No dia 5 de julho de 2026, poucas horas depois da eliminação da Seleção Brasileira na segunda fase do mata-mata da Copa do Mundo, nos Estados Unidos, Luís Curro publicou, no espaço O Mundo É uma Bola, da Folha de S.Paulo, o artigo Piores que a Noruega (também no futebol).
A pretexto de comentar uma partida de futebol, o colunista apresentou uma peça de vassalagem aos países imperialistas. A derrota, que se deu em um jogo dominado pelo Brasil, foi usada para defender a suposta superioridade social, moral e esportiva da Noruega diante do Brasil. Não se trata de uma análise do jogo, mas de propaganda colonial contra o povo brasileiro.
Para Curro, os brasileiros “…sucumbiram ante a organização nórdica, comandada pelo ritmista e capitão Martin Odegaard e pelo ‘matador’ Erling Haaland.”
O Brasil controlou a partida, empurrou a Noruega para o seu campo de defesa, criou as melhores oportunidades e perdeu chances claras. A Seleção não foi derrotada por uma demonstração de superioridade dos europeus, mas por uma combinação de desperdício brasileiro, falhas pontuais e dois lances fortuitos.
O próprio Haaland, tratado pelo colunista como grande personagem da partida, passou a maior parte do jogo isolado, sem participar da construção ofensiva norueguesa e sem impor domínio sobre a zaga brasileira. Foi decisivo porque duas bolas sobraram em condições favoráveis. Transformar isso em prova de uma superioridade nórdica é falsificar o jogo para encaixá-lo em uma tese pronta contra o Brasil.
O problema central do artigo, no entanto, vai além da partida. Curro aproveita o resultado para atacar o próprio país. Ele escreve:
“Sempre estivemos, o Brasil, atrás dos desenvolvidos noruegueses em segmentos sortidos: PIB per capita, distribuição de renda, nível de emprego, expectativa de vida… cidadania e civilidade, entre outros aspectos econômicos, sociais e de desenvolvimento.”
Aqui aparece o conteúdo político do texto. A Noruega é apresentada como um país superior por uma espécie de virtude própria, enquanto o Brasil seria um país atrasado por incapacidade nacional. O colunista apaga o funcionamento real do imperialismo. Os altos índices sociais dos países nórdicos não nasceram de uma superioridade moral de seu povo, mas da posição privilegiada que esses países ocupam no sistema de dominação mundial.
A Noruega acumula capital por meio de empresas que atuam em países pobres e atrasados. A riqueza exibida como prova de “civilidade” é inseparável da exploração internacional, inclusive sobre países como o Brasil. O mega Fundo Soberano da Noruega e suas corporações transnacionais (como a petroleira estatal Equinor e gigantes da mineração) extraem bilhões de dólares anualmente colonizando a energia, o subsolo e a força de trabalho de nações oprimidas da América Latina, da África e da Ásia — inclusive o próprio Brasil.
É nesse ponto que o texto da Folha revela o seu capachismo. Em vez de explicar as relações entre os países, o colunista naturaliza a superioridade europeia e a inferioridade brasileira. O resultado de uma partida passa a ser usado como demonstração de que os brasileiros estariam atrás dos noruegueses em tudo: na economia, na política, no comportamento social e, agora, no futebol.
O trecho mais ofensivo é o seguinte:
“Caiu um dos nossos últimos bastiões. Resta o Carnaval. No Carnaval, ninguém nos supera nem superará. (…) Superados na bola, resta-nos o Carnaval, pois nele somos inderrotáveis”
A passagem retoma o preconceito da burguesia brasileira contra o povo. O Brasil serviria para o Carnaval, para o espetáculo turístico e para a festa, enquanto a direção do mundo caberia aos europeus.
Esse é o sentido reacionário do artigo. O futebol, que é uma das maiores criações populares do Brasil, aparece como algo que teria sido perdido porque um resultado ocasional favoreceu a Noruega. A Seleção Brasileira, no entanto, não é inferior à Noruega nem a qualquer outro país europeu. O futebol brasileiro nasceu justamente da capacidade criadora das massas populares, que enfrentaram o racismo dos clubes, dos dirigentes e da própria imprensa burguesa para transformar o esporte.




