A Folha de S. Paulo publicou nesta segunda-feira (13) um artigo de opinião de João Pereira Coutinho intitulado A Argentina desta Copa é um espetáculo que desafia nossa compreensão. Na verdade, o que mais desafia a nossa compreensão é ver como existem pessoas que simplesmente se negam a enxergar a realidade.
Segundo Coutinho, “é das coisas mais divertidas desta Copa: o ódio que a Argentina desperta na plateia. Não falo apenas dos brasileiros. Falo do mundo ao redor, que olha para as vitórias sofridas da seleção como uma provocação maldosa — ou, pior, uma fraude completa.”
Não foi divertido nesta Copa para o Egito ter um pênalti não anotado contra a Argentina e que o VAR fez questão de não revisar. Aliás, do pênalti não marcado surgiu uma jogada de gol para os argentinos, o que mudou a história do jogo.
Apesar dos incrédulos incorrigíveis, existem felizmente as redes sociais e está lá, para quem quiser ver, o roubo. Embora Coutinho pareça um perdido.
Adiante, o articulista escreve que “um amigo —brasileiro, claro— vai mais longe: a Argentina não merece nenhuma de suas Copas. Em 1978, em plena ditadura, o troféu teria sido comprado pela junta militar, que corrompeu o Peru para perder de goleada, e o árbitro da final contra a Holanda.” O que Coutinho se esquece é que se pode ver a final na íntegra na internet.
“Em 1986, a ‘mão de Deus’ é uma das páginas mais vergonhosas da história das Copas — falo do gol que Maradona marcou com a mão. Como respeitar uma campeã que elimina a Inglaterra nas quartas de final com um roubo tão descarado?” O próprio Maradona, logo após a partida, reconheceu que fez o gol de maneira irregular “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”. Anos mais tarde, reconheceu oficialmente que empurrou a bola com a mão, pois viu que não poderia alcançá-la.
“E 2022, no Qatar, foi a prova definitiva de que a Fifa e os árbitros salvaram a seleção, sobretudo depois da derrota chocante da estreia para a Arábia Saudita. Tudo é negócio sujo.” O que se viu ali foi um festival de pênaltis em favor da Argentina.
Com relação à Copa de 1978, Coutinho alega que não tem nada a dizer, pois estava “então com dois anos, ainda não acompanhava futebol.” Ou seja, também não acredita que os portugueses tenham chegado ao Brasil, afinal, em 1500 nem seus quindecavós tinham nascido.
Coutinho diz que conhece “apenas as suspeitas: a visita que o general Videla e Henry Kissinger fizeram ao vestiário do Peru para desejar “boa sorte” antes da goleada que os peruanos sofreram —ou concederam.”
E também as “alegações de que o Peru, depois da derrota conveniente, recebeu 35 mil toneladas de grãos argentinos e os US$ 50 milhões que tinha retidos no Banco Central da Argentina.”
Mas, para se “salvar”, o articulista diz que “os historiadores das Copas pintam outro quadro: Jonathan Wilson, no recente “The Power and the Glory”, não economiza elogios à Argentina de Kempes e companhia — tanto no jogo contra o Peru quanto na final contra a Holanda.” A palavra de Jonathan Wilson serve para jogar fora todas as evidências? Está claro que Coutinho usa suas citações de modo seletivo.
José Velásquez, ex-volante da seleção peruana, afirmou categoricamente em entrevistas e em um documentário recente do Disney+ que seis jogadores do Peru foram subornados para facilitar a goleada por 6 a 0 a favor da Argentina.
Ainda assim, “para Wilson, foi a primeira vez que a Argentina abandonou o ‘antifutebol’ da destruição e da brutalidade para abraçar a inteligência tática, técnica e estética de César Menotti.” Wilson, assim como Coutinho, não consegue enxergar a realidade. A final entre Holanda e Argentina foi exatamente aquilo que o tal “historidor” disse que não foi.
O truque infantil
A parte mais cômica do texto de Coutinho vem em seguida: “sobre 1986, a primeira Copa de que tenho memórias nítidas, é importante recordar que a ‘mão de Deus’ foi seguida, no mesmo confronto, por uma jogada em que Maradona driblou metade da seleção inglesa, incluindo o goleiro, para fazer o dois a zero.”
Como é impossível negar que o gol foi irregular, Coutinho passa por cima do fato e fala do gol em que Maradona driblou vários jogadores adversários. É ridículo. Se o gol tivesse sido anulado, a outra jogada não teria acontecido. Um time perdendo precisa se expor, qualquer pessoa sabe disso.
Com relação à final de 2022 entre França e Argentina, o autor disse que assistiu “no mais improvável dos lugares: perto do Círculo Polar Ártico. Faziam 20 graus negativos lá fora, mas eu suava como se estivesse nos trópicos.” Ou seja, um torcedor, está aí o porquê de se recusar a aceitar a realidade.
Como se nega a olhar o mundo objetivo, Coutinho apela para a subjetividade e diz: “a grande verdade é que o ódio à seleção tem raízes mais profundas: nosso desejo por narrativas simples.” Ele que desconsidera as inúmeras evidências da venda do jogo pelo Peru e se fixa em um historiador, acusa os outros de desejarem “narrativas simples”. Pior, joga frases para cima para ver se alguém pega, como “a mente humana aceita a queda redentora ou a antecipação clara da vitória. Não aceita a ambiguidade e a tortura.” E daí?
Por falar em tortura, Coutinho maltrata o leitor com sua poesia barata: “queremos previsibilidade. A Argentina nos oferece caos, colapso, gênio e vitórias arrancadas no sofrimento.” Não, Coutinho, as pessoas querem justiça. Contra a Suíça, a Argentina deve ter esquecido o “gênio” no vestiário, só foi adiante porque o VAR expulsou um jogador suíço aos 25 minutos do segundo tempo.
Tentando dar uma carteirada e se fazer culto para o leitor, o autor encerra dizendo que, apesar de gostar do Reino Unido, escreve: “não tenho apenas um lado anglófilo. O gosto pela ópera e pela tragédia me faz simpatizar com a seleção mais lírica e trágica desta Copa.” Talvez ele não saiba, deveria, já que diz gostar de ópera, que nem tudo é tragédia e lirismo, existem as cômicas: as óperas-bufas, e nem todas foram de bom gosto. E este é o caso.




