Existe uma operação da burguesia para controlar as eleições presidenciais e levar ao governo um candidato que atenda integralmente às suas exigências. O objetivo é impor um governo disposto a aprofundar a submissão do Brasil ao imperialismo e reduzir o País a uma colônia neoliberal plena, sem os inconvenientes provocados pela crise do bolsonarismo e sem depender da pressão das massas que sustentam Lula.
Flávio Bolsonaro tornou-se um obstáculo para essa operação. O senador reúne parte importante do eleitorado de direita, graças à popularidade do pai, mas chega à campanha cercado por denúncias, disputas familiares e pela associação direta com Donald Trump, cuja ofensiva econômica contra o Brasil produziu desgaste entre setores que antes apoiavam a família Bolsonaro. A burguesia procura aproveitar esses problemas, fustigados por ela, para retirar o candidato da disputa e abrir espaço para uma terceira via apresentada como responsável, técnica e democrática.
A ofensiva contra Flávio Bolsonaro cresceu nessa quinta-feira (23). O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a investigar os repasses feitos pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para a produção de Dark Horse, filme dedicado à vida de Jair Bolsonaro.
A investigação pretende supostamente esclarecer o destino do dinheiro enviado aos Estados Unidos. A suspeita levantada pela PF é de que parte dos recursos possa ter financiado despesas de Eduardo Bolsonaro no país ou atividades de aliados do ex-presidente junto ao governo de Donald Trump. Flávio Bolsonaro afirma que os valores foram destinados exclusivamente à produção cinematográfica e nega qualquer irregularidade.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, considerou que existem elementos para a abertura do inquérito. Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, declarou que a investigação é “ótima” porque, segundo ele, demonstrará que nenhum ilícito foi cometido. Integrantes do próprio PL, porém, avaliam que o caso abrirá uma nova frente de desgaste durante a campanha.
Ao mesmo tempo, a Folha de S.Paulo publicou um editorial contra Flávio Bolsonaro por suas declarações a embaixadores acerca das urnas eletrônicas. O senador comparou o sistema brasileiro ao utilizado na Venezuela, como se o da Venezuela fosse tão fraudulento quanto o do Brasil, e pediu o envio de observadores estrangeiros. O jornal classificou as afirmações como falsas, acusou Flávio de repetir a política adotada por Jair Bolsonaro em 2022 e apresentou o episódio como parte de uma série de dificuldades que inclui a relação com Vorcaro, o conflito com Michelle Bolsonaro e as consequências da política de Trump contra o Brasil.
O cerco serve para isolar Flávio Bolsonaro, enfraquecer sua candidatura e favorecer uma alternativa escolhida pelos setores mais concentrados do grande capital. A mesma burguesia que pretende se livrar do bolsonarista, entretanto, prepara para o próximo governo uma política de segurança pública que não se distingue, em seu conteúdo fundamental, do programa defendido pela família Bolsonaro.
O jornal O Estado de S.Paulo, porta-voz tradicional da terceira via, como a Folha, promoveu nesta quinta-feira o terceiro encontro do projeto Brasil Adiante, dedicado à “segurança pública” e ao crime organizado. Segundo o próprio jornal, as propostas reunidas serão consolidadas em um documento para os primeiros 24 meses do próximo governo e entregues, em novembro, ao presidente eleito.
O projeto não é uma tentativa de formular antecipadamente o programa que a burguesia pretende impor ao vencedor das eleições. Na segurança pública, esse programa se concentra na criação de novos organismos nacionais, no aumento do controle estatal, no endurecimento das leis penais e na ampliação dos instrumentos de vigilância.
O promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, jurado de morte pelo PCC e responsável por operações importantes contra a facção, defendeu a criação de uma agência nacional autônoma e independente para combater o crime organizado. Segundo ele, o principal problema não é a falta de policiais, mas a falta de integração entre as polícias e os Ministérios Públicos estaduais.
Gakiya propõe que as forças policiais dos estados integrem uma central nacional capaz de coordenar operações em todo o território. Também defende mudanças nas controladorias e nos organismos de fiscalização do poder público, que considera corporativos, lentos e limitados a reagir depois que os crimes já ocorreram.
O promotor justificou suas propostas com a expansão das facções para o interior do País. O Atlas da Violência 2025 e o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, citados no encontro, indicam que o Comando Vermelho passou de 128 para 286 municípios da Amazônia entre 2023 e 2025. O Primeiro Comando da Capital, por sua vez, está presente em todas as regiões, controla áreas de cidades pequenas e grandes, atua no tráfico de drogas, penetra em atividades legais e disputa contratos públicos.
O que se defende é a formação de um aparelho policial nacional mais centralizado, situado acima das estruturas existentes e dotado de maior capacidade de intervenção. Sob o nome de integração, concentra-se ainda mais poder nas mãos de organismos repressivos que já atuam diariamente contra a população pobre.
A economista Cristina Pinotti apresentou um programa ainda mais amplo. Ela propôs a criação de três agências nacionais independentes: uma antimáfia, uma anticorrupção e uma de digitalização. Esses organismos, segundo Pinotti, devem ter caráter permanente, não depender do governo eleito e contar com participação da chamada sociedade civil – leia-se instituições nas mãos dos grandes capitalistas e banqueiros internacionais.
Pinotti também defendeu a criação de tipos penais específicos para os chamados crimes de máfia, com penas mais duras e procedimentos mais rápidos. A economista afirmou que o crime organizado se aproveita da ausência de serviços públicos e, nas regiões em que o Estado está mais presente, procura corromper funcionários e penetrar nas instituições.
Segundo ela, a pandemia e a expansão das criptomoedas, dos criptoativos e das empresas de tecnologia financeira facilitaram a circulação de dinheiro ilegal. A resposta proposta é aumentar a fiscalização das operações digitais e ampliar a capacidade do Estado de acompanhar a movimentação de recursos.
O programa apresentado pelo Estadão reúne, portanto, centralização das polícias, criação de agências independentes, endurecimento penal, ampliação da vigilância financeira e fortalecimento dos organismos de controle. Quase nada se diz acerca das condições sociais que alimentam a violência: o desemprego, os salários baixos, a destruição dos serviços públicos, a falta de moradia e o domínio de regiões inteiras por grandes interesses privados.
A terceira via procura apresentar suas propostas como uma alternativa racional ao bolsonarismo. Seus porta-vozes condenam os excessos verbais da família Bolsonaro, criticam o modelo de Bukele e repetem que a repressão deve obedecer a critérios técnicos e institucionais. A diferença, porém, está principalmente na forma.
O bolsonarismo defende abertamente a violência policial, o aumento das prisões e o emprego das Forças Armadas em tarefas internas. A priori, a burguesia tradicional propõe os mesmos objetivos por meio de agências autônomas, leis especiais, bancos de dados nacionais e uma cadeia de comando mais concentrada. Contudo, a prática da burguesia é a que foi vista nas chacinas do Alemão e da Penha no ano passado, quando mais de 100 pessoas foram executadas pela polícia. Nazismo puro e simples.
A experiência brasileira mostra que o fortalecimento do aparelho repressivo raramente atinge os grandes banqueiros, empresários e políticos ligados aos negócios ilegais. E quando atinge é apenas cortina de fumaça para encobrir uma operação ainda mais violenta contra os pobres. A polícia concentra sua ação nas periferias, enquanto os chefes das operações financeiras, os proprietários das empresas utilizadas para lavar dinheiro e os agentes do Estado associados ao crime permanecem protegidos por suas relações com o poder econômico.
A proposta de criar organismos independentes do governo eleito agrava esse problema. Sob o pretexto de impedir interferências políticas, a burguesia procura entregar ainda mais poder a instituições que não estão submetidas a nenhum tipo de controle popular. É o mesmo mecanismo utilizado pelo Banco Central independente, agora transferido para a segurança pública.
Autonomia do aparato de repressão significa fascismo. Nisso, a burguesia “democrática” consegue superar o bolsonarismo, pois é mais eficiente e experiente na administração do aparelho estatal.
Por isso, a ofensiva contra Flávio Bolsonaro não representa uma luta da democracia contra o fascismo. Trata-se de uma disputa para decidir quem aplicará o programa da burguesia com maior disciplina e eficiência. O candidato pode ser retirado, mas a política repressiva característica do bolsonarismo permanece e é ainda pior. Porque não se pode esquecer quem são os responsáveis pela gestação do bolsonarismo: os mesmos que hoje se apresentam como “terceira via”.
Os mesmos setores que chamam o bolsonarismo de “extremista” defendem a multiplicação de agências policiais, o endurecimento das penas e o aumento da vigilância sobre a população. Querem rifar Flávio Bolsonaro para aplicar, com uma embalagem técnica e democrática, uma política tão ou mais carniceira que a de Flávio Bolsonaro.





