Futebol brasileiro

Revista Fórum quer que todo mundo seja obrigado a seguir opinião da Globo

Artigo de Francisco Fernandes Ladeira estribucha contra melhor seleção de futebol do planeta para favorecer monopólios europeus

Um recalcado que atende pelo nome de Francisco Fernandes Ladeira publicou, no dia 23 de junho, um artigo na revista Fórum.

O título em si já nos dá sono: “Neymar e a pós-meritocracia no futebol”. Ele, que não joga nem pedra na casa do vizinho, nos ensina que Neymar Jr. não é um jogador de futebol. Neymar seria, segundo ele um tiktoker, um “ex-jogador em atividade” ou um “convocado em home office”. Ladeira, além de perna de pau, é também uma desgraça como humorista.

Nosso querido autor quer mostrar que aprendeu uma expressãozinha nova, dessas que se cria na academia para alguém receber título de doutor: “pós-meritocracia”. O doutor fulano de tal inventa uma palavrinha da moda, o doutorzão beltrano de tal dá nota 10 para ele e o doutorzinho Ladeira repete o novo vocábulo, sonhando em um dia ser chamado de doutor.

Mas se falar em “pós-meritocracia” faz o doutorzinho Ladeira sonhar com uma nota 10 na academia, há algo que o faz receber tapinhas nas costas em todo lugar que vai: falar mal de Neymar. Isso porque ele não anda nas favelas brasileiras, de onde saíram rojões em comemoração à convocação do craque brasileiro. Ele vive num aquariozinho de classe média em que todos têm a mesma opinião: a opinião da rede Globo. E o doutorzinho, já que é mui chique, não pode ficar de fora. Para ficar bem com a titia, para ficar bem com o sogrão, para ficar bem com o chefe, ele grita: Neymar deveria pendurar as chuteiras!

No seu certificado de cãozinho da Família Marinho, Ladeira começando citando uns intelectuais para mostrar que é inteligente. Ele começa citando Jean-Paul Satre, dizendo que “o esporte mais popular do planeta é uma metáfora da vida, pois representa as incertezas, esperanças e escolhas que fazemos ao longo de nossa existência”. A metáfora não quer dizer nada; é possível fazer metáfora com qualquer coisa. Charles Chaplin, por exemplo, já comparou a vida a uma peça de teatro que não permite ensaios. E assim um marceneiro poderia comparar a vida com uma árvore, e um gari, com uma lata de lixo.

Melhor do que ficar nessa filosofia de boteco seria se nosso doutorzinho entendesse que o futebol é a vida. Ele é uma atividade humana e, como tal, expressa suas necessidades, suas relações e suas contradições. Futebol é luta de classes. Ele expõe a luta do país oprimido contra o país imperialista, do talento contra o financismo, das massas contra os monopólios. Ladeira ignora esse que é o aspecto central do futebol e, por isso, seu texto, se impresso, serviria no máximo como uma bolinha de futebol.

Nosso ignorante autor passa então a citar um colunista do Estado de S. Paulo, Roberto DaMatta, um direitista. Ele diz:

“O futebol é a única instância na qual o falacioso discurso da meritocracia pode ser de alguma forma aplicado. Não há apadrinhamento, o sujeito entra em campo porque realmente sabe jogar, não por causa de seu capital social. É impossível fingir ser um jogador.”

Ladeira realmente não sabe do que está falando. Quando se diz que a meritocracia é uma farsa, se diz que a sociedade capitalista é dominada por grupos econômicos que esmagam qualquer perspectiva de ascensão social dos que vêm debaixo. Acontece que os mesmos grupos atuam no futebol. E, por isso, também tornam a “meritocracia” impossível.

Vejamos a Copa do Mundo de 1966. Quem era, indiscutivelmente, o melhor jogador do mundo à época? Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé. Mas ele não conseguiu fazer praticamente nada, ainda que “merecesse” ser campeão do mundo. O motivo? Os poderosos se cartelizaram em uma coalizão que incluía uma arbitragem corrupta e zagueiros açougueiros e que lesionaram o craque.

Se isso era verdade em 1966, que dirá sessenta anos depois, quando o futebol se tornou um empreendimento milhares de vezes mais lucrativo? É óbvio que o interesse econômico pesa. Não há nenhuma lei no Congresso Nacional, nem nenhuma opinião nos grandes jornais que não seja resultado da pressão dos grandes monopólios.

Ladeira é veículo dessa pressão. O grande capital, há décadas, tenta fazer com que o futebol europeu prevaleça sobre o futebol brasileiro. Afinal, a Europa tem um mercado muito mais rico que o brasileiro. Vender camisas oficiais e produtos de um campeão europeu para o público europeu, neste sentido, é muito mais lucrativo do que vender produtos da Seleção Brasileira para o povo brasileiro. Junto a isso, o Brasil é um país sob fortíssima pressão ideológica do imperialismo, que impulsiona uma campanha de desmoralização de sua história e de sua cultura para facilitar a dominação do grande capital,

Como resultado da pressão, fabrica-se todo tipo de ladainha. A julgar pelo que diz a imprensa, a cada jogo da Copa do Mundo, o Braisl parece prester a sofrer uma goleada. Mas a realidade mostra o contrário: a Seleção vai avançando, vai evoluindo no seu futebol, enquanto as “favoritas”, a exemplo da Alemanha, vão tropeçando. Isso mostra que os “comentários” contra o desempenho da Seleção não são comentários de fato, são pura propaganda contra o time e, no fim das contas, contra o País de conjunto.

Neymar é um dos grandes focos dessa campanha caluniosa e interessada. E Ladeira, trouxa que é, cai na campanha, ao dizer que Neymar “há anos se arrasta nos gramados”. Acontece que Neymar só não jogou quando esteve lesionado, e o jogador teve várias lesões no último período. É cruel e desleal essa colocação contra Neymar. Seria exigir que Ladeira, por exemplo, digitasse os textos dele com os dedos das mãos esmagados.

Quase todos os grandes jogadores brasileiros já enfrentaram problemas sérios de lesão. Nossos craques são perseguidos de maneira implacável. Seu preparo físico, por seu turno, raramente chega ao mesmo nível que os jogadores europeus. O craque brasileiro é forjado no asfalto, o brutamonte europeu vai desde cedo para a escolinha de futebol, onde tem um acompanhamento médico desde a mais tenra idade.

Quando Neymar esteve bem em campo, foi decisivo. Em todos os clubes que jogou. Ele é o maior artilheiro da história da Seleção. Ele trouxe um título inédito para o Brasil: a conquista das Olimpíadas. Mesmo jogando no Santos, com um elenco de qualidade muito inferior, ele se destaca por suas jogadas individuais, tendo chegado a fazer belos gols, até mesmo da marca do escanteio.

Por causa das lesões, Neymar jogou muito menos jogos pela Seleção que Messi. No entanto, proporcionalmente, ele fez mais gols por jogos. Sua quantidade de assistências, por sua vez, praticamente empata com a do argentino em termos absolutos, mesmo tendo jogado pouco mais da metade das partidas que seu rival jogou.

Quem aprecia arte renascentista, dirá, ao se deparar com uma pintura de Rafael Sanzio: “é impossível não se emocionar com isso”. Mas o bêbado que vem cambaleando pelo meio da rua que reduziu sua vida à busca de uma nova garrafa verá o quadro e não sentirá nada. O mesmo podemos dizer de nosso leitor frígido. Depois de se drogar ouvindo comentários de “jornalistas” venais  como Walter Casagrande, Juca Kfouri e Milly Lacombe, Ladeira se tornou incapaz de apreciar o futebol-arte do menino Neymar.

É nesse momento que ele saca da cartola a tal da “pós-meritocracia”, criada por um tal de Wilson Ferreira que só Ladeira sabe quem é. Em resumo, trata-se da ideia de que os jovens seriam estimulados a ascender socialmente “não pelo esforço, mas ‘num passe de mágica’, seja como influencer, investindo na bolsa de valores ou apostando em bets”. De fato, a destruição das condições de vida cria todo tipo de doença social. Mas não se trata de algo novo. Que é o suicídio, se não a tentativa de fugir do sofrimento “num passe de mágica”? Essa “solução” acompanha a humanidade há milhares de anos, e cresce nos momentos de maior crise econômica.

Ladeira não diz, mas ao dizer que esse comportamento seria novo, ele está fazendo uma campanha contra a Internet. É isso o que há efetivamente de novo na sociedade. É graças à Internet que existe o “influencer”, que existem as bets e que a bolsa de valores se tornou muito mais acessível. Nosso autor, em sua fúria histérica contra Neymar, acaba revelando outra face histérica da pequena burguesia: o medo da Internet. Melhor dizendo, o medo de que a rede Globo perca o monopólio da informação.

A tal da “pós-meritocracia” seria a explicação para a fama de Neymar:

“O jogador é notícia pelas dancinhas, corte de cabelo, perfil nas redes sociais, filhos e declarações polêmicas, entre outras questões. Menos pelo desempenho em campo, conforme seria na lógica da ‘meritocracia’. Lembrando uma recente declaração do presidente Lula, por que jogar quando se pode ser o primeiro convocado em home office do mundo?”

A tese, em si, é absurda. A fama de Neymar vem do seu futebol, e não de sua pessoa. Quem não lembra que Ronaldo “Fenômeno”, em 2002, optou por um dos cortes de cabelo mais horrorosos que a humanidade tem notícia, e que esse corte se espalhou por todo o Brasil? A pergunta é: o corte teria se espalhado se o Brasil não fosse campeão?

Neymar é acompanhado atentamente por milhões de pessoas porque é uma referência para elas. Quando entra em campo, ele representa o Brasil. E não se trata de um país abstrato. Ele representa o menino pobre, esmagado pelo Estado, que vê no futebol o único meio de efetivamente ascender socialmente. Ele representa o povo brasileiro que é tão oprimido pelos piratas norte-americanos e europeus e que entra em catarse quando vê um brutamontes branquelo ter sua arrogância destruída por um drible desconcertante. É daí que vem o carisma de Neymar, é daí que vem sua força nas redes sociais.

O mesmo, contudo, não pode ser dito de nosso querido autor. Seu texto não foi publicado por sua qualidade. Mas sim porque esse portalzinho desqualificado chamado revista Fórum é um repositório de campanhas reacionárias e caluniosas contra aqueles que denunciam os poderosos no Brasil. Ladeira é convidado a escrever não porque tem algo importante a dizer, mas porque o que ele diz agrada aos patrões da Fórum.

Um dos aspectos mais reacionários da revista Fórum é a campanha caluniosa que faz contra o Partido da Causa Operária (PCO). Na época em que vieram as primeiras calúnias, o objetivo ficou claro: favorecer os setores da ala direita da “frente ampla” que queria se infiltrar nas manifestações pelo Fora Bolsonaro. Isto é, o grupo de Guilherme Boulos (PSOL), o PSB e mesmo o PSDB. Ladeira, simpático a essa coalizão, aproveitou seu texto sobre Neymar para falar do PCO:

“Antes que algum maluco do Partido da Causa Operária (PCO) teleguiado por algoritmos venha aqui me atacar (como sempre fazem), não estou negligenciando o passado de Neymar no futebol. Mas é inegável que seus últimos meses no Santos e sua presença na seleção brasileira refletem de maneira emblemática a pós-meritocracia.”

Não sabemos se nosso querido e delicado autor considerará um ataque respondermos a ele neste artigo. Não quisesse ser criticado, bastava ficar calado. Chumbo trocado, afinal, não doi. Ou melhor, para a Fórum, doi, uma vez que, depois que as calúnias contra o PCO não surtiram efeito, seus donos estão tentando calar o Partido na Justiça.

Não existe um Neymar “do passado” e um Neymar “do presente”. A fuga do presente é, justamente, uma das formas prediletas dos covardes de fugirem da luta ideológica. Defender o escravo do século XVII é fácil — até o PSDB é capaz de fazê-lo. Já defender o trabalhador, não.

Dizer que Neymar foi bom no passado apenas não resolve o problema do presente: há uma campanha para rebaixar o maior crauqe do País e, com isso, a Seleção Brasileira. Dizer que Neymar foi bom e não é mais é o mesmo que dizer que bom mesmo é Messi, Cristiano Ronaldo ou qualquer outro jogador da moda. É o mesmo que dizer: “brasileiros, olhem só que lindo o futebol desses europeus! Olhem como são fortes, olhem como são loiros, olhem como seus olhos são azuis!”.

É uma capitulação vergonhosa diante do abutrismo da rede Globo e, acima de tudo, do imperialismo. Que Ladeira queira ser um papagaio da Família Marinho, muito que bem. Só cuidado para não se assustar quando descobrir que os “malucos” que torcem para o Brasil, e não para a Alemanha, a Argentina ou qualquer outra equipe fuleira do coração de Ladreira, são, na verdade, 215 milhões de pessoas.

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