somavam R$208 milhões com o escritório da esposa de Moraes são tratados como uma questão secundária.
Não é uma diferença de rigor. É uma escolha política. Moisés Mendes, colunista do Brasil 247, resumiu essa posição: “a essência da guerra Mendonça x Moraes é política, é da mesma esfera do embate entre Lula e Flávio, ou entre a democracia e os que tentam destruí-la”.
Está aí a justificativa utilizada para defender Moraes. Como o ministro perseguiu Bolsonaro e tornou-se uma das principais figuras da ofensiva judicial contra a direita, qualquer denúncia que o atinja passa a ser apresentada como parte da batalha entre “democracia” e bolsonarismo.
O problema é que a identidade dos adversários de Moraes não altera os fatos.
Flávio Bolsonaro evidentemente aproveitará politicamente o escândalo. Isso é o normal numa disputa eleitoral. O fato de a extrema direita explorar uma denúncia não transforma os contratos em falsos nem torna Moraes inocente.
A esquerda frente-amplista inverte a questão. Em vez de perguntar o que significam as relações entre Vorcaro e a família de um ministro do Supremo, pergunta apenas quem ganha eleitoralmente com a divulgação dessas relações.
Desse modo, Moraes recebe uma espécie de imunidade política: qualquer denúncia contra ele pode ser descartada porque Bolsonaro também o ataca.
Foi essa política que transformou Alexandre de Moraes em personagem intocável para uma parcela da esquerda.
Nada na trajetória do ministro explica essa devoção. Moraes foi secretário da Segurança Pública do governo do PSDB em São Paulo, tornando-o, portanto, responsável pela PM paulista, a mesma PM que executava (e continua executando) chacinas na periferia e que sempre reprimiu, inclusive sob Moraes, mobilizações estudantis e greves dos trabalhadores. Depois foi ministro da Justiça do governo golpista de Michel Temer.
Moraes nunca foi um homem da esquerda e nunca representou uma política democrática para ninguém. Sua transformação em “herói da democracia” ocorreu quando o STF passou a reprimir o bolsonarismo.
Em nome dessa disputa, a quase totalidade da esquerda apoiou censuras, bloqueios de perfis, investigações conduzidas pelo próprio Supremo e uma enorme ampliação dos poderes de ministros que não foram eleitos pela população. Agora essa política cobra seu preço.
Quando Moraes aparece ligado a um escândalo de proporções gigantescas, seus defensores precisam minimizar as revelações para não admitir que passaram anos sustentando politicamente uma das figuras mais poderosas e arbitrárias do regime.
Daí a tentativa de transformar Mendonça no centro da história.
É perfeitamente possível investigar se Mendonça ultrapassou suas atribuições. O que não é possível é usar essa peneira para tapar o sol.
O relatório não surgiu de uma operação montada para investigar Moraes. As informações apareceram no curso das investigações sobre o banqueiro. Mendonça reuniu o material e o encaminhou ao STF.
Pode-se discutir juridicamente cada medida adotada pelo ministro. Nada disso responde à pergunta principal: por que empresas de Vorcaro firmaram contratos de R$208 milhões com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes?
A comparação com a perseguição promovida contra o PCO torna a hipocrisia ainda maior.
O Partido foi colocado sob suspeita por contratar empresas de pessoas ligadas à própria organização com recursos eleitorais. A lei não proíbe esse tipo de contratação. O fundamental é demonstrar que o serviço contratado foi efetivamente realizado, o que o PCO apresentou à investigação.
Ainda assim, relações normais entre militantes e pessoas de confiança do Partido foram tratadas como indícios gravíssimos.
Aplique-se então o mesmo critério ao STF.
Se uma empresa ligada a um militante do PCO merece investigação por receber recursos de campanha para executar serviços, o que dizer de um banqueiro investigado que estabelece contratos de R$208 milhões com o escritório da esposa de um ministro do Supremo?
São grandezas incomparáveis.
Não se está falando de um partido contratando seus próprios militantes para executar trabalho eleitoral, o que é expressamente legal. São empresas pertencentes a um banqueiro envolvido num enorme escândalo financeiro contratando por centenas de milhões de reais o escritório da mulher da autoridade mais poderosa do País.
E o próprio Moraes conhecia pelo menos parte dessa relação, pois foi consultado sobre a existência de impedimentos para a contratação, além de ser amigo do banqueiro ao ponto de trocar mensagens corriqueiramente com ele.
A defesa do ministro não serve fundamentalmente para proteger Lula. Serve para proteger a frente ampla.
Alexandre de Moraes tornou-se uma peça importante da aliança que consolidou o seguidismo de setores da esquerda aos partidos tradicionais da direita, grandes capitalistas e parte do aparelho de Estado em nome da luta contra Bolsonaro. Para esse agrupamento, atacar Moraes significa ameaçar uma das autoridades que mais diretamente atuou contra a extrema direita, embora o bolsonarismo esteja mais forte do que nunca e o conjunto da população esteja pagando o pato com a perda dos direitos que inicialmente atingiu a extrema direita.
Por isso, a defesa do STF foi transformada em defesa da democracia.
Essa política entrega uma enorme vantagem ao próprio bolsonarismo.
A população vê um banqueiro investigado manter contratos de centenas de milhões de reais com o escritório da esposa de um ministro do STF. Depois vê a esquerda dizendo que o verdadeiro problema está em quem revelou os documentos.
Flávio Bolsonaro não precisa inventar nada para explorar politicamente a situação.
Quanto mais a esquerda tentar esconder ou diminuir o escândalo, mais permitirá que a direita apareça como a força que denuncia os privilégios e as relações obscuras do Supremo.
Não é preciso transformar André Mendonça em aliado. Muito menos fazer qualquer concessão política ao bolsonarismo.
É preciso apenas parar de tratar Alexandre de Moraes como alguém que deve ser protegido porque perseguiu Bolsonaro, tornando-se um ditador de toga.
Se continuar nessa política, a esquerda não salvará a “democracia” de Flávio Bolsonaro. Ajudará a extrema direita a crescer apresentando-se como adversária de um Supremo que a própria esquerda insiste em defender, ao invés de defender a sua extinção.





