Eleições 2026

Se Lula perder, será culpa do trabalhador?

Ao transformar a eleição em questão de informação, jornalista deixa em segundo plano o balanço do governo e as decisões políticas tomadas pelo próprio PT

Urna eletrônica, a santa

Marco Damiani publicou no Brasil 247 um artigo que procura demonstrar que, a poucos dias da eleição, o trabalhador já dispõe de todas as informações necessárias para distinguir Lula de Flávio Bolsonaro. O articulista enumera diferenças entre os candidatos e termina dizendo: “o eleitor não tem o direito de dizer que não está bem informado”. Logo depois acrescenta que nunca teria sido tão fácil para o eleitorado “discernir quem é quem”.

O problema do raciocínio é que, se a diferença seria tão evidente e uma das escolhas aparece como consequência natural da informação disponível, uma eventual derrota de Lula seri culpa do eleitor que, apesar de informado, não teria escolhido corretamente.

A eleição vira uma espécie de prova. Antes de responsabilizar o eleitor, porém, seria necessário perguntar o que o próprio governo fez durante quatro anos, quais medidas tomou, quais deixou de tomar e qual política o PT adotou para conquistar o apoio dos trabalhadores. E vale dizer que o governo Lula foi bastante negativo, basta ver a política de juros do Banco Central.

Damiani começa destacando diferenças de “caráter, propostas e compromissos”. O caráter pessoal pode eventualmente influenciar alguns votos, mas não substitui de maneira nenhuma o programa político. O trabalhador não avalia apenas aquilo que um candidato promete. Também avalia aquilo que o governo que pede sua reeleição efetivamente realizou.

O Bolsa Família é um exemplo. O artigo apresenta Lula como responsável pela ampliação dos programas sociais. Poucos dias antes da eleição, o governo reajustou o piso do programa de R$ 600 para R$ 691. Não houve, porém, aumento real, pois a correção de 15,04% corresponde à inflação acumulada pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026. Foi a primeira atualização pela inflação desde a retomada do atual modelo, em 2023.

Pior, em 31 de agosto, o governo havia enviado ao Congresso a proposta de Orçamento para 2027 sem prever reajuste. O piso continuaria em R$ 600, o que na prática representaria uma diminuição do benefício que é corroído pelo aumento do custo de vida. Dezessete dias depois, já na reta final da campanha, Lula mudou de posição e anunciou a recomposição.

Gostem de ouvir ou não, o fato é que a medida de Lula é uma compra de votos, foi a mesma atitude de Bolsonaro na eleição passada. Depois de mais de três anos sem correção, e após enviar um Orçamento que manteria o benefício congelado também em 2027, o governo resolveu repor a inflação às vésperas das urnas.

A informação disponível ao trabalhador, portanto, não é apenas aquilo que Flávio Bolsonaro promete. Inclui também o fato de que o Bolsa Família perdeu valor para a inflação durante anos e que, até o fim de agosto, o próprio governo não previa sua correção no ano seguinte.

Damiani utiliza ainda o fim da escala 6×1 como uma das diferenças entre os candidatos. Mas existe um problema concreto: a medida ainda não está em vigor. A Câmara aprovou em maio uma PEC que estabelece dois dias de descanso semanal e reduz progressivamente a jornada de 44 para 40 horas, e o texto seguiu para o Senado. Isso é uma outra dificuldade, o trabalhador não está sendo mobilizado e não está participando desse processo, as decisões estão todas sendo tomadas por cima.

Estão tratando uma proposta como transformação já realizada durante o mandato. Sua aprovação depende da conclusão do processo legislativo.

O mesmo problema aparece quando o artigo toca na questão do Supremo Tribunal Federal. Damiani apresenta Lula como defensor de uma reforma do Judiciário. A questão, porém, não pode ser separada da relação política construída pelo PT com o Supremo durante todo esse tempo.

Agora, em meio à crise envolvendo ministros da Corte, a discussão sobre reformas ganhou força. O próprio presidente do STF, Edson Fachin, passou a defender medidas como um código de ética e mudanças no sistema de Justiça.

O bolsonarismo procura explorar o desgaste do STF para se apresentar como adversário da Corte. Para o PT, isso cria uma dificuldade pois o partido não consegue se desvencilhar do Tribunal, com quem fez uma acordo há anos. Essa contradição também faz parte do balanço que o eleitor pode fazer.

Outro ponto aparece quando Damiani utiliza o velho “diga-me com quem andas e te direi quem és” contra Flávio Bolsonaro, enquanto apresenta Geraldo Alckmin apenas como canal de diálogo com o empresariado.

Alckmin governou São Paulo pelo PSDB e possui uma trajetória política que também pode ser submetida ao mesmo critério. Durante seu governo, professores estaduais realizaram em 2015 uma paralisação que já durava 43 dias quando ele declarou que “na realidade não existe greve de professores”. O sindicato apontava adesão superior a 50%, enquanto o governo afirmava que 96% estavam trabalhando.

Alckmin também estava no governo de São Paulo quando o aumento das tarifas de transporte serviu de estopim para as grandes mobilizações de junho de 2013. Em 2 de junho daquele ano, as passagens de metrô e CPTM, sob responsabilidade estadual, subiram de R$ 3 para R$ 3,20, ao mesmo tempo em que a Prefeitura de Fernando Haddad elevava a tarifa dos ônibus. Foi contra esse aumento que começaram em São Paulo os protestos que, em poucas semanas, alcançariam dimensão nacional.

Se as companhias e trajetórias políticas são apresentadas como informação relevante para avaliar uma chapa, o critério precisa ser o mesmo para todos.

No último parágrafo a tese de Damiani fica mais clara. Ali transforma uma disputa política em um problema de esclarecimento individual, já que o trabalhador estaria suficientemente informado e deveria chegar à conclusão considerada evidente pelo autor.

Só que conhecer os candidatos não equivale a aprovar o governo. A Quaest divulgada em 21 de setembro registrou Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno. Na mesma pesquisa, 44% aprovavam o governo Lula e 50% o desaprovavam.

Os números, apesar de que ninguém deve confiar muito nas pesquisas, mostram por que é insuficiente reduzir o problema à quantidade de informação disponível.

Uma eventual derrota de Lula exigiria examinar também as decisões do próprio PT: as alianças realizadas, a política aplicada no governo, o momento escolhido para determinadas medidas, a relação com o Congresso e com o Supremo e sua capacidade de mobilizar os trabalhadores.

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