O Datafolha publicou neste sábado (7) pesquisa que confirma o que outros institutos já apontavam: Flávio Bolsonaro marca 43% contra 46% de Lula na simulação de segundo turno, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. Na intenção de voto espontânea, o senador fluminense, que não era sequer citado na rodada de dezembro, aparece agora com 12%. A vantagem de Lula, que já foi de 15 pontos, derreteu.
A pré-candidatura de Flávio foi lançada pelo pai a partir da cadeia, recebida inicialmente com ceticismo pela burguesia, e se firmou mesmo assim. Tarcísio de Freitas, antes citado como “O Plano T” pela revista Veja, começa a escorregar para 21% no primeiro turno.
O pânico que se instalou em parte do campo petista não é surpresa. É o resultado direto de uma aposta política que durou três anos e agora apresenta a conta.
É preciso dizer que as pesquisas eleitorais não registram a realidade, mas sim uma tendência. Os institutos de pesquisa são organismos da burguesia e operam a serviço dos interesses dela, inclusive para influenciar o resultado que dizem apenas medir. Mas o espaço de manobra da burguesia para manipular seus próprios números é determinado pela realidade concreta. Se Lula tivesse 60% e Flávio 20%, por exemplo, seria impossível publicar um empate técnico, pois a fraude ficaria evidente demais. O que os dados do Datafolha revelam, portanto, não é necessariamente a proporção exata das forças, mas o fato de que a situação real está suficientemente deteriorada para que a burguesia se sinta à vontade para publicar esses números.
A burguesia dá toda a impressão de estar desembarcando de qualquer tipo de apoio à candidatura de Lula. Durante três anos, o PT se apresentou como parceiro confiável do sistema — apoiou os 15% de taxa de juros, implementou o arcabouço fiscal, adotou uma série de medidas que contrariavam os interesses dos trabalhadores. A burguesia apoiou isso enquanto lhe era útil. Agora, à medida que o bolsonarismo se consolida como alternativa, com Flávio se aproximando cada vez mais do grande capital e da política neoliberal, ela não precisa mais do PT para garantir a ordem.
Ao mesmo tempo, se o PT disputa o eleitorado de direita, Flávio Bolsonaro tem muito mais credencial para ocupar esse espaço do que um partido que se diz de esquerda. Com isso, o PT fica sem a burguesia, que foi para o candidato mais confiável, e sem os trabalhadores, que não têm razão para se emocionar com uma política de direita disfarçada de esquerda.
A crise em torno da candidatura de Lula é expressão do esgotamento da política reformista. Essa política não conseguiu produzir nenhum resultado aparente para a população. Os índices de desemprego festejados pelo governo incluem o trabalhador que monta uma banca de camelô embaixo de viaduto. O Bolsa Família, criado há 23 anos, continua sendo um recurso essencial para evitar que a crise social brasileira se agrave ainda mais. Que o País não consiga escapar dessa dependência após mais de duas décadas é o resultado de uma economia que perdeu a indústria e concentrou boa parte de sua atividade na especulação financeira.
A essa crise econômica soma-se uma crise política que o PT ajudou a fabricar. Durante três anos, o Partido elogiou o STF, apoiou Alexandre de Moraes e deu respaldo a toda sorte de irregularidades cometidas pelo tribunal. Apareceu aos beijos e abraços com a Corte quando isso era conveniente. Agora, com as denúncias contra Moraes se acumulando, o PT não pode se apresentar como alternativa ao que ele mesmo apoiou. A esquerda terceirizou a luta contra o bolsonarismo para o STF, um inimigo da classe trabalhadora. Ao se tornar sócia desse organismo da política burguesa, colheu os frutos dessa escolha.
Se o PT quiser ganhar a eleição, terá que dar um cavalo de pau na sua política. Terá que se apresentar como candidato antissistema, contra o candidato do sistema, que tende a ser Flávio Bolsonaro. O problema é que essa virada não é simples depois de três anos em que Lula fez exatamente o oposto: procurou ser o homem do sistema, o garantidor da estabilidade que a burguesia pedia.
O bolsonarismo é uma força real, independentemente de qualquer pesquisa. A direção petista, que acreditou na boa vontade da burguesia e se recusou a enxergar essa realidade, agora se vê confrontada com ela. E quando a boa vontade da burguesia acaba, o que resta é o pânico, e não uma política.





