A Revista Movimento, publicação vinculada ao MES-PSOL, republicou nesta quinta-feira (24) um artigo do economista Michael Roberts sobre as eleições parlamentares e a economia russa. Publicado originalmente no The Next Recession, o texto é apresentado pela revista como uma análise da Rússia diante da “agressão militar contra a Ucrânia”.
Em 2022, a Revista Movimento já havia publicado O que é o imperialismo russo?, de Theo Louzada Lobato, defendendo que a Rússia exerce um papel imperialista e apresentando a guerra como parte de uma disputa entre imperialismos.
Essa caracterização deixa em segundo plano um elemento fundamental dos acontecimentos que precederam fevereiro de 2022: a expansão da OTAN para o Leste e a política de incorporação da Ucrânia à aliança militar.
A entrada da Ucrânia na OTAN não era uma hipótese inventada pelos russos. Na cúpula de Bucareste, em abril de 2008, a própria organização declarou oficialmente sobre Ucrânia e Geórgia: “esses países se tornarão membros da OTAN”. O documento acrescentava que o Plano de Ação para Adesão seria o passo seguinte no caminho dos dois países para a organização.
A expansão também não se limitava à Ucrânia. Depois do fim do Pacto de Varsóvia, República Tcheca, Hungria e Polônia entraram na OTAN em 1999. Em 2004, aderiram Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. A própria OTAN apresenta essas adesões como as primeiras grandes ondas de sua expansão depois da “Guerra Fria”.
A revolução colorida de 2014 foi outro passo decisivo. O governo de Víctor Ianucóvitch caiu depois das manifestações do Maidan, que foram orquestradas pelo imperialismo. Um dos documentos mais reveladores daquele período foi o telefonema vazado entre Victoria Nuland, então secretária assistente de Estado norte-americana, e Geoffrey Pyatt, embaixador dos EUA em Quieve. Os dois discutiam os dirigentes da oposição e a composição política que poderia surgir da crise; Nuland defendia Arseni Iatseniuc para uma posição de destaque e considerava inconveniente a entrada imediata de Vitali Klitschko. Pouco depois da derrubada de Ianucóvitch, Iatseniuc tornou-se primeiro-ministro.
A guerra no Donbass começou naquele mesmo período. Em 2014 e 2015 foram firmados os acordos de Minsk, destinados a estabelecer um cessar-fogo e uma saída política para o conflito. O pacote de fevereiro de 2015 foi acordado pelo Grupo de Contato Trilateral, sob acompanhamento da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. A própria OSCE continuou durante os anos seguintes acompanhando violações do cessar-fogo e a aplicação das medidas previstas no acordo.
A operação militar russa ocorreu, portanto, depois de anos de confrontos e tentativas de solução diplomática. Em dezembro de 2021, Moscou apresentou aos Estados Unidos e à OTAN dois projetos de acordo sobre garantias de segurança. O próprio Departamento de Estado norte-americano confirmou posteriormente o recebimento dos documentos e a realização de negociações.
Uma das exigências fundamentais da Rússia era impedir uma nova expansão da OTAN. Os EUS recusaram essa condição, afirmando que nenhum país poderia ter poder de veto sobre a entrada de outro na aliança. Ao mesmo tempo, apresentou propostas sobre armamentos, exercícios militares e medidas de transparência. Estados Unidos e OTAN sustentam que a escolha de alianças pertence soberanamente à Ucrânia e caracterizam a operação russa de 2022 como uma agressão não provocada.
O MES praticamente não discute essa sequência. Ao apresentar a guerra simplesmente como uma “agressão militar contra a Ucrânia”, ficam fora da explicação a expansão da OTAN, a decisão de incorporar a Ucrânia, a crise de 2014, os anos de guerra no Donbass, os acordos de Minsk e as negociações sobre garantias de segurança anteriores a fevereiro de 2022.
Caracterizar a Rússia como imperialista permite completar essa interpretação. Lênin não empregava o conceito como simples sinônimo de um país capitalista com forças armadas poderosas ou grandes empresas. O próprio artigo publicado pela Revista Movimento enumera os critérios leninistas: concentração monopolista do capital, fusão do capital bancário e industrial em capital financeiro, importância crescente da exportação de capitais, formação de associações monopolistas internacionais e divisão territorial do mundo entre as principais potências capitalistas.
Quando procura demonstrar o “imperialismo russo”, entretanto, o artigo do MES passa sobretudo para exemplos de influência regional: Bielorrússia, Cazaquistão, Geórgia, Síria, venda de armas e presença de empresas russas no exterior. O próprio texto reconhece que a capacidade russa não pode ser comparada à norte-americana, mas resolve a diferença afirmando que existem imperialismos desiguais.
Trata-se de um truque, pois não demonstra qual posição o capital financeiro russo ocupa na divisão econômica mundial e qual é sua relação com os principais centros financeiros internacionais.
A Rússia é um país sancionado e a tese dos “dois imperialismos” acaba, assim, tratando sob a mesma categoria a OTAN, dirigida pelas principais potências capitalistas, e o país que vem sendo submetido à expansão da aliança e a uma ampla campanha de sanções. A diferença entre as posições ocupadas por essas forças no sistema mundial fica praticamente sem desenvolvimento no artigo do MES.
A matéria de Roberts apresenta um descompasso ao tratar da vida política. São dedicados vários parágrafos às restrições impostas à oposição russa, aos candidatos impedidos de concorrer e aos processos contra opositores. A situação eleitoral da Ucrânia recebe tratamento muito menor. O país continua sem realizar eleições. E se o processo eleitoral é importantes para avaliar o regime russo, a falta de eleições na Ucrânia também é relevante para compreender a situação.
Há ainda uma contradição no tratamento dado à economia. O título fala em economia “estagnada”, mas Roberts reconhece que não ocorreu o colapso previsto por muitos analistas ocidentais no início da guerra. Afirma inclusive que a Rússia possui recursos suficientes para manter o esforço militar e que há poucas razões para esperar uma quebra econômica.
A economia russa efetivamente desacelerou. A pesquisa de setembro do Banco Central projeta crescimento de apenas 0,5% do PIB em 2026 e inflação de 6,6%. Ao mesmo tempo, a estimativa de desemprego é de 2,2%, enquanto os salários nominais devem crescer 10,4%. Depois de mais de quatro anos de guerra, sanções econômicas, restrições comerciais e bloqueios financeiros, os números mostram uma economia com dificuldades importantes, mas muito distante do rápido desmoronamento previsto no início do conflito.
O imperialismo está vendo uma Ucrânia em uma situação terrível e uma derrota ali pode ser catastrófica. Por isso prepara uma guerra, mas pode sofrer um grande revés não apenas pelos ataques russos, mas pela intervenção direta das massas, que podem colocar a Europa em uma condição pré-revolucionária.




