Meio Ambiente

El Niño, a nova desculpa do apocalipse climático

O alarmismo da esquerda pequeno-burguesa com relação ao clima, é apenas uma maneira de auxiliar a política climática imperialista

El Niño

No artigo As lições esquecidas do super El Niño que matou 30 milhões, de Jeferson Choma, publicado no sítio Opinião Socialista na terça-feira (30), vigora a visão apocalíptica que praticamente virou consenso dentro da esquerda pequeno-burguesa.

No primeiro parágrafo está dito que “as principais agências meteorológicas já confirmaram a chegada de um super El Niño  em 2026, e cientistas de todo o mundo alertam para consequências devastadoras. Muitos temem que o fenômeno possa virar a chave do sistema climático da Terra.”

Chama a atenção o “alertam para consequências devastadoras”. Por acaso isso é uma certeza? Para o autor, parece que sim.

Depois desse ensaio de futurologia, Choma se vê obrigado a recuar quase 150 anos no tempo para fazer uma comparação com o El Niño de 1877 “que muitos apontam como o melhor paralelo histórico para o que pode estar por vir.” No entanto, comparar dois eventos tão distantes é, no mínimo, grotesco.

Segundo o texto “aquele evento climático desencadeou uma das maiores catástrofes humanas da história. Estima-se que mais de 30 milhões de pessoas morreram em consequência das grandes fomes que atingiram a Ásia, a África e partes da América Latina.” Ocorre que esse tipo de afirmação não passa de elucubração, tanto que o próprio autor é obrigado a reconhecer logo na sequência que “não foi o El Niño que matou essas pessoas.”

Secas

O El Niño, segundo se afirma, teria provocado secas e estas teriam trazido a fome para várias regiões do planeta. Adiante, é dito que “entre 1896 e 1902, outra grande onda de fome atingiu novamente essas nações e outros países — foi outro ciclo do El Niño, que também devastou a Etiópia e o Sudão. Estima-se que mais de 31 milhões de pessoas sucumbiram à fome em todo esse período; há quem fale até em mais de 50 milhões de vítimas. Além da fome, centenas de milhares pereceram em epidemias de cólera, malária, peste bubônica e outras doenças que sempre eclodem com intensidade após um grande El Niño.” Mais um chute tentar atribuir esses eventos ao segundo El Niño.

Segundo o artigo, “esses dados foram levantados por Mike Davis e estão no livro Holocaustos Coloniais: clima, fome e imperialismo na formação do Terceiro Mundo. Davis sustenta que essa grande tragédia não foi causada apenas por um fenômeno natural. Sua tese é que as nações imperialistas da Europa, além do Japão e dos Estados Unidos, se aproveitaram da oportunidade para ampliar suas possessões coloniais, desapropriar terras comunais e controlar novas fontes de matérias-primas.”

Não fica clara a relação entre esse evento climático e a ação de países imperialistas. O mundo estava se preparando para a I Guerra Mundial, de modo que o aumento de conflitos que antecederam a guerra se davam por todos os continentes.

Para demonstrar que o mercado global e as potências ocidentais operaram como os verdadeiros carrascos da virada do século XIX, Choma cita Rosa Luxemburgo que diz que “a força é a única solução disponível para o capital; a acumulação de capital, vista como um processo histórico, emprega a força como uma arma permanente”.

Ninguém nega que o colonialismo tenha produzido profundas distorções econômicas e sociais em diversas regiões do planeta. Tampouco há dúvidas de que decisões políticas agravaram o sofrimento de milhões de pessoas durante as grandes secas. A questão é outra: o artigo substitui uma explicação de múltiplos fatores por uma causalidade quase exclusiva.

O El Niño existe há milhares de anos, como diz o texto, “na China, por exemplo, o imperador mantinha os chamados depósitos de tributos: estoques de grãos armazenados em celeiros fora das regiões atingidas pela seca, que eram acionados em socorro à população em períodos de quebra de safra.”

O exemplo acima demonstra que o El Niño não é exatamente um problema quando se tem um mínimo de planejamento.

O texto dá saltos que, na verdade, carecem de lógica e acaba forçando completamente a barra. Diz que “o super El Niño de 1877  também ajudou a produzir grandes rebeliões coloniais como a Revolta dos Boxers na China, Canudos no sertão do Nordeste brasileiro e, sem dúvida, o crescimento do nacionalismo indiano nas décadas seguintes, que fortaleceria a luta pela independência.”

Esses eventos políticos são muito distintos e na luta de classes é estranho se atribuir ao El Niño influência em algum deles. A menos, é claro que as lutas sociais estivessem tão intensas que qualquer fato possa desencadear reações. No Irã, em 1978, por exemplo, um incêndio em um cinema deu início a enormes manifestações contra o xá Reza Pahlavi porque o desgaste estava muito profundo. Se tivesse acontecido em outra ocasião, é bem provável que o governo usasse o fato para fazer demagogia e se beneficiar.

Chola afirma que “o grande mérito de Mike Davis é mostrar que essa tragédia não pode ser explicada apenas pelos efeitos do El Niño. As grandes fomes do final do século XIX não foram um simples produto da natureza, mas resultado da forma como a sociedade organiza a produção e a distribuição dos alimentos  e como se prepara (ou não) para enfrentar eventos climáticos extremos. As vítimas da fome pagaram o preço das transformações impostas pelo avanço do imperialismo, em um verdadeiro Holocausto colonial que a história oficial procurou manter invisível.”

Embora tenha dito que aquilo que ocorreu em 1877 possa “ser explicada apenas pelos efeitos do El Niño”, o autor, embora não confesse, está dizendo que sim, tanto que faz a pergunta “o que podemos esperar de um próximo El Niño ainda mais forte, num mundo cada vez mais desigual e ameaçado pela catástrofe climática?”

O autor não propõe nada, apenas cria um ambiente de terra arrasada ao dizer que “o próximo El Niño encontrará um mundo ainda mais vulnerável: marcado por décadas de políticas neoliberais que desmontaram mecanismos de prevenção, privatizaram recursos naturais como a água, e se combinam com a ascensão da extrema direita e o negacionismo climático.”

Esse derrotismo serve apenas para a direita “democrática”, o imperialismo, continue impondo sua política sobre o clima, essa que o texto supostamente deveria combater.

Ou seja, essa esquerda que diz que todo mundo é negacionista, está a serviço do grande capital, que utiliza o clima para asfixiar os países pobres.

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