‘Israel’

Regime sionista pode explodir antes das eleições de outubro

Parlamento de aprova proposta para dissolver a Casa em primeira votação, em meio à disputa sobre o alistamento dos ultraortodoxos

O Parlamento de “Israel” aprovou, nesta quarta-feira, por 110 votos a 0, em votação preliminar, um projeto de lei para dissolver a própria Casa. A medida abre caminho para a realização de eleições antecipadas, em meio ao aprofundamento da crise interna do regime sionista, pressionado pela guerra em Gaza, pelo desgaste das tropas e pela disputa sobre o alistamento militar dos judeus ultraortodoxos.

O projeto, apoiado pelo governo, ainda precisa passar pelas demais etapas legislativas. O texto não define uma data para a eleição. Essa decisão ficaria a cargo da Comissão da Casa do Parlamento, mas a votação teria de ocorrer pelo menos três meses após a aprovação final da lei.

Pelo calendário original, as eleições em “Israel” estavam marcadas para 27 de outubro. Caso o processo de dissolução avance rapidamente, a eleição pode ser antecipada, com a possibilidade de ocorrer já em meados de agosto. Pela legislação israelense, a votação precisa ser realizada em até cinco meses depois que a dissolução do Parlamento se tornar lei, o que aponta para uma disputa eleitoral, no máximo, até meados ou fim de outubro.

A crise revela as divisões dentro da própria direção sionista. O primeiro-ministro Benjamin Netaniahu não esteve no púlpito de votação durante a sessão, segundo a emissora pública israelense Kan. A proposta foi apresentada pelo presidente da coalizão, Ofir Katz, junto a outros parlamentares, após um acordo entre a coalizão governista e os partidos ultraortodoxos.

Katz afirmou que “esta coalizão esgotou seu tempo”. O parlamentar vinculou a dissolução do Parlamento à necessidade de uma nova lei de alistamento, que atenda às exigências do Exército israelense para convocar milhares de novos soldados, mas preserve, ao mesmo tempo, o “valor do estudo da Torá” e imponha o serviço militar aos que não estudam.

A questão do alistamento é um dos principais fatores da crise. Em 2024, a Suprema Corte de “Israel” determinou que o Estado começasse a recrutar homens ultraortodoxos, encerrando décadas de isenções amplas para estudantes religiosos. Desde então, os partidos ultraortodoxos ameaçam derrubar a coalizão de Netaniahu caso não seja aprovada uma legislação que mantenha as isenções e proteja suas instituições religiosas de sanções.

A disputa ocorre enquanto o regime sionista mantém a guerra contra Gaza, que já assassinou dezenas de milhares de palestinos, e enquanto reservistas israelenses enfrentam sucessivas convocações. Setores internos do próprio regime afirmam que o peso da guerra recai de maneira desigual sobre os israelenses não ultraortodoxos, ao passo que os partidos religiosos usam sua influência parlamentar para preservar seus privilégios.

As divergências também apareceram entre os dirigentes ultraortodoxos. O ministro da Construção e Habitação, Yitzhak Goldknopf, comemorou a votação e disse ao presidente da Comissão de Finanças, Moshe Gafni: “Estamos esperando este dia”. Gafni, por outro lado, demonstrou insatisfação: “Eu não desejava isso. Esperávamos uma legislação que regulasse a situação dos estudantes de seminários religiosos”.

O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett atacou Netaniahu durante uma entrevista coletiva no Parlamento. Para Bennett, Netaniahu busca manter sua coalizão a qualquer custo, inclusive aceitando as exigências dos partidos ultraortodoxos.

“O primeiro-ministro de saída está correndo como um desesperado caçador de votos, rastejando diante de Deri e Gafni, apenas para apresentar a eles um documento oficial de rendição”, disse Bennett. “Tenho três palavras para dizer a ele: acabou. Largue.”

Bennett se referia a Aryeh Deri e Moshe Gafni, dirigentes políticos ultraortodoxos que exigem garantias legais para manter amplas isenções do serviço militar.

O ex-primeiro-ministro também classificou o projeto como uma traição aos soldados israelenses enviados para a guerra contra Gaza.

“Estivemos aqui hoje para bloquear um dos maiores pontos baixos da história do Parlamento de ‘Israel’. A aprovação de uma lei antissionista de evasão do alistamento, contra os soldados do Exército israelense, no meio de uma guerra”, afirmou.

Apesar das críticas a Netaniahu, Bennett não representa uma oposição à guerra contra os palestinos. Ele é conhecido por posições nacionalistas de direita, defesa da expansão dos assentamentos e apoio a operações militares contra a população palestina. A divergência central, portanto, não está na agressão sionista em si, mas na forma como o Estado sionista distribui o peso da guerra dentro de sua própria população.

A votação unânime pela dissolução do Parlamento mostra que a crise ultrapassou a disputa habitual entre governo e oposição. O regime sionista enfrenta, ao mesmo tempo, uma guerra prolongada, desgaste militar, isolamento internacional crescente e uma disputa interna sobre quem deve ser enviado ao campo de batalha. A possibilidade de eleições antecipadas até outubro aparece, nesse quadro, como mais um sinal da desagregação política aberta pela ofensiva contra Gaza.

Para Victor Assis, apresentador do Plantão Irã, a possível dissolução do Parlamento de “Israel” pode ser vista como uma manobra do governo de Benjamin Netaniahu para tentar controlar uma crise que já se tornou inevitável. O comentário foi feito no programa desta quarta-feira (20), transmitido pela Causa Operária TV (COTV), em parceria com o Diário Causa Operária.

Assis explicou que o regime político israelense funciona de maneira diferente do brasileiro, pois o centro do governo está no primeiro-ministro, e não no presidente. O governo é formado a partir dos acordos entre os partidos no Parlamento, que conta com 120 cadeiras.

“Primeiro, eu queria lembrar um pouco como funciona o regime israelense, que é um pouco diferente do regime político brasileiro. Ele é baseado principalmente na figura do primeiro-ministro. Existe o presidente, mas o papel dele é bastante secundário. Quando a gente fala de governo de Israel, é um governo que foi montado a partir do próprio parlamento. E esse governo precisa ser montado por meio de um acordo entre as forças”, afirmou.

Segundo Assis, uma maioria simples no Parlamento permite a formação do governo. O partido com mais cadeiras tende a ocupar o posto de primeiro-ministro, enquanto os demais partidos negociam cargos e posições em troca de apoio.

“O parlamento tem 120 parlamentares. Se você tiver metade mais um, você pode compor governo, você vai ter uma maioria simples. E assim você compõe não apenas com o primeiro-ministro, mas com os demais membros que foram acordados entre os partidos”, disse.

Para o apresentador, a dissolução do Parlamento obrigaria uma nova composição de governo. Isso não impediria, formalmente, que Netaniahu voltasse ao cargo, mas abriria uma nova disputa interna para definir quem chefiaria o regime.

“A dissolução do parlamento, então, nesse sentido, ela levaria obrigatoriamente à formação de um novo governo que pode ser chefiado por Benjamin Netaniahu, não tem nada que impeça isso do ponto de vista legal, mas finalmente teria que ter uma nova eleição indireta, uma eleição interna, uma eleição do parlamento para decidir quem vai chefiar o país.”

Assis comparou a iniciativa com a dissolução do Parlamento francês por Emmanuel Macron. Segundo ele, governos em crise podem recorrer a esse tipo de medida para tentar reorganizar sua base de sustentação e preservar o controle da situação política.

“A gente já viu iniciativas semelhantes do governo propondo a dissolução do parlamento, propondo novas eleições, para se fortalecer, para realizar alguma operação. A gente viu isso há pouco tempo na França, quando o próprio Macron dissolveu o parlamento francês e colocou em marcha toda uma operação para preservar a sua base de sustentação. Toda uma operação muito complexa porque o governo Macron é crise atrás de crise. Então provavelmente o objetivo aqui é o mesmo, é realizar alguma manobra”, afirmou.

Para Victor Assis, a antecipação eleitoral também pode ser uma tentativa de se adiantar a uma operação do imperialismo para reorganizar o governo israelense diante do desgaste provocado pela guerra. As eleições já estavam previstas para outubro, mas a dissolução antecipada daria ao atual bloco dirigente a possibilidade de tentar conduzir o processo em condições mais favoráveis.

“A impressão que dá é que eles estão tentando antecipar um processo eleitoral já inevitável, porque haveria eleições no final do ano, mês de outubro, estão agendadas as eleições no mês de outubro. A impressão que dá é que eles querem se antecipar à operação que o imperialismo vai fazer para compor um governo diferente do que deseja a extrema direita israelense. Extrema direita não. Extrema, extrema, extrema direita. Tudo ali é extrema direita.”

O apresentador também levantou dúvidas sobre as condições em que uma eventual eleição seria realizada. Para ele, o regime sionista não tem autoridade moral para se apresentar como defensor de regras democráticas, diante dos crimes cometidos contra os palestinos.

“Aí em que condições vão se dar essas eleições? Porque eu não sei se o Estado de Israel é igual ao Brasil, onde, segundo o TSE, não há nenhum risco de fraude. Não sei se é assim lá. Eu imagino que quem é capaz de assassinar 160 meninas, de torturar prisioneiros, não tem nenhum impedimento moral e também não vai ter nenhuma grande dificuldade logística de fraudar as eleições”, disse.

Na avaliação de Assis, a medida expressa uma tentativa de Netaniahu e de sua base de controlar uma crise que ameaça sair do controle do próprio regime.

“Parece que é uma tentativa de se antecipar, de controlar o processo, de sei lá como essas eleições vão ser realizadas, e assim aumentar a chance do governo ficar de pé mesmo diante de tanta crise. É de que seja algo nesse sentido”, afirmou.

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