A operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, é mais um capítulo da decomposição do regime político brasileiro.
As mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicariam pagamentos mensais ao senador na casa de centenas de milhares de reais, hospedagens em hotéis de luxo em Nova Iorque, jantares custeados, aquisições societárias subfaturadas e a apresentação de emendas parlamentares redigidas pelo próprio banco beneficiário. Não se trata, contudo, de um episódio isolado, nem de um desvio individual a ser corrigido pela ação das instituições. É a expressão concentrada de um regime apodrecido até a raiz.
O ciclo aberto pela Constituição de 1988 chegou ao fim. As bases sobre as quais foi erguido o pacto da Nova República — o sistema partidário do Centrão, o presidencialismo de coalizão, o STF como árbitro do jogo político, o Congresso como balcão de negócios, as eleições convertidas em rituais financiados pelos grandes bancos — produziram exatamente o que estão produzindo: um regime no qual os representantes políticos operam como prepostos do capital financeiro, recebendo mesadas para legislar conforme a encomenda. O caso do Banco Master, por sua vez, não esgota o problema, apenas o ilumina momentaneamente. Há outros casos, há outros bancos, há outros senadores, deputados, ministros e juízes envolvidos em arranjos da mesma natureza.
As denúncias se acumulam sem parar. Antes do caso Ciro Nogueira, vieram à tona as suspeitas envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli no mesmo inquérito do Banco Master. O Judiciário, apresentado durante anos como guardião da ordem democrática, aparece agora com os mesmos vínculos podres que corroem o Legislativo e o Executivo. A imprensa burguesa, que durante a Lava Jato transformou cada operação policial em espetáculo nacional, hoje coloca panos quentes sobre cada nova revelação, porque o nível de exposição ameaça o regime de conjunto. O que está em jogo não é mais este ou aquele político, este ou aquele partido, mas a credibilidade do sistema político de 1988.
O Governo Lula, que retornou ao poder prometendo restaurar a normalidade institucional, encontrou-se preso à teia que pretendia administrar. A aliança com o STF, a indicação de Flávio Dino como uma espécie de braço direito de Alexandre de Moraes, a manutenção dos pactos com o Centrão — tudo isso amarra o petismo ao destino do regime que se decompõe.
Quando Lula tenta agora se apresentar como antissistema, expõe a desvantagem em se identificar como candidato do regime. O problema é que, após três anos de governo intimamente ligado ao regime, o PT tornou-se o regime. Há três anos, o petismo é a face governamental do regime apodrecido, e nenhuma campanha eleitoral apagará esse fato da consciência popular.
A população brasileira é muito mais desconfiada do sistema político do que admite a imprensa. Apesar de toda a propaganda para vestir o STF como salvador da democracia, o Tribunal é mal visto pela imensa maioria. O Congresso é desprezado. Os partidos não inspiram confiança. O regime de 1988 já não conta com base social ativa para sustentar-se. Sobrevive por inércia, pela ausência momentânea de uma mobilização capaz de empurrá-lo para o abismo. Falta, portanto, o fato decisivo — econômico, político ou social — que coloque o povo em movimento. Quando vier, e virá, o regime não terá forças para resistir.
Essa é a tarefa que se impõe. Não há saída pela via eleitoral, porque o sistema eleitoral é parte daquilo que apodreceu. Não há saída pela via judicial, porque o Judiciário é parte do problema. As reformas propostas pelas direitas, como entregar mais poder ao Ministério Público, reforçar o aparato repressivo, perseguir adversários políticos, não tocam o cerne da questão e apenas aprofundam o autoritarismo. A ditadura militar não foi derrubada por dentro do regime que ela mesma erigiu. Foi a crise econômica combinada à mobilização das massas que a empurrou para o esgotamento. O regime de 1988, herdeiro direto daquela transição inconclusa, terminará pelo mesmo caminho.
A tarefa dos revolucionários, neste momento, é dizer a verdade ao povo brasileiro. O regime está podre. Não há reforma possível dentro de seus próprios marcos. Cada nova denúncia confirma o diagnóstico, e cada tentativa de salvação é uma válvula de escape para aliviar a pressão e prolongar a agonia.
O caminho da mobilização popular precisa ser reaberto. Sem isso, o que virá depois deste regime poderá ser pior do que ele. Com isso, abre-se a possibilidade de uma transformação radical, que coloque os trabalhadores no centro da política brasileira e ponha fim, de uma vez, ao ciclo iniciado em 1988.





