Editorial

Política do PT chegou a um impasse

O problema não é apenas que o regime político impede o governo de realizar reformas profundas; o problema é que o PT aceita esse bloqueio e não o denuncia diante das massas

A entrevista de José Dirceu a Breno Altman teve o mérito de colocar às claras uma verdade que o próprio Partido dos Trabalhadores (PT) normalmente prefere esconder: nas condições atuais, não se governa o País apenas vencendo a eleição. O presidente pode vencer nas urnas, tomar posse, ocupar o Palácio do Planalto e, ainda assim, encontrar diante de si um Estado montado para impedir qualquer transformação social séria.

Dirceu tem razão quando aponta o peso das instituições, do Congresso, do Banco Central, das privatizações e do poder econômico. A autonomia do Banco Central foi estabelecida pela Lei Complementar nº 179, que dispõe sobre sua autonomia e sobre as regras de nomeação e exoneração de sua direção. O novo arcabouço fiscal, por sua vez, foi convertido na Lei Complementar nº 200, regime que organiza limites à despesa pública sob o nome de “sustentabilidade fiscal”. A Câmara atual mostra, de maneira cristalina, a correlação de forças: o grande bloco de direita e reúne 272 deputados, enquanto a Federação Brasil da Esperança tem 83, dos quais 66 são do PT. No Senado, o PL tornou-se o maior partido no início de 2026, com 15 senadores.

Tudo isso é verdade. Mas é justamente aí que começa a maior limitação do PT.

Um partido operário, popular, de esquerda, diante de um regime que impede o investimento público, que entrega empresas estratégicas, que subordina a política econômica aos bancos e que coloca o orçamento a serviço da dívida, não pode simplesmente dizer: “estas são as regras do jogo”. Se estas são as regras, é preciso denunciá-las. Se o Estado foi organizado para impedir que o povo governe, é preciso dizer isso ao povo. Se o Banco Central independente é um poder acima do voto popular, é preciso fazer campanha contra ele. Se o arcabouço fiscal impede uma recuperação real da saúde, da educação, da previdência e dos serviços públicos, é preciso chamar as massas à luta contra esse mecanismo.

O PT, no entanto, faz o contrário. Em vez de explicar à população que o País está amarrado por um regime político antipopular, tenta governar procurando pequenas brechas dentro desse mesmo regime. Em vez de dizer que não há dinheiro para reformar o País porque o orçamento está submetido aos banqueiros, prefere apresentar medidas limitadas como se fossem grandes conquistas. Em vez de fazer uma campanha nacional pela reestatização das empresas privatizadas, pela revogação da autonomia do Banco Central e pelo fim do garrote fiscal, limita-se a administrar a crise.

Essa política tem uma consequência inevitável: desmoraliza o próprio PT diante de sua base social. O povo ouve a propaganda oficial dizendo que tudo melhora, que tudo avança, que o governo faz maravilhas. Depois sai de casa e encontra o transporte caro, o salário insuficiente, a saúde pública deteriorada, a escola sucateada, a aposentadoria ameaçada, o emprego transformado em bico. Se isto é o máximo que o PT tem a oferecer, então o máximo é muito pouco.

A crítica petista ao neoliberalismo aparece sem uma política real de ruptura, mantendo a defesa das instituições, o equilíbrio fiscal e a adaptação aos limites do regime. É essa contradição que a fala de Dirceu revela. Ao tentar justificar a moderação do governo, ele demonstra a impotência do PT.

Dizer que a classe dominante é poderosa não resolve nada. O problema é saber que política se apresenta diante disso. Ou se organiza uma campanha junto às massas contra esse bloqueio, ou se aceita o bloqueio. O PT escolheu a segunda alternativa.

O PT não se volta contra o bloqueio porque teme romper com a chamada “frente ampla”. Mas a frente ampla é justamente a coleira que prende o governo. Ela dá ao grande capital o direito de veto sobre qualquer medida mais profunda. O resultado é que o governo se esforça para tranquilizar os bancos, agradar o Congresso, negociar com a direita, cumprir meta fiscal e, depois, tenta convencer o povo de que está fazendo uma transformação histórica.

Não está.

Há melhoras pontuais, evidentemente. Seria absurdo negar que determinados programas aliviam a situação de setores populares. Mas aliviar não é transformar. Administrar a miséria não é acabar com ela.

A própria situação eleitoral mostra o fracasso dessa adaptação. Uma pesquisa Real Time Big Data divulgada em maio de 2026 mostrou 52% de desaprovação ao governo Lula e 42% de aprovação, dentro de um quadro de forte desgaste político. A insistência em dizer que tudo vai bem não convence a população que vive a crise no bolso.

A saída está em dizer a verdade ao povo: o Brasil está amarrado por um regime político construído para impedir que a vontade popular se imponha. Sem isso, o PT continuará prometendo reformas que não pode realizar. E, quanto mais prometer maravilhas diante de uma realidade cada vez pior, mais preparará sua própria derrota.

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