Universidade Marxista

Rui Costa Pimenta narra a Revolução Islâmica de 1979

Na última aula da Universidade de Férias, presidente do PCO explicou como a queda do Xá abriu caminho para a República Islâmica

A quinta e última aula do curso História do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta na 55ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), teve como tema central a Revolução Iraniana de 1979.

Logo no início, Pimenta explicou que a aula encerrava apenas a parte do curso realizada no acampamento, em Sorocaba (SP), mas não o curso em si. Segundo ele, devido aos problemas que interromperam parte da programação, ainda faltará uma exposição posterior sobre o desenvolvimento da República Islâmica depois da vitória da revolução.

Antes de entrar nos acontecimentos de 1979, Pimenta destacou que a Revolução Iraniana não pode ser entendida como um fenômeno surgido de repente. Para ele, a combinação entre religião xiita e radicalização política vinha sendo preparada havia anos.

“Na realidade, no Irã, a combinação, a mistura entre a religião xiita e teorias revolucionárias começa bem antes da revolução de 79”, afirmou. Como exemplo, citou Ali Xariati, apresentado como um pensador que procurou aproximar o islamismo do marxismo, defendeu um islamismo revolucionário e socialista e teve grande influência entre estudantes islâmicos.

Segundo Pimenta, esse desenvolvimento ajuda a explicar por que uma revolução religiosa pôde assumir um conteúdo político tão radical. “A radicalização política muito grande não é casual”, disse.

Khomeini e o clero rebelde

O presidente do PCO dedicou parte importante da aula ao aiatolá Ruholá Khomeini, figura central da revolução. Pimenta destacou que Khomeini fazia parte do clero tradicional, mas não do setor conservador ligado ao Xá. Pelo contrário, pertencia à ala rebelde do clero xiita.

Khomeini começou a se destacar politicamente na década de 1960, quando denunciou um acordo do Xá com os Estados Unidos, considerado por ele um acordo colonial. Por causa disso, foi mandado ao exílio, primeiro no Iraque e depois na França, por pressão do Xá e do imperialismo.

Pimenta rejeitou a apresentação de Khomeini como um religioso ultraconservador. Para ele, Khomeini foi um inovador no terreno religioso e político, elaborando uma doutrina própria para a Revolução Iraniana.

Para demonstrar o caráter radical dessa política, Pimenta leu uma série de declarações de Khomeini:

“O islã pertence aos oprimidos, não aos opressores. O islã representa os moradores das favelas, não os moradores dos palácios. O islã não é o ópio das massas. Os pobres morrem pela revolução, os ricos conspiram contra a revolução. Oprimidos do mundo, uni-vos. Oprimidos do mundo, criem um partido dos oprimidos. Nem o Oriente nem o Ocidente, mas o islã. O que nós estamos defendendo aqui é o islã, não o capitalismo ou o feudalismo. O islã vai eliminar as diferenças de classe. O islã se origina das massas, não dos ricos. No islã, não haverá camponeses sem terra. O dever do clero é libertar o pobre das garras dos ricos.”

“Se alguém fizer uma declaração dessas no Brasil, vão dizer que ele é comunista”, comentou Pimenta.

A crise do Xá

Pimenta situou a Revolução Iraniana na crise mundial aberta em 1974. Segundo ele, a crise encerrou o período de crescimento econômico posterior à Segunda Guerra Mundial e abriu uma etapa revolucionária internacional, cujo primeiro grande acontecimento foi a Revolução Portuguesa.

Diante desse processo, o imperialismo passou a impulsionar uma política de transição controlada nas ditaduras, para evitar revoluções. Foi o que ocorreu na Espanha, no Brasil e também no Irã. No caso iraniano, o Xá começou a fazer acenos de liberalização, mas a pequena abertura acabou permitindo que a oposição se reorganizasse.

Em 1978, um jornal ligado ao governo publicou ataques contra Khomeini e o clero. A reação começou na cidade sagrada de Qom, onde estudantes religiosos saíram às ruas. O Xá respondeu com o Exército, que abriu fogo contra os manifestantes.

A partir daí, a repressão só aumentou a crise. Novas manifestações ocorreram em várias cidades. Em agosto de 1978, um incêndio em um cinema de um bairro popular matou cerca de 400 pessoas. A população responsabilizou a SAVAK, a polícia política do Xá, e tomou as ruas com a palavra de ordem “queimem o Xá”.

O acontecimento decisivo foi o massacre da Praça Jalé, em setembro de 1978, conhecido como Sexta-Feira Negra. O Xá havia decretado lei marcial e proibido manifestações, mas uma multidão se reuniu na praça. O Exército abriu fogo contra a população.

“Foi aqui que o Xá perdeu a partida”, afirmou Pimenta. Segundo ele, depois da Praça Jalé, qualquer acordo ficou impossível. O país entrou em greve, o regime desmoronou e o Xá foi obrigado a deixar o Irã.

A volta de Khomeini

Com a fuga do Xá, Khomeini retornou ao país. Pimenta destacou que sua chegada foi acompanhada por uma das maiores manifestações políticas da história iraniana, com milhões de pessoas nas ruas.

Para o dirigente do PCO, esse fato derruba a tese de que a revolução teria sido feita por um setor e depois sequestrada pelo clero. Khomeini já era a principal autoridade política da revolução.

“Aí o pessoal fala que teve a revolução e que o clero acabou com a revolução. Não. No meio da revolução, a grande autoridade era o próprio Khomeini”, afirmou.

A revolução continuou depois da queda do Xá. Grupos revolucionários tomaram quartéis, milhares de pessoas se armaram e o Exército se recolheu. Khomeini indicou um governo provisório, chefiado por Mehdi Bazargan, mas o poder real estava fora dele, nas mãos do Conselho Revolucionário, de Khomeini e do povo armado.

Pimenta classificou essa situação como uma forma de duplo poder: de um lado, um governo de compromisso com a burguesia; de outro, as forças revolucionárias islâmicas.

República Islâmica

Pimenta também analisou a criação da República Islâmica. A proposta foi submetida a plebiscito e recebeu apoio esmagador da população. Para ele, isso mostra que a Revolução Iraniana era, de fato, uma revolução islâmica.

“A Revolução era islâmica. Não tinha por onde. O islamismo e Khomeini tinham se transformado no movimento de oposição ao Xá. Eles eram a força revolucionária fundamental”, disse.

A burguesia defendia a fórmula “República Islâmica Democrática”. Khomeini recusou o acréscimo. Para Pimenta, a recusa expressava a luta contra a tentativa de recompor o velho Estado e abrir caminho para a retomada do controle pela burguesia e pelo imperialismo.

A Constituição da República Islâmica também foi aprovada em referendo. Pimenta destacou a doutrina conhecida como Velâyat-e Faqih, geralmente traduzida como tutela ou governo do jurista islâmico. Segundo ele, a medida concentrou poder em uma autoridade revolucionária e foi denunciada pela burguesia e por setores da esquerda pequeno-burguesa como ditadura teocrática.

O presidente do PCO rejeitou essa caracterização. Para ele, tratou-se de uma ditadura revolucionária iraniana e islâmica. Não era a ditadura do proletariado, pois a burguesia não foi totalmente expropriada, mas também não era uma ditadura reacionária.

“Uma revolução, para ser vitoriosa, precisa de uma ditadura”, afirmou. A democracia defendida naquele momento, segundo Pimenta, era a política do imperialismo para reorganizar o velho aparelho de Estado, fortalecer a burguesia e derrotar a revolução.

A embaixada dos EUA

Outro ponto da aula foi a ocupação da embaixada dos Estados Unidos por estudantes islâmicos. Pimenta lembrou que os estudantes tomaram a embaixada, mantiveram funcionários norte-americanos como prisioneiros de guerra por mais de um ano e publicaram documentos que revelavam a atuação dos EUA contra o Irã.

Segundo Pimenta, os documentos mostraram aquilo que se vê em vários países: a função da embaixada norte-americana é conspirar contra o país onde está instalada.

Para o presidente do PCO, a ocupação da embaixada esteve ligada à suspeita de que o imperialismo e a burguesia iraniana preparavam um golpe de Estado. Como a retomada do controle por dentro ficou difícil, pouco depois o imperialismo organizou uma ofensiva de fora para dentro, com a invasão do Irã pelo Iraque.

Durante o debate, Pimenta respondeu ainda por que a Revolução Iraniana não se desenvolveu como uma revolução proletária. Segundo ele, a classe operária iraniana não tinha uma organização própria capaz de dirigir o processo. O Partido Tudé estava desmoralizado, e os grupos de esquerda armada eram muito mais fracos que a militância xiita.

“O clero era a grande militância revolucionária. Os mulás, eles participaram da revolução. Eles estavam nos bairros operários”, afirmou.

Pimenta também destacou que o caráter revolucionário da República Islâmica pode ser visto na política atual do Irã no Oriente Médio. Segundo ele, não se pode caracterizar como contrarrevolucionário um regime que enfrentou o imperialismo, armou o Hesbolá, apoiou o Hamas e sustentou o Iêmen.

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