Driss Mrani

Fundador e presidente do Movimento Progressista Marroquino, que visa promover princípios progressistas no Marrocos derrubando a monarquia totalitária que serve ao imperialismo e, então, estabelecer uma república democrática na qual todos os segmentos do povo marroquino participem sem descriminação

Coluna

O rosto do poder quando veste a camisa do futebol

Debate em torno de Fouzi Lekjaa não seria apenas sobre um homem, mas sobre um modelo de gestão e de poder

Nos sistemas em que o poder político se entrelaça com os diversos setores do Estado, a ascensão de determinados dirigentes deixa de ser apenas resultado de competência ou sucesso administrativo e passa a refletir a própria natureza do regime. Sob essa perspectiva, Fouzi Lekjaa é visto por muitos opositores como algo mais do que um dirigente esportivo ou responsável técnico pelo orçamento do Estado: ele seria uma das expressões mais marcantes da concentração de poder no Marrocos.

Ao longo dos últimos anos, Lekjaa construiu a imagem de um gestor eficiente, associado aos avanços do futebol marroquino e à condução de importantes dossiês financeiros. Contudo, para seus críticos, essa imagem esconde uma questão mais profunda: a acumulação de influência nas mãos de um grupo restrito de dirigentes que atuam em um ambiente político onde os mecanismos de fiscalização e responsabilização seriam limitados.

Enquanto novos estádios são inaugurados e grandes projetos esportivos recebem destaque, muitos cidadãos se perguntam qual é o impacto real dessas realizações em suas vidas. O que representam arenas modernas para quem enfrenta dificuldades no acesso à saúde? Qual o significado de sediar grandes competições para uma juventude marcada pelo desemprego e pelo aumento do custo de vida? Para a oposição, a promoção do esporte como símbolo de sucesso nacional serviria também para projetar uma imagem de modernização, enquanto problemas sociais estruturais permanecem sem solução.

Os críticos de Lekjaa argumentam ainda que a combinação entre influência esportiva e participação na gestão das finanças públicas não é apenas uma coincidência administrativa, mas um reflexo de um modelo de poder concentrado em uma elite reduzida. Em sistemas onde os mecanismos independentes de controle são considerados frágeis, afirmam eles, determinadas figuras públicas acabam adquirindo mais peso político do que as próprias instituições que representam.

Segundo essa visão, a questão não se resume à figura de Fouzi Lekjaa, mas ao contexto político que permite o surgimento de dirigentes com ampla capacidade de influência sem que exista, na mesma proporção, uma supervisão efetiva por parte da sociedade e das instituições de controle. Quanto maior o poder acumulado por um dirigente, maior deveria ser a exigência de transparência e prestação de contas.

Para muitos opositores, o futebol no Marrocos tornou-se mais do que um esporte. Ele passou a desempenhar um papel político e simbólico, ajudando a construir consensos e a projetar uma narrativa de sucesso nacional. Enquanto a atenção pública se concentra nos resultados esportivos e nos grandes eventos internacionais, continuam presentes os debates sobre distribuição de riqueza, justiça social e qualidade da governança.

Dessa forma, o debate em torno de Fouzi Lekjaa não seria apenas sobre um homem, mas sobre um modelo de gestão e de poder. Para seus críticos, ele simboliza uma fase política em que a imagem, os grandes projetos e os resultados de impacto imediato ocupam o centro das atenções, enquanto as discussões sobre fortalecimento institucional, transparência e participação democrática permanecem em segundo plano.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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