Neste 21 de setembro completam-se 12 anos da entrada de Ansar Alá em Saná. Foi o início da Revolução Iemenita. Em 2014, após protestos provocados pela retirada dos subsídios aos combustíveis e confrontos com forças ligadas ao governo, Ansar Alá assumiu o controle de pontos importantes da capital.
Meses depois, em março de 2015, a Arábia Saudita iniciou, junto com seus aliados, uma intervenção militar no país. Naquele momento, os Estados Unidos eram governados por Barack Obama, do Partido Democrata. O apoio de Washington à ofensiva não ficou restrito à diplomacia.
No próprio dia em que a operação foi anunciada, a Casa Branca informou que Obama havia autorizado assistência logística e de inteligência à coalizão comandada pelos sauditas. O governo norte-americano montou ainda uma célula conjunta de planejamento com a Arábia Saudita para coordenar esse apoio. Em abril, a Casa Branca confirmou novamente que fornecia inteligência e assistência logística às operações.
A guerra atravessou governos norte-americanos e devastou o país. Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estimou que, até o final de 2021, a guerra de agressão havia provocado 377 mil mortes, das quais 223 mil por consequências indiretas, como fome e doenças. Cerca de 259 mil das mortes atribuídas à guerra seriam de crianças com menos de cinco anos.
As consequências continuam em 2026. A Organização das Nações Unidas calcula que mais de 22 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária no Iêmen. São 18,3 milhões em situação de insegurança alimentar aguda, 5,2 milhões de deslocados internos e mais de 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos com desnutrição aguda. Apenas 59,3% das instalações de saúde funcionam plenamente.
Nesse período, armamentos produzidos nos Estados Unidos apareceram repetidamente nos locais atingidos pela coalizão. Em 2019, a Anistia Internacional identificou uma bomba guiada GBU-12, fabricada pela norte-americana Raytheon, usada contra uma residência na província de Taiz. Seis civis morreram, entre eles três crianças. A organização afirmou ter documentado dezenas de ataques da coalizão que poderiam constituir graves violações do Direito Humanitário Internacional.
O caso não foi isolado. Em janeiro de 2022, já durante o governo do democrata Joe Biden, a Anistia identificou outra bomba GBU-12 norte-americana empregada num ataque contra um centro de detenção em Saada. Segundo Médicos Sem Fronteiras, citado pela organização, pelo menos 80 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas.
O volume da relação militar também aparece nos documentos do próprio governo dos Estados Unidos. O Government Accountability Office, órgão de fiscalização do Congresso, calculou que o Departamento de Defesa administrou pelo menos US$54,6 bilhões em apoio militar vendido à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos entre os anos fiscais de 2015 e 2021. O material incluía helicópteros, mísseis e bombas. O órgão concluiu ainda que os departamentos de Estado e de Defesa não haviam determinado plenamente em que medida essa assistência contribuiu para danos causados a civis no Iêmen.
Joe Biden assumiu a Presidência prometendo mudar a política para a guerra. Em fevereiro de 2021, seu governo anunciou o encerramento do apoio norte-americano às “operações ofensivas” no Iêmen, incluindo vendas de armamentos relacionadas a essas operações e parte do compartilhamento de inteligência. Ao mesmo tempo, deixou explícito que continuaria fornecendo apoio para aquilo que classificasse como defesa do território saudita. Não passava de desculpa para manter o apoio à agressão, sob uma outra roupagem.
É claro que a decisão mas não encerrou a cooperação militar dos Estados Unidos com a monarquia saudita. Tampouco apagou os anos anteriores, durante os quais a aviação da coalizão recebeu auxílio logístico e de inteligência de Washington enquanto organizações internacionais acumulavam provas de ataques contra civis.
O governo republicano de Donald Trump também manteve durante seu primeiro mandato o apoio à coalizão. A guerra do Iêmen, portanto, não foi uma política exclusiva do Partido Democrata. O registro dos governos Obama e Biden, porém, contradiz a apresentação dos democratas como uma alternativa pacifista à política externa republicana: foi Obama quem autorizou a assistência norte-americana à intervenção de 2015, enquanto Biden, apesar de restringir parte dela em 2021, preservou a relação militar com Riad.
Esses mesmos que se apresentam como defensores da democracia contra o fascismo, a extrema direita e o autoritarismo são os maiores responsáveis pela devastação do Iêmen, a fome de milhões de pessoas e o assassinato de centenas de milhares.
Doze anos depois da Revolução de 21 de Setembro, o Iêmen permanece marcado por essa guerra. Milhões dependem de alimentos e assistência médica, enquanto a destruição acumulada desde 2015 ainda pesa sobre hospitais, abastecimento de água e demais serviços básicos. Os números atuais da ONU mostram que a catástrofe humanitária está longe de pertencer ao passado.





