Existe uma verdadeira histeria em diversos setores pequeno-burgueses contra as novas tecnologias, especialmente a Inteligência Artificial. O medo, na verdade, é da burguesia, que vê escapar de suas mãos o monopólio da informação. Como a pequena burguesia está ligada ideologicamente à burguesia, acaba refletindo seus temores.
O artigo A crise da verdade na era digital, de Marcio Pochmann, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta terça-feira (12), vai nesse sentido, descreve um mundo se decompondo, um cenário apocalíptico.
No olho do artigo, que diz que “a ascensão do regime de pós-verdade na contemporaneidade é o ápice de um processo histórico de automatização e simulação, no qual a racionalidade algorítmica substitui progressivamente o discernimento humano”, o leitor encontra uma terra arrasada e desoladora.
Na primeira parte do texto, divido em dois, Pochmann inicia dizendo que “a era digital mergulhou a sociedade numa crise profunda. A distinção entre a verdade e a mentira tornou-se cada vez mais nebulosa”. Essa afirmação não é verdadeira. O filósofo René Descartes, no século XVII, escreveu pelo menos dois livros sobre isso, o Discurso do Método e As Meditações Metafísicas. No entanto, essa questão é tão antiga quanto a humanidade, aparece na filosofia grega, no ceticismo, dentre outros, e não existe motivo para tanta gritaria.
Pochmann, de certa maneira, aceita isso ao dizer que “o problema não é apenas a existência da falsidade, presente em toda a história humana. O problema é mais grave, uma vez que os critérios coletivos que permitem separar o fato da invenção, o real do fabricado, a informação da manipulação – estão sendo perdidos”. Porém, o que dizer das sociedades que viviam, alguns ainda vivem, mergulhadas no pensamento místico?
A propaganda faz isso o tempo todo. Hoje, na Europa, há uma enormidade de pessoas que acreditam que haverá uma invasão russa. Inúmeras pessoas formam suas opiniões com base naquilo que assistem no cinema e na grande imprensa.
Não há motivos para dizer que “a pós-verdade nasce exatamente desse cenário”. Mas o autor se propõe a explicar que a tal pós-verdade seria “um regime social em que emoções, crenças identitárias e algoritmos passam a ter mais força do que fatos verificáveis. A verdade deixa de organizar o debate público. Em seu lugar, avançam o engajamento, a indignação e a conveniência ideológica”. E isso não se sustenta.
Durante as manifestações em junho de 2013 na capital paulista, a grande imprensa fazia acusações de pessoas depredando carros de polícia, atirando coquetéis molotov, que eram logo desmentidos por vídeos feitos por pessoas comuns com celulares e publicados nas redes sociais.
O acesso às tecnologias democratizou a produção de conteúdo e foi isso que assustou a burguesia, que até então detinha o monopólio da informação.
Não existe “pós-verdade”, esse termo é uma invenção que utilizam para justificar que “essa crise não começou com a internet. Suas raízes estão no próprio desenvolvimento da técnica moderna e da computação”.
Marcio Pochmann, em seu texto, recorre a dez autores na tentativa de atribuir credibilidade àquilo que diz. Diz que Alan Turing, 1950, questiona se uma máquina “poderia simular tão bem a inteligência humana a ponto de tornar indistinguível o humano do artificial”.
Diz que “John von Neumann também percebeu que a computação inaugurava um novo estágio civilizatório”. Joseh Weizenbaum “fez uma crítica decisiva à ilusão tecnocrática”, etc.
A doença
Segundo o articulista, “hoje, essa transformação alcança novo patamar com as plataformas digitais”, que “Jean Baudrillard descreveu esse processo como a ascensão do simulacro: representações que já não apenas refletem o real, mas passam a substituí-lo”.
Para onde se olha, no texto de Pochmann, só se enxerga desgraça: “Hannah Arendt já havia advertido que a destruição da verdade factual”, “Lee McIntyre mostra que a pós-verdade subordina os fatos às narrativas ideológicas e emocionais. Ralph Keyes aponta a naturalização social da mentira conveniente. Byung-Chul Han observa que o excesso de informação e transparência digital produz, paradoxalmente, mais desorientação, fragmentação e incapacidade de discernimento”.
Adiante, “Shoshana Zuboff acrescenta outro elemento central associado as plataformas digitais operando segundo a lógica do capitalismo de vigilância”, “Lewis Mumford denunciou a submissão da cultura à megamáquina tecnológica”…
Enfim, é o Armagedom, o fim da vida na Terra.
O remédio
O mais importante no texto é o que não está dito: a solução está na censura.
Ao perceber que o cidadão comum poderia perfeitamente criar conteúdos, começou uma campanha intensa contra as notícias falsas, as “fake news”. A justiça burguesa foi acionada e a cada dia surgem novas leis que punem comentários na internet, outras que proíbem jovens de acessarem as redes, inquéritos intermináveis e assim por diante.
A burguesia precisa a todo custo controlar a informação, e o problema não são as “fake news”, pois isso a imprensa sempre fez. A questão também não se encontra na “pós-verdade”. O grande problema é a verdade.
Milhares de vídeos em 2013 expuseram a manipulação e as mentiras da grande imprensa. A transmissão ao vivo do genocídio na Faixa de Gaza destruiu décadas de esforço e bilhões gastos em propaganda sionista.
É impossível esconder o assassinato de civis, bombardeios de escolas em Gaza, no Líbano e no Irã, o que tem gerado revolta no mundo inteiro.
O ataque sistemático às novas tecnologias é uma exigência da burguesia. Todo esse clima de medo é apenas o reflexo do que sente o grande capital, que sabe que é impossível conter o fluxo de informações e a verdade.





