É curioso que após anos denunciando o uso de investigações, vazamentos e escândalos pessoais para destruir adversários políticos, alguns setores da esquerda passaram a adotar o mesmo método quando o alvo está do outro lado.
O artigo Vida bandida de Flávio Bolsonaro facilita escolha do eleitor entre o mal e o bem, publicado por Marco Damiani no Brasil 247 nessa terça-feira (29), é um exemplo. Quase nada no texto diz respeito à política defendida por Flávio Bolsonaro, às forças que o sustentam ou às medidas que pretende tomar caso chegue à Presidência. O objetivo da matéria é construir uma ficha moral e policial do candidato. O próprio título reduz a eleição a uma escolha entre “o mal e o bem”.
Como não lembrar do que ocorreu com Lula? Durante anos, a discussão política foi soterrada por uma avalanche de tríplex, sítio, reformas, presentes, empreiteiras, barcos e pedalinhos. A figura política de Lula foi substituída, no noticiário, pelo personagem de um grande processo criminal.
A experiência deveria ter ensinado alguma coisa. Em 2021, o STF confirmou por oito votos a três a anulação das condenações de Lula impostas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, por incompetência daquele juízo. No mesmo ano, o Supremo manteve o reconhecimento da parcialidade de Sérgio Moro no processo do tríplex.
Aqui não se trata de entrar no mérito das acusações contra Flávio Bolsonaro, nem que os casos sejam juridicamente iguais. A semelhança está no método político de transformar investigação, patrimônio, relações pessoais e vazamentos em substitutos do debate sobre programa, interesses sociais e medidas concretas.
As denúncias divulgadas nesta semana mostra que documentos reunidos pelo empresário Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio, indicam que o advogado Alan Belaciano teria comprado um Rolex de R$ 305 mil e equipamentos de ginástica de R$ 90 mil que teriam beneficiado o senador. Há ainda mensagens segundo as quais Flávio teria procurado Kassio Nunes Marques em assunto de interesse de um cliente de Santini. A própria reportagem do UOL, porém, registra que não comprovou independentemente essa suposta intermediação. Flávio afirmou anteriormente que determinadas despesas pagas por um amigo correspondiam a empréstimo pessoal.
O noticiário é tomado como demonstração definitiva de “como o candidato é de verdade” e convertê-lo numa caracterização política completa.
É precisamente o salto feito pelo artigo de Damiani. As distinções entre denúncia, indício, versão de um ex-sócio e fato comprovado perdem espaço diante da conclusão moral. O autor chama Flávio de “manipulador, enganador e mentiroso”, fala em “vida bandida” e o apresenta como “o maior risco para a segurança nacional já enfrentado pelos brasileiros”.
Se há suspeita de recebimento de presentes caros ou uso de influência política para favorecer interesses privados, isso deve ser investigado. O problema começa quando o inquérito substitui o programa.
Nesse terreno, a semelhança com a imprensa lavajatista é evidente. Sai o tríplex, entra o Rolex. Sai o sítio, entra a loja de chocolates. Saem os amigos de Lula, entram os amigos de Flávio. A luta política é reduzida a saber quem pagou o quê, quem conhece quem e quem recebeu determinado presente.
Trata-se de uma enorme contradição pois setores da esquerda passaram anos denunciando exatamente esse mecanismo. Não se combatia apenas uma conclusão jurídica específica; denunciava-se a transformação da política em operação policial permanente, na qual Polícia Federal, Ministério Público, tribunais e grandes órgãos de imprensa determinavam diariamente qual escândalo deveria dominar o País.
Agora, parte dessa esquerda parece ter concluído que o método era ruim apenas quando apontado contra Lula.
O próprio artigo do Brasil 247 abre colocando lado a lado dois elementos: o desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em agosto, apresentado como resultado positivo do governo Lula, e as novas acusações contra Flávio Bolsonaro. A construção organiza a eleição como contraste moral, tendo de um lado, um indicador econômico favorável; de outro, Rolex, negócios suspeitos e “vida bandida”.
Seria muito mais proveitoso e correto fala sobre o que Flávio Bolsonaro propõe para salários, bancos, Petrobrás, privatizações e direitos trabalhistas. E como uma parcela importante dos trabalhadores rompeu com o PT e aderiu à direita, seria preciso informar o eleitor quais medidas do governo Lula poderiam ser comparadas às propostas do adversário. No entanto, isso é deixado de lado.
Uma das dificuldades do PT criticar, por exemplo, as alianças de Flávio Bolsonaro está no fato do próprio partido estar fazendo alianças muito à direita, como o lançamento de candidaturas ao Senado de Simone Tebet e Marina Silva, duas golpistas de primeira hora. A política econômica do governo também deixou muito a desejar, com juros sendo mantido nas alturas.
Expor programa, alianças, interesses econômicos, votações, declarações públicas e medidas defendidas por Flávio Bolsonaro permite que o leitor julgue uma corrente política pelo que ela representa, e não pelo volume do próximo vazamento.
Utilizando esse método, essa esquerda acaba tendo que jogar no campo do adversário. Uma vez aceito que denúncias, vazamentos e investigações devem funcionar como instrumento eleitoral, aceita-se igualmente que delegados, procuradores, ministros e grandes veículos tenham enorme poder para estabelecer o que o eleitor discutirá às vésperas da votação. E foi justamente essa experiência que marcou a Lava Jato.
Quem denunciou durante anos o tríplex, o sítio e até os pedalinhos como instrumentos de uma operação política deveria ser particularmente cauteloso antes de comemorar um Rolex encontrado no lado adversário. Trocar o dono dos objetos não altera o método.
O artigo de Damiani não demonstra por que o eleitor deveria rejeitar uma política determinada; procura demonstrar que deve rejeitar um personagem por sua suposta vida pessoal e criminal. É um grande retrocesso quando a política é reduzida a uma coleção de boletins de ocorrência, ela deixa de ser confronto de programas e interesses sociais e passa a funcionar como página policial.
A esquerda não ganha nada reproduzindo o jornalismo que denunciou quando Lula era o alvo. Pode até mudar o réu da semana. O poder conferido à polícia, ao Judiciário e ao vazamento continua exatamente no mesmo lugar.





