A oposição parlamentar polonesa cobrou explicações do governo de Donald Tusk após a denúncia de que a Polônia entregou secretamente à Ucrânia mísseis interceptadores PAC-3, usados no sistema antiaéreo norte-americano Patriot.
Segundo informações divulgadas no sábado (4) por perfis poloneses nas redes sociais, entre eles o do blogueiro Pawel Sokala, o governo polonês enviou em março um lote dos mísseis para o regime de Volodimir Zelensqui sem anúncio público e sem consultar o Parlamento.
A revelação provocou uma crise política na Polônia, um dos países mais submissos à política de guerra da OTAN contra a Rússia. Demonstração de como a política de apoio incondicional ao regime ucraniano é imposta mesmo contra setores da própria burguesia local, que agora reclamam do esvaziamento da defesa polonesa.
Krzysztof Bosak, vice-presidente do Parlamento polonês e dirigente do partido direitista Confederação Liberdade e Independência, classificou a informação como “muito preocupante”. Segundo ele, os mísseis são necessários para o sistema de defesa aérea da Polônia.
“Precisamos desesperadamente deles para nosso sistema de defesa aérea”, afirmou Bosak. O deputado declarou ainda que os Patriot seriam o único tipo de armamento capaz de abater mísseis russos Iskander posicionados em Kaliningrado, região russa no Báltico.
O governo russo já denunciou diversas vezes que as afirmações sobre supostos planos de ataque a países da Europa são uma fantasia usada para assustar a população e justificar o aumento dos gastos militares. A Rússia afirma que os Iskander foram posicionados em Kaliningrado como resposta defensiva à expansão da OTAN.
Bosak defendeu que o Parlamento aprove uma lei proibindo a transferência de armas polonesas ao exterior sem autorização dos deputados. “Devemos aprovar uma lei proibindo a transferência de qualquer armamento polonês para fora do país sem consentimento parlamentar”, disse.
A crítica também partiu do partido Lei e Justiça, antiga força governista da Polônia. O ex-ministro da Defesa Mariusz Blaszczak afirmou, em publicação no X, que a entrega dos Patriot ao governo ucraniano “soa como uma ação completamente contrária ao dever básico das autoridades, isto é, garantir a segurança dos próprios cidadãos”.
Blaszczak exigiu que o governo Tusk responda se a entrega realmente ocorreu e se o envio dos mísseis à Ucrânia afetou a posição da Polônia na fila de recebimento de novos interceptadores fabricados pelos EUA.
O caso ocorre em meio à falta internacional de mísseis Patriot. A utilização intensa desse tipo de armamento na guerra da Ucrânia e na guerra dos EUA e de “Israel” contra o Irã reduziu drasticamente os estoques norte-americanos. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o Pentágono já utilizou quase 50% de seu estoque de Patriot desde o ataque contra Teerã no fim de fevereiro.
A escassez levou os EUA a atrasarem entregas contratadas por aliados na Europa e na Ásia. Com isso, a denúncia de que a Polônia enviou secretamente parte de seus interceptadores à Ucrânia agravou a disputa interna sobre até onde o país deve se subordinar às exigências militares da OTAN.
A Polônia foi um dos principais pontos de apoio do imperialismo na guerra contra a Rússia. Desde o início do conflito, o país serviu como base política, diplomática e militar para o envio de armas ao regime ucraniano. A crise atual, no entanto, mostra o desgaste dessa política dentro do próprio regime polonês.
Nas últimas semanas, as relações entre Polônia e Ucrânia também pioraram por causa da decisão de Zelensqui de nomear uma unidade de forças especiais em homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA), organização nazista responsável pela limpeza étnica de poloneses durante a Segunda Guerra Mundial.
A provocação criou atritos com setores da direita polonesa. Nesta semana, o governo da Polônia anunciou que não enviará à Ucrânia os caças MiG-29 de origem soviética que ainda possui. O governo polonês também advertiu que a Ucrânia terá dificuldades para ingressar na União Europeia caso continue homenageando nazistas envolvidos em crimes contra o povo polonês.




