A esquerda eleitoreira está em êxtase com as eleições nos Estados Unidos. Além do Esquerda Online exaltando a candidata Janeese Lewis George do DSA pelo Partido Democrata, temos agora o MES-PSOL, que nesta quarta-feira (15) publica o artigo intitulado “Neste verão, o DSA entra em uma nova fase”, assinado por Neal Meyer.
Na abertura, lê-se que “há eleições em que nada acontece — o que costuma ser o caso —, mas, de vez em quando, há eleições em que acontecem coisas importantes. As primárias consecutivas em Nova York, em 23 de junho, e no Colorado, em 30 de junho, foram ambas desse último tipo”, e essa tem sido a vida da esquerda pequeno-burguesa, sonhar com eleições.
Eleger candidatos poderia ser um fator de progresso da esquerda, caso os eleitos fossem combativos e utilizassem seus mandatos e a tribuna para denunciarem os candidatos burgueses e sua política inimiga da classe trabalhadora.
No entanto, o que se tem visto, especialmente no Brasil, são parlamentares preocupados em inventar novos crimes e aumentar penas, o que só confere maior poder para o Estado burguês esmagar o pobre.
No primeiro parágrafo, que reproduziremos inteiro, temos uma série de números do desempenho da esquerda: “A chapa apoiada pela regional de Nova York dos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America, DSA) triunfou em todas as frentes nas primárias democratas do estado em 23 de junho. Ambos os candidatos ao Congresso endossados pela organização obtiveram vitórias decisivas. A sindicalista e deputada estadual Claire Valdez venceu a eleição para representar o “distrito mais de esquerda do país”, que se estende pela fronteira entre o Brooklyn e o Queens. Ela derrotou o democrata progressista Antonio Reynoso, um político do Brooklyn, por 56% a 36%. A ativista do movimento de solidariedade à Palestina, Darializa Avila Chevalier, obteve uma vitória surpreendente (49% a 46%) contra outro “democrata progressista” e líder de longa data de uma das máquinas políticas democratas da cidade, Adriano Espaillat. A presença da DSA no Congresso foi ainda mais fortalecida no último dia de junho com a vitória de Melat Kiros em Denver, Colorado, que derrotou um candidato democrata que ocupava o cargo há muito tempo por quase 10 pontos percentuais.”
O parágrafo seguinte segue dizendo que “o DSA também obteve grande vitória na Assembleia Legislativa do estado de Nova York” etc.
A conclusão do texto é que “as vitórias e a repercussão que geraram também são prova de que a organização realmente “atingiu a maturidade”, quase exatamente dez anos após seu renascimento em novembro de 2016.” E também que “A esquerda nos Estados Unidos, com o DSA em seu centro, é agora uma força nacional que não pode ser ignorada nem tratada como um ator marginal.”
Nos Estados Unidos, como se sabe, há uma crescente polarização que tem feito crescer principalmente a extrema direita, que conseguiu reeleger Donald Trump. Em outros países, como no Reino Unido, a esquerda também tem ressurgido e ganhado força, mais ainda que nos EUA. Mas não há indícios de que esse crescimento vá se converter em um verdadeiro enfrentamento entre a classe trabalhadora e a burguesia.
Nos Estados Unidos, o artigo afirma que “mais importante do que os números é o programa com base no qual os candidatos do DSA foram eleitos. Todos venceram, não apesar de, mas por terem apoiado uma plataforma clara: Medicare para Todos, sindicatos fortes, tributação dos ricos, abolição do ICE, fim da Guerra de Trump contra o Irã e um embargo de armas a Israel.”
Olhando essas propostas, nota-se que o fim da guerra era uma reivindicação do próprio Trump, que cedeu para o grande capital financeiro e iniciou uma guerra de agressão contra o Irã, e isso, inevitavelmente, se voltou contra seu governo, que perde apoio.
Tributação dos ricos é uma reivindicação coringa que aparece o tempo todo, inclusive no Brasil, mas que não resulta em nada. Além disso, os socialistas não devem se limitar a tributar a burguesia, mas devem acabar com ela. Os tributos, finalmente, podem ser repassados para a classe trabalhadora, como já aconteceu inúmeras vezes.
A bolsa do canguru
Apesar de toda a comemoração, a verdade é que o DSA age de dentro do Partido Democrata, o que demonstra que essa “força” é muito relativa. Além disso, já começa a surgir reação dentro do Partido Democrata, cujos líderes “começaram a sugerir que o DSA mantém uma relação ‘parasitária’ com os Democratas.”
Como a esquerda pode de fato crescer se não lança candidaturas próprias e enfrenta o bipartidarismo norte-americano? Não o faz porque se vale da máquina eleitoral para se beneficiar, o que também revela sua ilusão pequeno-burguesa dos cargos dentro do sistema.
O artigo defende que, enquanto o sistema eleitoral dos EUA mantiver barreiras contra terceiros partidos independentes, o DSA deve continuar utilizando a tática de disputar as primárias democratas, ao mesmo tempo em que apoia reformas políticas (como a representação proporcional e o voto preferencial) que permitam uma futura independência da esquerda.
A questão que se coloca é: quando virá essa futura independência? Uma esquerda que realmente deseja crescer deve disputar a consciência do eleitor em vez de ficar preocupada em conseguir cargos.
Existe uma crescente polarização nos Estados Unidos e esta só pode ser transformada verdadeiramente em crescimento da esquerda se esta tiver a coragem necessária para sair de dentro da bolsa do Partido Democrata.
Do jeito que as coisas caminham, a única coisa que a esquerda terá a oferecer é o reformismo que, em última análise, serve apenas para dar maior longevidade para a burguesia e o capitalismo.




