O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, participou nessa terça-feira (8) do Canal do Galo Preto, apresentado pelo jornalista Leandro Fortes. Logo no início, Pimenta, que também é candidato à Presidência da República, destacou que a crise do Supremo não pode ser explicada apenas pelos ministros que hoje ocupam suas cadeiras. A própria estrutura da instituição, composta por juízes não eleitos e dotados de enormes poderes, está no centro da questão.
“A própria existência do STF é um problema de origem. Eu acho que é um problema de estrutura, mas eu acho que é um processo político também. Porque o que nós estamos vendo hoje no STF é uma coisa que não começou agora. Na minha opinião, esse processo político começa com a indicação do Gilmar Mendes pelo FHC durante o governo dele. Na época, muita gente falou que a indicação do Gilmar Mendes era o começo do fim do STF. Eu acho que isso acabou se confirmando.”
A indicação de Gilmar Mendes foi seguida por uma série de episódios nos quais o Judiciário interferiu diretamente na vida política do País: o julgamento do chamado mensalão, a Lava Jato, a exclusão de Lula das eleições de 2018 e, mais recentemente, a concentração de poderes nas mãos de Alexandre de Moraes.
“Nós tivemos aí o julgamento do mensalão, foi bizarro. Nós tivemos a Lava Jato e a eleição de 2018. Foi mais bizarro ainda, coisas totalmente ilegais. Aí nós tivemos Alexandre de Moraes, que levou a coisa ao paroxismo, na minha opinião. E agora nós temos isso de que um dos ministros do STF aparece claramente, de maneira insofismável, envolvido aí num propinoduto de R$200 milhões. Eu acho que é um colapso.”
Pimenta defendeu que Moraes deixe o Supremo e seja investigado.
Leandro Fortes questionou a interpretação de que André Mendonça estaria conduzindo uma operação semelhante à Lava Jato com o objetivo de favorecer Flávio Bolsonaro.
Pimenta rejeitou essa explicação. A disputa fundamental não ocorre entre petistas e bolsonaristas, mas entre o grande capital financeiro e o esquema organizado em torno de Daniel Vorcaro e do Banco Master.
“A minha interpretação da crise não é essa. Eu divirjo da maioria das interpretações que eu vi. Eu acho que o que está acontecendo aqui não é um enfrentamento entre bolsonaristas e petistas. Eu acho que tanto bolsonaristas como petistas são café pequeno dentro da crise. Eu acho que o que nós temos aqui é uma ação dos grandes bancos, do grande capital, contra Alexandre de Moraes e os outros juízes que estiveram envolvidos no caso do Daniel Vorcaro. Acho que essa é a briga principal.”
O apoio concedido a Mendonça pela grande imprensa também foi destacado como sinal de que sua força não vem simplesmente do bolsonarismo. Uma ofensiva dessa dimensão contra Moraes e contra a direção da Polícia Federal exige apoio de setores muito mais poderosos.
“Eu acho que a crise aconteceu porque o Daniel Vorcaro entrou na seara dos grandes bancos e eles não admitiram isso. E para eles é um grande problema manter o seu monopólio sobre o sistema financeiro nacional. Eles mandaram prender o Daniel Vorcaro. Eu vejo gente que fala que foi o Mendonça, que foi o Lula, que foi não sei quem. Não. Quem mandou prender Daniel Vorcaro foram os bancos. E os bancos não querem que continue, que subsista o esquema de Vorcaro dentro do STF, porque é um perigo para eles. Eles querem a cabeça de Alexandre Moraes.”
Mendonça atua, portanto, de acordo com os interesses dos grandes bancos, e não em nome de qualquer cruzada moral contra a corrupção.
“Eu acho que Mendonça está agindo em função do interesse dos bancos. Não acho que seja nada de combate à corrupção, não, porque eu não acredito nisso. Eu acho que isso é uma balela. Já denunciei isso várias vezes. Na época da Lava Jato, eu falava que era um negócio curioso você acreditar que tem combate à corrupção.”
Vorcaro entrou numa área monopolizada pelas maiores instituições financeiras. O fato de ter praticado fraudes não transforma os grandes bancos em defensores da legalidade. Pimenta lembrou que essas instituições exploram a população por mecanismos muito maiores, especialmente a dívida pública e os juros.
“Ele quis entrar no clube e o clube fechou a porta na cara dele”, resumiu.
A política adotada pelo PT diante das denúncias contra Moraes foi um dos principais alvos da entrevista. Defender o ministro sob a alegação de que sua queda favoreceria a direita significa manter o partido governista preso ao desgaste do STF.
“A melhor coisa que eles poderiam fazer é vir a público falar que Alexandre de Moraes tem que ser afastado do STF e investigado. E eles não estão fazendo isso, eles estão defendendo o homem. […] Não é uma política séria você chegar e falar assim: ‘vou defender Alexandre Moraes que está recebendo R$200 milhões porque é um golpe’. Tem que encontrar outra maneira de abordar o problema, se fosse um golpe. Eu não acho que é golpe. Eu acho que é uma operação política.”
O PT apoiou Moraes durante anos, inclusive quando o ministro promoveu censura, prisões e outras arbitrariedades contra a direita. Agora, esse vínculo pesa diretamente sobre o governo.
“O Alexandre Moraes afundou na lama, ele tem que sair. Se ele não sair, ninguém mais vai levar a sério esse STF. […] E o PT está numa política que mantém ele vinculado ao Alexandre Moraes e ao STF. Estiveram vinculados o tempo todo ao Alexandre Moraes. E agora continuam. O cara poderia falar: ‘tudo bem, apoiei ele no passado, mas agora ele tem que ir, não tem jeito’.”
A aproximação de Flávio Bolsonaro de Lula nas pesquisas não resulta principalmente da força da candidatura bolsonarista. É o governo que abriu espaço para a direita por meio de seus próprios erros.
“O PT vai aparecer aí diante da história como responsável pela vitória de Bolsonaro. Porque, vamos falar a verdade, não é Bolsonaro que está ganhando, o PT está se matando.”
Rui Pimenta rejeitou a propaganda governista baseada exclusivamente nos indicadores econômicos. Para medir a situação real, é preciso observar a vida dos trabalhadores.
“Economia não é um programa de números. Economia é o que a pessoa está sentindo, o que a dona de casa está sentindo, o que o funcionário público, o motorista de ônibus, o motorista de táxi está vendo no orçamento dele. Nós temos 80% da população endividada, a situação social é calamitosa. O PT ignorou esses dados, eles foram na base da estatística.”
O governo apresentou os números do desemprego como uma grande vitória enquanto dezenas de milhões de brasileiros continuavam dependentes do Bolsa Família. A propaganda oficial entrou em choque com a situação vivida pela maioria da população.
A política contra os acusados pelos acontecimentos de 8 de janeiro, a censura na Internet, a proibição dos celulares nas escolas e a taxação das compras de baixo valor também contribuíram para aumentar o desgaste.
“Quem em sã consciência vai apoiar uma loucura dessas? […] A censura na Internet é enorme, eles estão privando a juventude brasileira abaixo de 16 anos do acesso à Internet. Isso é altamente impopular.”
A política econômica adotada desde o início do mandato foi apontada como uma das causas fundamentais da situação atual. O governo conhecia o peso da dívida pública, mas preferiu chegar a um acordo com os banqueiros.
“Eles sabiam que a dívida pública era um problema, mas aí eles decidiram fazer um acordo com os banqueiros e adotar a política de equilíbrio fiscal, de controlar a inflação, tudo isso por meio de uma política de tipo neoliberal. É uma política errada. […] Bom, deu errado. O País está estrangulado financeiramente.”
As críticas feitas agora contra Gabriel Galípolo e o Banco Central aparecem somente às vésperas da eleição, depois de quatro anos de adaptação do governo à política de juros elevados.
O presidente do PCO recordou que, ainda no início do mandato, defendeu que Lula adotasse imediatamente um programa social de grande impacto.
“Quando o Lula foi eleito, eu falei: a primeira coisa que o Lula tem que fazer é colocar um programa social de grande impacto. Não fizeram isso. Eles partiram para o ajuste fiscal, que é uma política neoliberal. […] Fizeram muita coisa errada, mas muita, muita coisa errada.”
Fortes perguntou se Alexandre de Moraes poderia ser apresentado como o homem que “salvou o Brasil dos fascistas”. Pimenta rejeitou completamente essa caracterização.
“É um mito que foi criado por eles mesmos. É um mito, não tem nada a ver. Alexandre Moraes é uma pessoa que apoiou o golpe de 2016, fez parte daquela campanha ultrafascista contra o PT. […] A Globo, Alexandre Moraes, Gilmar Mendes, esse povo que tinha colocado Bolsonaro no governo em 2018, eles colocaram Bolsonaro no governo. E, em 2022, eles acharam que era a hora de trocar. Por isso eles foram para cima do Bolsonaro. Não tem nada a ver com a democracia.”
A direita se transforma numa ameaça decisiva quando recebe o apoio do grande capital, da imprensa e do aparelho de Estado. Por isso, confiar aos juízes a tarefa de derrotá-la significa entregar essa luta às mesmas forças que poderão apoiar uma ditadura quando isso atender aos seus interesses.
“Se a ideia da esquerda brasileira é que nós vamos bater o fascismo com juízes, pode tirar o cavalinho da chuva. Quando Hitler chegou ao poder, a burguesia apoiou a ascensão do Hitler. Não teve nenhum juiz que ficou contra. E aqui também não vai ter.”
Pimenta citou ainda o crescimento eleitoral da direita na Alemanha apesar da intensa perseguição estatal contra a AfD.
“Você não pode entregar a luta contra a extrema direita na mão da burguesia. É uma política insana. […] Os métodos da burguesia não vão dar certo em lugar nenhum. Não dá certo na Inglaterra, na França, na Alemanha e não vai dar certo no Brasil também. […] A esquerda tem que romper com a burguesia, tem que romper com Moraes. Apoiou até agora? Tudo bem, foi um erro colossal. Larga a mão do homem. Eles estão elegendo o Flávio Bolsonaro.”
Mesmo uma vitória eleitoral de Lula nessas condições deixaria um governo profundamente debilitado, diante de uma oposição fortalecida e de uma crise cada vez mais aguda das instituições.
A defesa do direito da população de possuir armas também foi discutida. Pimenta explicou que a posição do PCO não surgiu com Bolsonaro. Ela pertence à tradição das revoluções e do movimento operário.
“Todas as revoluções, inclusive a Revolução Francesa, partiram do princípio do armamento do povo. Todas. Quer dizer, revolução sem o povo armado é uma coisa absurda, não faz nem sentido. Então os partidos revolucionários, os partidos operários, sempre defenderam como questão-chave o armamento da população. Por exemplo, na Revolução Russa de 1905 e na Revolução de 1917, a primeira coisa que os bolcheviques falaram é armar a população.”
O armamento deve ser reconhecido antes de tudo como um direito democrático. Hoje, o Estado, as polícias, o latifúndio e seus grupos privados estão armados, enquanto os trabalhadores são mantidos sem meios de defesa.
Rui Pimenta denunciou ainda o indeferimento dos 28 candidatos apresentados pelo Partido em São Paulo.
A disputa começou com antigas prestações de contas referentes a um período em que o PCO não recebia dinheiro público. Durante três meses, o Partido procurou atender às determinações da Justiça Eleitoral, mas novas exigências foram apresentadas sucessivamente.
“Nós fizemos tudo para regularizar a situação, eles não deixaram e agora impugnaram. Nós vamos recorrer, lógico. Mas é uma barbaridade que um juiz tenha o poder, por coisas banais, de indeferir toda a chapa do Partido em São Paulo. Quer dizer que toda a chapa do PCO de São Paulo está indeferida, o candidato a governador, os deputados, tudo.”
A defesa do voto impresso também foi abordada. Pimenta explicou que o PCO critica as urnas eletrônicas muito antes de o tema ser adotado pelo bolsonarismo.
“Nós nunca fomos favoráveis às urnas eletrônicas. Nós partimos de dois princípios. Primeiro, que o equipamento eletrônico é manipulável. Se foi manipulado, não vou entrar nesse mérito. Mas que é manipulável, é manipulável. […] E, segundo, a urna eletrônica não permite uma auditoria da parte do cidadão. O cidadão comum não consegue auditar aquela urna.”
A possibilidade de manipulação não equivale à afirmação de que determinada eleição tenha sido fraudada eletronicamente. O presidente do PCO deixou claro que não possui provas de adulteração das urnas e, portanto, não faz essa acusação.
Quando o Partido caracteriza uma eleição como fraudada, pode estar tratando de mecanismos políticos, como ocorreu em 2018, quando Lula, que aparecia na liderança das pesquisas, foi impedido judicialmente de concorrer.
Nos minutos finais, Fortes citou a campanha promovida contra Breno Altman depois de o jornalista entrevistar Monark.
Pimenta defendeu a entrevista. Um órgão de imprensa não pode limitar sua atividade a pessoas com as quais concorda.
“O Breno Altman tem um órgão de imprensa. Então entrevistar qualquer pessoa é absolutamente normal. Eu diria até necessário. […] O pessoal acha que a política não é uma luta de ideias. Eles estão viciados na questão do cancelamento, de eliminar os adversários. Não. Se você está numa situação em que está disputando a consciência popular por meios democráticos, você tem que debater as ideias. É a única maneira de fortalecer uma posição política.”





