O artigo recente de Aquiles Lins sobre a entrevista de Lula à Der Spiegel procura vender como virtude política aquilo que, na realidade, é um dos principais problemas da política da frente ampla: a adaptação completa aos setores mais reacionários do regime em nome da suposta “defesa da democracia”.
Logo no início, o colunista afirma que a fala de Lula revelaria “a reafirmação da confiança de Lula na democracia e sinais claros de segurança política”. Mais adiante, insiste que “o foco central da entrevista não está em qualquer admissão de derrota, mas sim na reafirmação de princípios democráticos”. O problema é justamente esse. Que “democracia” é essa, exaltada de maneira tão abstrata, como se fosse um valor neutro, acima das classes e dos interesses materiais em disputa?
No Brasil real, essa tal “defesa da democracia” serviu, nos últimos anos, para construir uma frente política com o que há de mais podre e reacionário no regime. Em nome de barrar a extrema direita, a esquerda pequeno burguesa passou a celebrar o STF, a tutela judicial sobre a vida política nacional, a censura nas redes, o fortalecimento da máquina repressiva e até a aliança com frações abertamente pró-imperialistas da burguesia. Trata-se de uma fraude política.
Quando Aquiles elogia Lula por dizer que “o Brasil continuará sendo um país democrático”, faz de conta que não vê o conteúdo concreto dessa política. A chamada “democracia” brasileira é o regime dos banqueiros, do latifúndio, dos generais, da imprensa capitalista e do Judiciário não eleito. Não há nada de progressista em apresentar esse regime como um patrimônio comum a ser defendido ao lado de seus algozes tradicionais.
O texto chega a celebrar como prova de compromisso democrático a declaração de Lula segundo a qual “é a primeira vez na nossa história que um ex-presidente e quatro generais foram responsabilizados por seus atos”. Aqui aparece de forma cristalina o engodo. Responsabilizados por quem? Pelo mesmo Judiciário que participou do golpe de 2016, sustentou a Lava Jato, prendeu Lula sem provas e interveio repetidamente no processo político conforme as conveniências do regime. Transformar esse aparato em guardião da “democracia” é um completo desarme político da esquerda.
É exatamente aí que está o centro da questão. A política da frente ampla não combate a direita mobilizando os trabalhadores contra o regime. Ela procura salvar o próprio regime, associando os explorados aos seus inimigos históricos. Sob a palavra de ordem da “defesa da democracia”, pede-se confiança no STF, na imprensa imperialista, em setores da burguesia “civilizada” e até no alinhamento diplomático com potências estrangeiras apresentadas como bastiões da institucionalidade. Ou seja, substitui-se a luta de classes pela conciliação com os carrascos de sempre.





