Faltando apenas nove dias para o primeiro turno das eleições, o governo Lula anunciou uma Medida Provisória proibindo as chamadas bets em todo o País. A medida foi apresentada como uma forma de “proteger as famílias” e impedir que milhões de brasileiros sejam prejudicados pelas apostas.
A iniciativa foi imediatamente saudada por setores da esquerda governista como uma grande medida popular. Em artigo publicado no Brasil 247, por exemplo, Carol Proner afirmou que o que estaria em jogo seria
e apresentou a proibição como um enfrentamento aos interesses das grandes empresas do setor.
O problema é que a questão está sendo colocada de cabeça para baixo.
A proliferação das apostas não é a causa fundamental do empobrecimento da população brasileira. Ela é, em grande medida, uma consequência desse empobrecimento. Um trabalhador que recebe um salário insuficiente, está endividado, paga juros enormes ao banco e não encontra perspectiva de melhorar de vida torna-se um alvo fácil para toda espécie de promessa de enriquecimento rápido.
Proibir as bets não altera nenhuma dessas condições. Não aumenta o salário. Não cria empregos. Não reduz a jornada de trabalho. Não diminui os juros do cartão de crédito. Não acaba com a dívida das famílias. Não impede que os bancos continuem cobrando taxas escorchantes de milhões de trabalhadores.
É por isso que transformar a questão das apostas em uma grande cruzada moral é uma política profundamente equivocada. A esquerda pequeno-burguesa apresenta o problema como se milhões de trabalhadores estivessem em dificuldades simplesmente porque fizeram escolhas erradas. O trabalhador teria gastado demais, apostado demais e, por isso, destruído o orçamento familiar. Caberia então ao Estado intervir para impedir que ele continue tomando decisões consideradas prejudiciais.
Em vez de tratar a classe trabalhadora como uma força política capaz de lutar por seus próprios interesses, essa política trata o trabalhador como alguém que precisa ser tutelado pelo Estado. Essa política repressiva, além disso, está longe de ser uma novidade. A experiência histórica mostra que simplesmente declarar uma atividade ilegal não significa fazê-la desaparecer.
A Lei Seca nos Estados Unidos é talvez o exemplo mais conhecido. A proibição das bebidas alcoólicas não acabou com o consumo. Criou um gigantesco mercado clandestino e fortaleceu organizações criminosas especializadas em abastecê-lo.
No Brasil, o próprio jogo do bicho mostra como uma atividade pode permanecer funcionando por décadas apesar da proibição.
A aposta de que um ato administrativo seja capaz de eliminar um fenômeno social dessa dimensão não se sustenta.
Há ainda uma contradição evidente. Ao mesmo tempo em que proíbe as bets em nome da proteção da população, o Estado brasileiro continua explorando e divulgando suas próprias modalidades de loteria. Mega-Sena, Lotofácil e outras apostas seguem funcionando normalmente.
Isso mostra que o centro do problema não pode ser simplesmente a existência do jogo.
Muito menos se pode dizer que a principal forma de espoliação financeira das famílias brasileiras sejam as bets.
Os bancos retiram todos os meses uma parcela gigantesca da renda dos trabalhadores por meio dos juros do cartão de crédito, do cheque especial, do financiamento e do empréstimo consignado. Milhões de pessoas trabalham para pagar juros sobre juros ao sistema financeiro.
Onde está a campanha para proibir essa verdadeira agiotagem? Não existe. A indignação moral está, portanto, dirigida ao alvo errado.
Outro aspecto dessa política aparece na tentativa de explicar o crescimento das apostas exclusivamente por meio de termos como “vício”, “ludopatia” e “dependência”. O problema da compulsão existe e precisa ser tratado. Mas transformar todo o fenômeno das apostas em uma questão médica ou comportamental significa ignorar suas raízes sociais.
Uma pessoa que trabalha o mês inteiro e percebe que seu salário não permite comprar uma casa, trocar de carro, viajar ou sequer manter as contas em dia é constantemente empurrada para a perspectiva de uma solução milagrosa.
É justamente sobre esse desespero que vivem as empresas de apostas. A propaganda promete que alguns reais podem se transformar rapidamente em centenas ou milhares. É uma promessa especialmente atraente numa sociedade em que o trabalhador percebe que, por meio do salário, dificilmente conseguirá melhorar substancialmente sua situação.
A pergunta fundamental, portanto, deveria ser outra: por que milhões de brasileiros chegaram a uma situação em que apostar aparece como uma perspectiva mais concreta de melhorar de vida do que o próprio trabalho?





