No artigo Argentina e a política de inimizade, de Richard Santos e Rosane Borges, publicado na Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (20), o identitarismo veio ele mesmo defender a seleção da Argentina.
O parágrafo inicial trata da rivalidade entre Brasil e Argentina que, para os autores, “nesta recém-encerrada Copa do Mundo de 2026 — em que pesou o clima de beligerância —, esse antagonismo escalou graus exorbitantes e chegou a um patamar no qual a tradicional disputa migrou para o terreno da política de inimizade.”
Adiante, escrevem que “para além dos motivos aparentes, que se apresentaram com o verniz da evidência (‘a Fifa favorece a Argentina’), do dado incontestável (‘Maradona fez gol com a mão’), do engajamento político e antirracista (‘Messi não se posiciona politicamente’; ‘A Argentina é racista’), quais outros fatores devem entrar em campo para nos ajudar a compreender por que chegamos a esse ponto de interdição discursiva em relação à seleção do país vizinho?”
Na realidade, nada de grave aconteceu. Tirando o favorecimento da FIFA para a Argentina e o gol de mão de Maradona em 1986, os outros itens não têm a ver com o futebol. Jogadores podem ter diversos posicionamentos políticos e racismo é uma coisa subjetiva que ocorre em toda parte.
Identitarismo
Em determinado trecho do artigo, os autores buscam estabelecer uma identidade entre Brasil e Argentina: “Quer parecer que não nos damos conta de que há uma Argentina que chega às telas durante a Copa do Mundo e outra que permanece fora do enquadramento convencional. A primeira veste a camisa albiceleste, alimenta antigos estereótipos; a segunda, reflexo de nós mesmos, é negra, indígena, periférica e luta incansavelmente contra o apagamento de sua própria história, contra a ausência de corpos negros nas diversas esferas — além do futebol. Entre uma e outra, aquele imaginário colonial continua organizando a forma como brasileiros e argentinos se veem.”
Nós mesmos, quem? O Brasil é um país extremamente miscigenado, pardos e negros, somados, representam mais da metade da população. A “[luta incansável] contra o apagamento de sua própria história, contra a ausência de corpos negros nas diversas esferas” merece algumas considerações: 1) o identitarismo é o primeiro a tentar apagar a história brasileira e tenta subvertê-la e transformá-la em uma espécie de pecado original, uma mera sucessão de violações e estupros; 2) essa coisa de ‘corpos negros nas diversas esferas’ é uma reivindicação reacionária que busca apenas reformar o capitalismo, ou, no máximo, escurecê-lo.
Intercâmbio
Adiante, Santos e Borges escrevem que Brasil e Argentina, no início dos anos 2000, iniciaram uma série de medidas no campo da comunicação, e que “essa aproximação talvez revele algo que o futebol frequentemente encobre: Brasil e Argentina produziram muito mais intercâmbios do que rivalidades. [E que] talvez por isso nos incomode tanto perceber que, enquanto políticas de Estado tentavam construir instrumentos comuns para fortalecer uma identidade latino-americana, nossos imaginários continuavam sendo produzidos por narrativas estereotipadas que insistiam em nos apresentar como adversários históricos.”
A questão aqui é que estão misturando as estações. As relações entre Estados ficam fora da questão futebolística. E também é muito improvável que estivessem pensando em criar uma suposta “identidade latino-americana”.
No mesmo sentido, afirmar que a “Argentina não branca permanece atuante nos bairros populares, na cultura afro-platina, na religiosidade afrodiaspórica, na música, na organização política e na produção intelectual” não cria uma identidade entre as populações dos dois países, além de ser uma falsificação da realidade, estão inventando uma Argentina que simplesmente não existe. De onde tiraram esse país? Existem menos de 150 mil negros no país vizinho, menos que qualquer bairro da cidade de São Paulo. Eles correspondem a 0/37% da população.
O que realmente une brasileiros, argentinos e quaisquer outros países é a luta de classes, são os interesses comuns da classe trabalhadora.
É preciso deixar de lado concepções confusas e religiosas do identitarismo, como essa que afirma que “rechaçar a síntese que o imaginário colonial nos oferece sobre a Argentina e o Brasil, por meio da política de inimizade, exige disposição para a escuta de outras narrativas que ultrapassam a Copa do Mundo e jogam um jogo muito diferente daquele que foi imposto por um quadro comum de referência que não só repeliu corpos negros dos campos mas chutou para bem longe as possibilidades de reconciliação com as ‘ancestralidades desconfortáveis’, negras e indígenas, tanto lá quanto cá.”
Não se pode torcer pela Argentina quando sua seleção está sendo utilizada para levar adiante os planos do imperialismo, que está manipulando o futebol, o que põe em risco o próprio futebol.
Essa questão é exterior à Argentina, calhou de ser esta seleção, poderia ser outra. O que importa é que deixar de olhar objetivamente o que está acontecendo vai nos fazer torcer para o imperialismo em nome de uma “identidade comum”, o que não tem nada a ver.





