Universidade Marxista

Rui Pimenta: ditadura do Xá foi modelo do terror imperialista

Pimenta explicou que a monarquia iraniana derrubada em 1979 não foi um regime modernizador, mas uma ditadura sustentada pelo imperialismo

Na quarta aula do curso História do Irã e da República Islâmica, ministrado durante a 55ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), Rui Costa Pimenta analisou o regime do Xá Mohammed Reza Pahlavi, instalado como ditadura após o golpe de 1953 contra o governo nacionalista de Mohammad Mossadegh.

O presidente nacional do PCO apresentou a monarquia iraniana como uma ditadura bonapartista, apoiada nas Forças Armadas e no imperialismo. Segundo Pimenta, o golpe de 1953, organizado pela CIA, pelos britânicos e pelo serviço secreto inglês, o MI6, abriu caminho para um governo inteiramente subordinado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra.

“O golpe de 1953, depois de algumas etapas políticas, vai redundar na ditadura pessoal do Xá, que vai ser o governante e o monarca absoluto do Irã. É uma ditadura bonapartista, se apoia sobre as Forças Armadas e se apoia sobre o imperialismo. O imperialismo é um dos pilares de sustentação do regime político que se cria depois do golpe de 1953”, afirmou.

Pimenta destacou que a propaganda atual em defesa do antigo Xá não é um debate histórico neutro. Trata-se de uma arma política usada pelo imperialismo contra a República Islâmica. Ele chamou atenção para o fato de que setores norte-americanos e sionistas voltaram a cogitar a restauração da monarquia no Irã, com a promoção do herdeiro dos Pahlavi como alternativa política.

Para Pimenta, esse fato mostra a dificuldade do imperialismo em encontrar uma oposição capaz de enfrentar a Revolução Islâmica. Ao contrário do que faz em outros países, onde procura apresentar uma oposição “democrática”, no Irã o imperialismo recorre diretamente à velha monarquia derrubada pela revolução.

“O fato de que o imperialismo apela para a propaganda da monarquia mostra a dificuldade do imperialismo de lidar com a Revolução Islâmica. Eles percebem claramente que não conseguem apresentar uma oposição democrática, como tentam fazer na Venezuela, na Nicarágua. Eles apelam diretamente para a monarquia”, disse.

O mito do desenvolvimento

Um dos pontos centrais da aula foi a crítica ao mito de que o Xá teria desenvolvido o Irã. Segundo Pimenta, a ideia de que um governante, por meio de medidas administrativas, transforma um país atrasado em uma potência é falsa. O desenvolvimento econômico, explicou, não surge da vontade de um indivíduo, mas de condições econômicas e sociais acumuladas durante longo período.

Para ilustrar o problema, Pimenta comparou a propaganda em torno do Xá com a propaganda feita no Brasil sobre a ditadura militar. O crescimento econômico durante o governo Médici, afirmou, não foi resultado de genialidade da ditadura, mas de condições anteriores e da situação internacional favorável, marcada por grande oferta de crédito externo.

“Se a gente for pegar os números, nós vamos ver que o período Médici, que é um período de quatro anos, é o período de maior crescimento da economia brasileira. A economia cresce uma média de 10% ao ano. Então, a gente teria que dizer que o Médici fez com que o Brasil crescesse 10% ao ano. Não é fato. O Médici não tem nada a ver com isso diretamente”, afirmou.

No caso iraniano, Pimenta explicou que o Xá governou em uma etapa muito favorável para o petróleo. A renda petroleira aumentou enormemente durante seu governo, permitindo investimentos estatais e certa modernização de setores da economia. Isso, no entanto, não resolveu os problemas fundamentais do país.

Uma parte significativa desses recursos, afirmou Pimenta, foi destinada ao aparelhamento das Forças Armadas. O Xá comprou armamentos em escala gigantesca, chegando a formar um dos maiores exércitos do mundo. Para Pimenta, isso não representou desenvolvimento nacional, mas desperdício de recursos e corrupção.

“Ele gastou uma verdadeira fábula no aparelhamento do Exército iraniano. Do ponto de vista contábil, somando tudo que ele comprou, tanques, etc., esse seria o quinto maior Exército do mundo. Isso daí o que é? Dinheiro jogado no ralo. Por que um país pobre, um país atrasado, vai gastar dinheiro para ter o quinto maior efetivo militar do planeta? Não faz o menor sentido”, disse.

A chamada Revolução Branca, apresentada pela propaganda burguesa como grande projeto modernizador, foi caracterizada por Pimenta como uma política reacionária. Segundo ele, a reforma agrária do Xá foi, em grande medida, uma farsa. Os camponeses que receberam terras não tinham condições de mantê-las e acabaram expulsos para as grandes cidades, enquanto os grandes proprietários foram beneficiados por incentivos estatais.

“O que o Xá fez foi criar um plano de investimento estatal que era um plano, no final das contas, reacionário. Não mudava efetivamente a situação do Irã. Não mudava substancialmente a situação da população pobre iraniana. Esse plano econômico ele chamou de Revolução Branca. Por aí a gente já pode ter ideia do que estava acontecendo. Ele falou que a Revolução Branca era para se opor e ser uma alternativa à Revolução Vermelha”, afirmou.

A falsa modernização

Outro mito combatido na aula foi o de que o Xá era um modernizador enfrentando uma sociedade atrasada. Segundo Pimenta, o que a propaganda chama de modernização foi, na realidade, uma ofensiva política contra o clero xiita, em especial contra os setores do baixo clero ligados à população pobre.

Ele explicou que o regime utilizou a questão das mulheres como instrumento de combate político. Medidas como a restrição ao uso de vestimentas islâmicas em determinadas situações e alterações em leis sobre casamento e divórcio não tinham como objetivo libertar as mulheres, mas criar uma base social para o regime e atacar a influência do clero.

“O negócio das mulheres era a mera manipulação política de um setor da população que ele queria usar para servir de base para o regime fascistóide dele. Até hoje o pessoal fala do problema das mulheres como se esse fosse o problema do Irã. O país está na maior dificuldade do mundo e o único problema que o país tem são as mulheres”, afirmou.

Pimenta ressaltou que o clero xiita não inventou os costumes conservadores do povo iraniano. O Irã, explicou, era um país profundamente religioso, marcado por tradições muito diferentes das brasileiras. Sem compreender essa realidade, não é possível entender a influência política do clero e a natureza da Revolução Islâmica.

Segundo ele, a força do aiatolá Ruholá Khomeini não surgiu do nada. O baixo clero tinha trabalho direto com a população pobre, especialmente nas periferias de Teerã e entre os trabalhadores mal pagos. Por isso, o regime via esses setores como um perigo político.

“É muito mais fácil reprimir um partido revolucionário, comunista e até nacionalista, do que reprimir o clero. Porque a repressão contra o clero sempre causa muito problema, porque o povo, na maioria, é religioso. Então você vai lá e tortura o padre. É uma coisa escandalosa demais. Ele precisava ter uma política para agir contra esses religiosos que estavam apresentando um sério espírito de oposição ao regime político”, disse.

O sionismo e a repressão

Pimenta também tratou da relação entre a monarquia iraniana e o sionismo. Segundo ele, o aparato repressivo do Xá foi construído com a participação da CIA, do MI6 e do Mossad. “Israel”, afirmou, colaborou de maneira intensa com a política repressiva da monarquia iraniana.

Para o presidente do PCO, essa relação ajuda a explicar por que a Revolução Islâmica assumiu, desde o início, uma posição firmemente antissionista. A oposição iraniana ao sionismo, destacou, não é uma questão religiosa contra judeus, mas uma posição política contra uma força que participou diretamente da repressão ao povo iraniano.

“O aparato de repressão do Xá tinha sido construído pela CIA, pelo MI6 e pelo Mossad. E ‘Israel’, o sionismo, sempre colaborou com a política repressiva do Xá. Uma coisa que a gente tem que entender sobre o sionismo é o seguinte: onde tinha ditadura ultrassanguinária, tinha o dedo do sionismo”, disse.

Pimenta comparou essa colaboração com a relação estreita entre o sionismo e o regime do apartheid na África do Sul. Para ele, o Irã conheceu o sionismo de perto, não como abstração, mas como parte concreta da máquina de repressão contra seu povo.

“Quando você vê Khomeini declarar que os Estados Unidos são o Grande Satã e ‘Israel’ é o Pequeno Satã, dá para entender por que ele falou isso. Ele não tirou da cabeça dele. O pessoal procura apresentar isso como se fosse um ódio irracional de ‘Israel’. Não. Ele tinha um ódio muito justificado. E a revolução vai ser uma revolução totalmente contra o sionismo”, afirmou.

A SAVAK e o terror estatal

A parte mais extensa da aula foi dedicada à SAVAK, a polícia secreta do Xá. Pimenta descreveu o órgão como uma das máquinas de repressão mais brutais organizadas pelo imperialismo no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Criada com apoio direto dos Estados Unidos, da Inglaterra e de “Israel”, a SAVAK vigiava a população, prendia opositores, torturava e assassinava.

Segundo Pimenta, a repressão no Irã serviu como modelo para outras ditaduras organizadas pelo imperialismo nos países atrasados. O objetivo era controlar movimentos nacionalistas, revolucionários e operários em todo o mundo.

“Assim que o golpe de Estado colocou o Xá no governo, a CIA, o MI6 e o Mossad organizaram uma polícia secreta que ficou conhecida como o mais violento órgão de repressão das inúmeras ditaduras que o mundo conheceu depois da vitória da democracia em 1945, que é a polícia secreta do Xá, conhecida pela sigla SAVAK. Essa polícia secreta era uma organização do terror estatal, a mais brutal que a gente possa imaginar”, afirmou.

Pimenta destacou que o mundo não viveu uma simples vitória da democracia sobre o fascismo em 1945. Para ele, o imperialismo vitorioso passou a organizar regimes de terror em escala mundial. A ditadura do Xá foi um dos exemplos mais acabados desse sistema.

“A ditadura do Xá é um dos muitos exemplos desse tipo de coisa. Não houve tal vitória da democracia, a derrota do fascismo. A caracterização correta do que aconteceu na Segunda Guerra Mundial é o que Trótski falou: é uma luta entre dois imperialismos. Se você escapar de um, é sair do fogo para cair na frigideira”, afirmou.

Na aula, Pimenta citou dados segundo os quais, entre 1957 e 1979, 125 mil prisioneiros políticos foram feitos no Irã. Ele mencionou também que agentes da SAVAK eram enviados todos os anos para treinamento em instalações da CIA nos Estados Unidos, onde aprendiam técnicas de interrogatório e tortura.

A Anistia Internacional, destacou Pimenta, declarou em 1974 que nenhum país tinha um registro de direitos humanos pior do que o Irã. Mesmo assim, a resposta da CIA foi ampliar o apoio à SAVAK.

Pimenta leu relatos de torturas cometidas pelo órgão repressivo. Entre os métodos descritos, estavam choques elétricos, espancamentos, queimaduras, extração de unhas e dentes, violência sexual e o uso de mesas aquecidas eletricamente. Segundo ele, a função desse terror não era apenas eliminar opositores, mas espalhar o medo por toda a sociedade.

“O segredo da ditadura é o seguinte: não é que eles prendem a pessoa que é perigosa, o cidadão que jogou uma bomba. Não. Qualquer pessoa pode ser presa. A população vive no medo permanente. E esse é um resultado que eles procuram deliberadamente: aterrorizar todo mundo”, afirmou.

Ditadura e imperialismo

Pimenta relacionou a experiência iraniana à situação política atual. Para ele, o caso do Xá mostra que a burguesia chamada democrática não é inimiga do fascismo. Ao contrário, usa a extrema direita e regimes de terror quando precisa conter a mobilização das massas.

Ele criticou a política da esquerda brasileira que apresenta a extrema direita como o principal problema, deixando em segundo plano a burguesia e o imperialismo. Segundo Pimenta, a extrema direita só consegue avançar quando é impulsionada pelos grandes capitalistas.

“A política que nós defendemos é uma política que se opõe tanto à extrema direita quanto à burguesia chamada democrática. Porque essas coisas que eu mostrei aqui, quem fez foi a burguesia dita democrática. Foi o governo dos Estados Unidos. Lá não teve nenhuma ditadura explícita. O pessoal elegia o presidente e eles davam golpe de Estado, torturavam, matavam”, afirmou.

Pimenta explicou que a frente popular e o fascismo não são opostos absolutos, mas recursos utilizados pela burguesia contra a revolução. Nesse sentido, citou a análise de Trótski sobre a Espanha e afirmou que a frente popular, ao subordinar as organizações operárias à burguesia, abriu caminho para o fascismo.

“O que significa que tanto a democracia burguesa, imperialista, quanto o fascismo são recursos contra a revolução proletária. Eles não são antagônicos, eles são complementares. A burguesia pode usar um, pode usar outro, usar um e depois usar o outro também”, disse.

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