No artigo intitulado Multilateralismo ou mandonismo?, publicado em sua coluna no portal Brasil 247 no dia 4 de junho de 2026, a cientista política Renata Medeiros apresenta uma exposição detalhada da tese da “multipolaridade” internacional. Ao analisar as ameaças tarifárias de Donald Trump, a autora defende que o mundo passa por uma “transição histórica” em que o poder do imperialismo estaria se esvaindo pelo avanço da China e dos BRICS, caminhando para um “sistema internacional em que diversos centros de poder convivem, competem e negociam entre si”.
Ao pintar a crise do imperialismo como um processo de transição diplomática pacífica, a análise esvazia a realidade material do poder econômico e militar do planeta, desarmando politicamente a classe trabalhadora diante do perigo real de uma conflagração mundial.
O erro de partida de Renata Medeiros consiste em tratar o imperialismo como uma escolha de política externa. Ela escreve que “No século XX, poder era a capacidade de dar ordens. No século XXI, talvez seja a capacidade de convencer outros países a seguir o mesmo caminho”, elogiando a China por preferir “falar a linguagem das parcerias”.
Essa visão ignora a própria essência do capitalismo em sua fase imperialista. O mundo não é um tabuleiro de xadrez onde diferentes potências competem em igualdade de condições econômicas e jurídicas. O mercado mundial é unificado e controlado por um verdadeiro condomínio imperialista encabeçado pelos Estados Unidos, que detém o monopólio da moeda de reserva global (o dólar) e das principais instituições financeiras.
A ascensão econômica da China ou a articulação dos BRICS não criaram uma nova ordem mundial. Tratar esses blocos como polos equivalentes é uma falsificação teórica. Nem a China, com todo o seu parque industrial, nem a Rússia, com todo o seu arsenal nuclear, possuem a capacidade de ditar as regras do sistema financeiro internacional ou de controlar o fluxo de capitais global.
A fragilidade da tese multilateralista se revela quando confrontada com a realidade prática da coerção internacional. Medeiros pergunta: “em um mundo cada vez mais multipolar, quantos países ainda estarão dispostos a obedecer quando Washington simplesmente mandar?”.
A resposta não depende da “vontade” ou da “disposição” dos governos nacionais, mas sim da brutal correlação de forças materiais.
Quando os Estados Unidos decidem impor sanções econômicas, eles têm o poder de congelar centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais de bancos centrais estrangeiros (como fizeram com a Rússia e a Venezuela) e excluir nações inteiras do sistema de compensações bancárias (SWIFT). A China ou a Rússia seriam capazes de aplicar uma sanção semelhante contra o Ocidente sem colapsar suas próprias economias? Evidentemente que não.
A perda de influência política abstrata não diminuiu a capacidade prática de intervenção militar do Pentágono. A quantidade de golpes de Estado, invasões diretas, sabotagens econômicas e revoluções coloridas promovidas e financiadas pelo imperialismo norte-americano nas últimas décadas em todo o planeta não tem qualquer paralelo histórico com Rússia e China. O imperialismo não “convence”; ele esmaga quem se recusa a obedecer.
A conclusão de Medeiros de que os impérios perdem influência porque “insistem em usar respostas antigas para um mundo que já mudou” é de um otimismo ingênuo e pequeno-burguês. Ela sugere que o recuo da liderança norte-americana se dará de forma quase natural pela incapacidade de se adaptar ao século XXI.
O imperialismo está, de fato, em uma crise profunda. Mas é precisamente por estar em crise, acuado e vendo sua hegemonia econômica ser desafiada, que ele se torna infinitamente mais perigoso, feroz e desesperado. Um império ferido não aceita a perda de sua primazia pacificamente em uma mesa de negociações multilaterais. Quando o poder econômico começa a falhar, a burguesia imperialista recorre de imediato à sua gigantesca e destrutiva máquina de guerra.
As guerras que já estão incendiando o cenário internacional — do Leste Europeu ao Oriente Próximo — não são erros de percurso ou “respostas antigas” obsoletas. São a demonstração de que a mudança na ordem mundial não ocorrerá através de discursos sobre cooperação e investimentos em infraestrutura. O imperialismo prefere arrastar a humanidade para a barbárie de uma Terceira Guerra Mundial antes de abdicar de sua dominação.





