O artigo Quem controla o mundo não é quem produz. É quem decide quem passa, de Reynaldo José Aragon Gonçalves, publicado no Brasil 247 neste domingo (12), discute, sem utilizar o termo, os atributos do imperialismo. O debate é importante para mostrar que não existe uma coisa chamada “multipolaridade”.
Gonçalves escreve no olho do artigo que há algum tempo vem “acompanhando como a disputa geopolítica deixou de girar apenas em torno de território, produção ou força militar e passou a se concentrar naquilo que sustenta o próprio funcionamento do sistema: a circulação.” No entanto, se observarmos, veremos que controle de território, produção e força militar são imprescindíveis para o controle da circulação.
Um exemplo disso é o acordo secreto Sykes-Picot, firmado em maio de 1916 (no meio da I Guerra Mundial) entre o Reino Unido e a França para visando o controle a divisão do Líbano, Palestina e de grande parte do Oriente Médio.
O acordo fatiava o Império Otomano, que estava em declínio. À França (Zona Azul), cabia o controle da Síria, Líbano (incluindo Beirute) e partes do sudeste da Tuquia.
Ao Reino Unido (Zona Vermelha) coube o controle da Mesopotâmia (Iraque), incluindo Bagdá e Basra, e portos estratégicos na Palestina, Haifa e Acre, para garantir acesso ao Mediterrâneo.
A Palestina (Zona Marrom), era previsto no acordo a maior parte da Palestina ficaria sob administração internacional, em função de seus locais sagrados.
As fronteiras foram traçadas “com régua e lápis” pelas potências coloniais, ignorando divisões sectárias, tribais e religiosas.
O interesse do Reino Unido era proteger o acesso à Índia pelo Canal de Suez e amabas potências se apossaram do petróleo da região.
Para que se tenha a verdadeira noção da importância do território, o desmembramento das províncias árabes marcou o fim o Império Otomano.
Gonçalves acerta quando afirma que “o mundo nunca foi livre”.
“Liberdade”
Lênin, em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (196), uma de suas obras fundamentais, explica que a I Guerra Mundial estava acontecendo não por patriotismo ou honra, se tratava de uma guerra entre vizinhos gigantes para decidir quem ficaria com a maior fatia do bolo global.
Aragon Gonçalves escreve que “durante décadas, o fluxo global foi mediado por poder militar, dólar, seguros e finanças concentrados no eixo ocidental. O que começa a emergir agora, a partir do Estreito de Ormuz, é a contestação desse monopólio. Ao transformar controle militar em capacidade de autorizar, condicionar e precificar a passagem, o Irã testa uma nova forma de poder, enquanto a Ásia passa a validá-la na prática. O que está em jogo não é apenas o fim de uma guerra, mas o início de uma disputa sobre quem tem o direito de fazer o mundo circular.”
A contestação desse “direito” só é possível dentro do marco da crise aguda do imperialismo.
Como Lênin explicou em seu livro o imperialismo é fruto da fusão entre o capital industrial e o capital financeiro, o capital financeiro não é apenas o capital “depositado no banco”. É, resumidamente, o capital industrial que se tornou dependente do banco e o capital bancário que se “industrializou”.
O banco decide quem recebe crédito e quem quebra. Ele deixa de ser um cofre e passa a ser o “centro nervoso” do sistema. Essa fusão permitiu que, por exemplo, em vez de vender o tecido produzido na Inglaterra para Índia, o capital financeiro passou a emprestar o dinheiro para os indianos construírem a uma fábrica de tecidos ou uma ferrovia.
Com essa manobra, a potência lucra o triplo: com os juros do empréstimo, com a venda das máquinas da fábrica e ganha com a remessa de lucro futura.
O imperialismo em sua essência, precisa controlar todos os aspectos da produção mundial, seus territórios, mercados, fontes de recursos naturais etc., e faz isso como uma ditadura sangrenta, embora se venda como democracia.
Crise revolucionária
Segundo o articulista, “o que acontece agora em torno do Estreito de Ormuz importa muito mais do que parece. A leitura apressada fala em cessar-fogo, impasse nuclear, rodada diplomática. Mas o que emerge ali é mais profundo”, e é correto, pois os desdobramentos futuros do que acontece no Oriente Médio são difíceis de dimensionar.
A derrota para o imperialismo abriu um período e revoltas no continente africano, no Oriente Médio e no Leste Europeu. Uma derrota contra o Irã terá consequências devastadoras na dominação capitalista. E a coisa não anda nada bem na Ucrânia, que praticamente está perdida. A crise se aprofunda ainda mais.
“A mediação do sistema não é novidade. Ela sempre existiu.”, escreve Gonçalves. Para ele, “o que muda é outra coisa. Pela primeira vez, de forma tão visível, o monopólio ocidental sobre essa função começa a ser contestado por atores que o centro do sistema se acostumou a tratar como periféricos. A passagem deixou de ser automática. Tornou-se objeto de decisão”.
O imperialismo sempre fez a mediação do sistema, é ainda uma força muito poderosa que não pode ser subestimada e, seguramente, não aceitará uma derrota para o Irã. O problema é que, até onde se sabe, a resolução militar para o impasse não parece ser o caminho.
Multipolaridade em cheque
Gonçalves, influenciado pela ideia corrente na maioria da esquerda de um mundo multipolar, acaba assumindo uma posição confusa. Ao mesmo tempo em que diz acertadamente que “isso [que ocorre no Estreito de Ormuz] não significa substituição automática de uma hegemonia por outra, nem o surgimento imediato de uma ordem mais justa”. Afirma tambem que a mediação da circulação “ao se pluralizar, abre espaço para negociação, tensão e novas margens de decisão”.
Não existe a possibilidade de “pluralização”, pois contradiz a essência do próprio imperialismo. Da mesma maneira que não podem coexistir diversos imperialismo, como sustenta a esquerda liberal, que critica os imperialismos russo, chinês e até israelense.
O que estamos assistindo é uma crise monumental do imperialismo se aprofundando. A resposta será, como tem sido, muito violenta. Ainda vamos assistir a muitos conflitos, dado que o grande capital perde seu poder de polícia e não terá como sustentar governos fantoche que controla pelo mundo.




