Polêmica

O PSOL e a falência do cretinismo eleitoral

Artigo publicado no Esquerda Online reconhece os limites do governo Lula, mas termina concentrando sua resposta na estratégia para conquistar votos na reta final da eleição

Um artigo publicado pelo colunista Gabriel Santos no portal Esquerda Online oferece um exemplo bastante claro de uma das principais contradições da esquerda ligada ao PSOL. O autor faz críticas importantes ao terceiro governo Lula, reconhece a piora das condições de vida sentida por parcelas da população e admite a ausência de reformas de maior alcance. Quando chega, porém, ao problema do que fazer diante dessa situação, quase toda a discussão desemboca novamente na campanha eleitoral.

O artigo, intitulado Faltam 10 dias para definirmos o futuro do Brasil, foi publicado em 24 de setembro. O ponto mais interessante do texto é que seu autor não esconde os problemas enfrentados pelo governo.

Depois de elogiar aspectos da atual administração e argumentar que Lula teria desempenhado um papel de “reconstrução nacional”, Santos faz uma admissão bastante significativa:

“Porém, a verdade é que o governo não conseguiu nenhuma política pública estrutural ou de grande caráter reformista, que geraria impacto imediato, como foi nos primeiros mandatos de Lula com Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, etc.”

Segundo o próprio autor, existe um “descompasso” entre a propaganda eleitoral e aquilo que a população percebe no cotidiano. Ele afirma que, enquanto o governo apresenta indicadores positivos, grande parte do eleitorado continua encontrando dificuldade para pagar as contas e resume o problema recorrendo à conhecida expressão de Maria da Conceição Tavares: “ninguém come PIB”.

O artigo também reconhece mudanças profundas sofridas pela classe trabalhadora. Santos menciona o crescimento do trabalho por aplicativos e da informalidade e afirma que o PT e a esquerda ainda não encontraram uma resposta adequada para essa transformação.

O governo não realizou reformas estruturais. A campanha estaria desconectada de parte importante do sentimento popular. O endividamento pesa sobre a população. E a própria base social que sustentou o lulismo nas décadas anteriores já não seria a mesma.

Em vez de desenvolver a questão da organização independente dos trabalhadores, das greves, dos sindicatos ou da mobilização popular contra os interesses econômicos que o próprio texto identifica, o artigo passa imediatamente para a discussão de como melhorar a campanha de Lula.

Santos escreve que seria necessário “mudar e recalcular a política”. Mas o sentido concreto dessa mudança aparece logo depois: reconhecer os problemas econômicos, formular novas bandeiras, mobilizar a militância e, principalmente, disputar os votos dos indecisos.

A preocupação central torna-se encontrar a mensagem eleitoral adequada.

O autor discute quais temas podem convencer quem ainda não decidiu o voto, quais propostas possuem maior “apelo popular”, como Lula deveria falar sobre o futuro e quais setores sociais precisariam ser conquistados pela campanha.

Isso permite identificar uma diferença importante entre duas concepções de política.

Uma delas considera a eleição um terreno de intervenção dentro de uma luta política muito mais ampla. Outra tende a transformar a própria disputa eleitoral no eixo em torno do qual todo o restante deve se organizar.

É nesse sentido que a velha crítica marxista ao “cretinismo parlamentar” continua relevante.

A expressão, utilizada por Marx e Engels e retomada diversas vezes por Lênin, referia-se precisamente à tendência de tratar as instituições representativas como se nelas estivesse concentrada toda a política. Lênin não defendia a abstenção eleitoral por princípio. Pelo contrário, defendia a utilização do Parlamento e das eleições como instrumentos subordinados à luta política e à organização dos trabalhadores. O problema começava quando esse instrumento passava a ocupar o lugar da própria luta de classes.

O artigo do Esquerda Online permite discutir justamente esse problema.

Depois de reconhecer que os limites enfrentados pelo governo possuem raízes sociais profundas, a resposta apresentada concentra-se em como o governo deve se comportar nos últimos dias da campanha.

Ao final, Santos escreve:

“O governo tem a caneta e máquina na mão, uma militância e estrutura presente em todo o território nacional, um passado para reivindicar, e precisa encontrar um futuro para sonhar e afirmar que dias melhores virão.”

A frase é reveladora.

O próprio artigo havia reconhecido anteriormente que o governo não conseguiu realizar nenhuma medida “estrutural ou de grande caráter reformista”. Apesar disso, na reta final da eleição, a posse da “caneta” e da “máquina” aparece como uma vantagem política a ser utilizada.

A contradição merece ser destacada.

Se o problema é estrutural, não pode ser solucionado simplesmente aperfeiçoando a propaganda sobre o governo. Se existe uma deterioração das condições de vida percebida pelos trabalhadores, a questão não se resume a encontrar uma maneira mais eficiente de apresentar as realizações governamentais.

Há uma diferença entre mudar a realidade e mudar a maneira de apresentá-la durante uma campanha.

O próprio Santos percebe parcialmente esse problema quando critica uma campanha concentrada apenas nas “entregas” administrativas. Entretanto, sua alternativa continua organizada fundamentalmente em torno da pergunta: o que Lula precisa fazer para convencer o eleitor?

O trabalhador aparece, assim, sobretudo como eleitor.

O artigo identifica os “indecisos”, procura estabelecer seu perfil social e discute que mensagem seria capaz de conquistá-los. Em outro trecho, sustenta que o resultado dependeria particularmente das mulheres das periferias das grandes cidades.

Essa maneira de abordar a população é comum nas campanhas eleitorais. Segmentam-se grupos sociais, procuram-se suas principais preocupações e adapta-se a mensagem para ampliar o número de votos.

Mas uma organização que se apresenta como marxista precisa ir além disso.

Para o marxismo, a classe trabalhadora não é simplesmente uma categoria eleitoral. Seu poder político decorre de sua posição na produção e de sua capacidade de organização coletiva.

Uma greve pode interromper uma fábrica, um sistema de transportes ou um setor econômico inteiro. Uma mobilização organizada pode impor reivindicações que nenhum partido pretendia conceder espontaneamente. É essa força social, e não simplesmente sua dimensão numérica nas urnas, que dá à classe trabalhadora seu papel específico na luta política.

Quando toda a atividade passa a ser observada pelo prisma eleitoral, essa dimensão tende a desaparecer.

Isso também explica uma segunda contradição do artigo.

Depois de reconhecer vários problemas reais da campanha e do governo, Santos dirige sua crítica contra setores da própria esquerda que enfatizam exatamente essas dificuldades.

Ele afirma:

“Alguns, entusiastas do caos, aproveitam o resultado destas pesquisas para afirmar que tinham razão. Que a candidatura de Lula tem errado, que seu governo não mobilizou as massas, que a extrema direita é a corrente mais dinâmica do país, etc.”

Logo depois, faz uma admissão curiosa:

“Tudo isto é verdade, a campanha tem errado, o governo foi aquém do necessário”, mas acrescenta que esses críticos pareceriam “torcer pela derrota eleitoral de Lula”.

A passagem concentra a contradição do argumento.

O autor admite que as críticas são verdadeiras, mas questiona politicamente aqueles que insistem nelas durante a campanha.

O problema deixa então de ser saber se determinada crítica está correta. Passa a ser saber se ela favorece ou prejudica eleitoralmente uma candidatura.

Esse mecanismo produz uma pressão permanente sobre a crítica pela esquerda.

Se o governo comete um erro, denunciá-lo pode ser apresentado como algo que prejudica sua candidatura. Se deixa de atender uma reivindicação dos trabalhadores, a mobilização em torno dela pode ser acusada de enfraquecer o campo governista. Se uma corrente alerta que determinada política favorece a direita, pode ser acusada de “catastrofismo”.

A eleição passa a funcionar como justificativa para colocar a luta política em segundo plano.

É justamente esse problema que a crítica marxista ao eleitoralismo procura destacar.

Participar de eleições é uma questão tática. Transformar a eleição no critério pelo qual todas as demais lutas são julgadas é outra coisa.

A primeira posição utiliza a campanha eleitoral como mais um terreno para apresentar um programa, organizar trabalhadores e desenvolver a luta política. A segunda tende a subordinar o programa, a crítica e a mobilização às necessidades imediatas da campanha.

O artigo de Gabriel Santos é particularmente interessante porque sua própria argumentação expõe essa tensão.

Ele reconhece problemas estruturais, identifica limitações sérias do governo e registra a insatisfação econômica de parcelas da população. Mas, diante disso, sua preocupação prática concentra-se em recalcular a campanha, mobilizar os indecisos e utilizar melhor a “caneta e máquina” disponíveis ao governo.

A discussão relevante, portanto, não é se eleições devem ser ignoradas. Lênin jamais defendeu isso como princípio geral.

A questão é saber qual lugar elas ocupam na estratégia política.

Para uma concepção marxista, eleições e parlamentos são terrenos auxiliares de uma luta cuja força decisiva está fora deles: na organização política dos trabalhadores, nos sindicatos, nas mobilizações, nas greves e na capacidade das massas de intervir diretamente na vida política.

Quando essa relação se inverte e toda a política começa a girar em torno das necessidades de uma candidatura, aquilo que deveria ser um instrumento tende a transformar-se num fim em si mesmo.

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