No dia 19 de setembro, o Poder360 publicou o artigo *Proibição das bets pode ser positiva para o futebol brasileiro, de Amir Somoggi, diretor da Sports Value. A tese cabe numa frase: banir o patrocínio das casas de apostas “pode ser positiva para o mercado publicitário e para os clubes”. As bets pagariam valores “completamente fora da realidade”, afugentariam marcas de consumo e empurrariam o time a antecipar recebível com juro alto. Sai a bet, entram varejo, tecnologia, telecom, comida, streaming e, é claro, os bancos.
O problema não é permitir ou não a propaganda da bet. O problema é o capitalismo. Não existe patrocinador bonzinho. Não há grande diferença, no final das contas, entre patrocínio de um banco, do Spotify, de uma construtora ou de uma casa de aposta. O que se pode fazer é colocar o clube sob controle dos torcedores — aí, pelo menos, tira-se o poder da iniciativa privada sobre o manto. Fora isso, a matéria de Somoggi é campanha contra as bets. E ponto.
Não é campanha para salvar o trabalhador. É campanha para salvar o banco que perde com a bet.
A “janela de oportunidade” que ele vê é esta: o contrato da bet inflou o preço da camisa, as marcas de prateleira saíram, o clube ficou refém de um setor que o governo agora ameaça. Se o governo publicar a MP e o Congresso encostar a publicidade, sobra espaço no peito do uniforme. Quem ocupa esse espaço, no texto, não é o sócio. É o anunciante “alinhado”, o de “ativação para todo o público”, o que vende conteúdo único.
Flamengo recebe R$ 268,5 milhões da Betano. Corinthians, R$ 150 milhões da Esportes da Sorte. São Paulo, R$ 113 milhões da Superbet. Palmeiras, R$ 100 milhões da Sportingbet. Treze clubes da Série A somam cerca de R$ 1 bilhão. No ano passado, o mercado regulado ficou com R$ 36,9 bilhões de receita bruta sobre R$ 220,6 bilhões depositados.
Somoggi transforma esse desnível em argumento de agência. A bet “polui”. O Spotify “inova”. A F1 “faturou mais” quando o cigarro saiu e o banco entrou.
Até a chegada das bets, diz o artigo, os clubes negociavam com “grandes marcas, muitas líderes de mercado”. Líderes de quê? De cerveja, banco, cartão, telefone, atacado. Os mesmos campeonatos já eram vitrine de empreendimentos verdadeiramente espúrios.
A bet é grosseira. Mostra o saque no ato. O banco cobra no extrato, no rotativo, no consignado, no juro do cartão que o apostador usa quando o saldo acaba. Segundo estudos, depois da primeira aposta, a inadimplência sobe cerca de 20%; no cartão, quase 39%.
O governo Lula regulamentou a bet em 2023, cobrou taxa, licenciou plataforma e agora, a duas semanas da urna, ameaça MP, cassino online, tigrinho e discurso de doença. Clubes e federações responderam com manifesto: “fim do futebol brasileiro”. Lula chamou de mentira e citou Mundial sem camisa de aposta. Os dois lados discutem o anúncio. Nenhum discute quem manda no clube.
Somoggi admite um fato e enterra a conclusão. Muitos times usam o contrato da bet para antecipar recebível, pagando juro altíssimo, e pioram a situação. Ou seja: o clube já está nas mãos do capital financeiro. A casa de apostas entra como adiantamento. O banco entra como desconto. A SAF entra como fundo.
Tirar a bet e pôr o Itaú, o Spotify ou a Cimed no mesmo quadrado não quebra esse circuito. Mantém o clube como ponto de venda.





