No dia 19 de setembro, Dora Kramer publicou na Folha de S.Paulo a coluna Apertemos os cintos, as lideranças sumiram. O cenário seria de “total desacerto”: Lula só pensa na reeleição, Fachin é desacatado, o Congresso é omisso… “Nunca, na nova era democrática, houve algo parecido”.
Ela diz que não se vê gesto nem se ouve voz. Sobre os juízes, “nada há a acrescentar” além das “selvagens vulgaridades” da sessão. Motta elege o pai. Alcolumbre se faz de morto. Locupletam-se, e o país que se vire.
A colunista fala de liderança e não fala o essencial: o problema é o próprio STF. Um poder sem voto, sem revogação, sem controle do povo. A crise não nasceu porque Lula tirou o corpo fora. Nasceu porque a Corte que Kramer passou anos paparicando virou o centro do regime — e agora aparece no escândalo do Banco Master.
Em setembro de 2025, na coluna Atos imperdoáveis, Kramer escreveu que anistiar os condenados do 8 de janeiro seria “desmoralizar a corte suprema de justiça” e dizer ao país que o decidido ali “vale menos que os interesses de um grupo político”. O Supremo não podia ser tocado. Tocar era golpe na instituição.
Em agosto de 2025, em O lado certo da força, o rigor do STF contra os golpistas era “justo, e até ameno”. A crítica à “rigidez” da Corte, da PF e da PGR teria sido “superdimensionada”. Moraes cercado pelos Estados Unidos virava prova de que o tribunal estava no lado certo.
Na mesma semana, em Moraes não tinha escolha, a prisão domiciliar de Bolsonaro era dever de ofício. O ministro não podia sopesar política. Tinha de executar a ordem. Em março de 2025, em A história em julgamento, o processo no STF era peça inédita, histórica, sem falar em “punições excessivas”.
Durante anos, a fórmula foi esta: a “democracia” reconquistada depende da Corte. Desmoralizar o Supremo é abrir caminho ao golpe. Quem critica o inquérito eterno, a censura, a prisão em massa “superdimensiona”. Quem pede anistia atenta contra a instituição.
Agora a mesma colunista olha a sessão, o contrato, as mensagens, o pedido de vista — e conclui que faltou um líder para “iluminar um caminho”. Não conclui que o caminho que ela apontou era o tribunal.
Kramer diz que a sociedade está “perplexa, desencantada, agoniada, nauseada”, mas “ainda na expectativa de solução”.
Solução de quê? De recompor a confiança nas instituições. A mesma confiança que ela pediu quando a instituição era Moraes julgando, prendendo e censurando.
Em 3 de setembro ela escreveu que cabia aos três Poderes “preservar a confiabilidade das instituições”. Em 10 de setembro, o Supremo evocava “rotina de desfaçatez”. Em 15, a crise criava “união nacional” em torno da correção da Corte. Em 17, o que estava em jogo era “a moral para julgar”. Em 19, sumiram as lideranças.
Nenhuma dessas matérias diz o óbvio. Não falta um estadista para salvar o Supremo. O Supremo é o nó.
A coluna trata Flávio Bolsonaro como ameaça porque promete indicar cinco ministros. Trata Lula como fisiológico porque mete R$91 no Bolsa Família. Trata o Centrão como omisso.
Cinco ministros novos não acabam com o órgão. Código de ética não acaba com o órgão. Fachin com pulso não acaba com o órgão. A “reorganização nacional” que Kramer cobra é a restauração da lisura do julgador — a mulher de César do artigo de Amaral, o porto seguro da própria Kramer uma semana antes. É a “democracia” da Folha: instituições de pé, povo expectante, colunista à espera de um condutor.
Enquanto a saída for pedir um condutor para “dar segurança ao país”, o país continua na mão dos onze. Não sumiram as lideranças. Sumiu, na prosa da Folha, a coragem de nomear o problema que a própria colunista passou anos a cobrir com a palavra democracia.





