PCO nas eleições

No Vale do Paraíba, Izadora Dias defende estatização da Embraer

Candidata ao governo paulista pelo PCO concedeu entrevista ao OVALE

Izadora Dias, candidata do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de São Paulo, apresentou as principais propostas do Partido em entrevista ao OVALE, publicada na quinta-feira (1º). Em uma conversa no formato de perguntas e respostas, realizada em São José dos Campos, a candidata tratou da dissolução da Polícia Militar, do armamento da população, do fim do Supremo Tribunal Federal (STF), do aumento dos salários, da estatização de empresas e serviços e, em uma região marcada pela indústria aeroespacial, da Embraer.

A segurança pública abriu a entrevista. Questionada sobre a proposta do PCO de dissolução da PM, criação de comitês de autodefesa e direito ao armamento, Izadora apresentou duas críticas ao sistema existente. A primeira é política: segundo ela, o aparato repressivo foi organizado para defender o Estado e os setores mais ricos, e não para ficar sob controle da população. A segunda é prática: a polícia normalmente intervém depois de o crime já ter ocorrido. Para a candidata, aumentar penas ou ampliar o encarceramento não resolve o problema de quem precisa impedir uma agressão no momento em que ela acontece.

Izadora usou a violência contra as mulheres como exemplo. Em sua resposta, afirmou que prefere discutir como uma mulher pode preservar a própria vida a concentrar a política de segurança no tamanho da pena aplicada ao agressor depois de um feminicídio. Ela relacionou a defesa do armamento à diferença de força física que pode existir entre homem e mulher e argumentou que a possibilidade de autodefesa modificaria a situação de uma mulher perseguida ou ameaçada por um ex-companheiro. A candidata estendeu o argumento a outros conflitos e sustentou que a possibilidade de uma reação também funcionaria como fator de dissuasão.

A defesa do fim do STF ocupou outra parte extensa da conversa. O entrevistador perguntou se a eleição de juízes e procuradores não submeteria o Judiciário às disputas eleitorais. Izadora respondeu que essa reivindicação não nasceu com o bolsonarismo e é anterior à atual crise do Supremo. Ela lembrou que a corrente que a Causa Operária defende há mais de 40 anos que a população tenha poder para escolher os integrantes do Judiciário e possa revogar seus mandatos. A candidata comparou esse mecanismo às eleições para cargos do Executivo e do Legislativo e questionou por que ministros com grande poder político deveriam permanecer fora de qualquer escolha popular.

Ao tratar da atual composição do Supremo, Izadora também mencionou Alexandre de Moraes e apontou sua relação absolutamente promíscua com o banqueiro Daniel Vorcaro. Na entrevista, ela apresentou como absurdo que integrantes do próprio tribunal disponham de poder para participar das decisões relacionadas a acusações contra membros da Corte.

A entrevista passou então ao programa econômico. Perguntada sobre a proposta de aumento emergencial de 50% dos salários e de salário mínimo de R$ 7.500, Izadora destacou que o PCO apresenta um programa nacional mesmo nas eleições estaduais. Segundo a candidata, salários, dívida pública, industrialização e financiamento dos serviços públicos dependem de decisões tomadas para o conjunto do País e não podem ser tratados exclusivamente como problemas paulistas. Ela afirmou ainda que o valor defendido para o salário mínimo toma como referência os cálculos do Dieese sobre o necessário para a manutenção de uma família.

Na resposta, Izadora procurou inverter a pergunta normalmente dirigida ao programa do Partido. Em vez de perguntar apenas se empresas ou Estado suportariam uma elevação dos salários, afirmou que é preciso perguntar como o trabalhador consegue sustentar uma família com os valores pagos atualmente. A candidata atribuiu ao pagamento da dívida pública uma parcela elevada dos recursos do Estado e defendeu que o aumento da renda ampliaria também o consumo popular e a procura por alimentos, automóveis, aparelhos eletrônicos e outros produtos, obrigando a produção a se orientar em maior escala para o consumo da população.

O ensino superior foi tratado a partir da proposta de acabar com o vestibular. Izadora defendeu a construção de novas universidades, a estatização do ensino privado e o livre ingresso, além de uma ampliação do ensino técnico. Sua argumentação foi a de que, se o Estado assume a obrigação de oferecer educação infantil, fundamental e média, não haveria motivo para estabelecer uma barreira que impeça a continuidade dos estudos. Ela vinculou ainda a formação universitária e técnica à industrialização, argumentando que um País que pretende ampliar sua capacidade produtiva precisa formar mais engenheiros, técnicos e outros profissionais especializados.

A privatização da Sabesp apareceu quando o jornalista perguntou sobre o governo Tarcísio de Freitas. Izadora criticou a entrega da companhia ao setor privado e relacionou problemas recentes no abastecimento e na qualidade da água à política de privatizações. Para a candidata, água, energia e telefonia são serviços essenciais e não deveriam funcionar segundo a necessidade de remunerar proprietários e acionistas. Ela afirmou que o PCO é contrário às privatizações e defende a estatização dos serviços considerados essenciais.

A candidata também apresentou sua interpretação sobre a disputa política em São Paulo. Disse que a população é colocada diante de uma polarização entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad e criticou o PT por ter se afastado das reivindicações econômicas da classe trabalhadora. Na avaliação apresentada por Izadora, parte da direita consegue explorar questões como segurança pública enquanto setores da esquerda concentram-se em temas que têm pouca ligação com os problemas cotidianos dos trabalhadores. Ela rejeitou responsabilizar o eleitor pelo avanço da direita e atribuiu parte desse processo à ausência de uma alternativa de esquerda conhecida por parcelas maiores da população.

Perguntada diretamente sobre a posição política do PCO, Izadora definiu o Partido como de extrema esquerda e pertencente à corrente trotskista. Ela afirmou que o PCO procura colocar salários, privatizações, serviços públicos e organização dos trabalhadores no centro de sua atividade e disse que mudanças como a estatização de empresas não poderiam ser realizadas apenas por decisão administrativa. Na posição apresentada pela candidata, uma transformação dessa dimensão dependeria da mobilização dos próprios trabalhadores.

A discussão sobre industrialização levou a entrevista ao tema de maior interesse específico para o Vale do Paraíba. O jornalista perguntou se um governo de Izadora trabalharia pela estatização da Embraer e de outras empresas do setor aeroespacial e de defesa. Ela respondeu afirmativamente e defendeu que a administração fosse entregue aos trabalhadores dessas empresas:

“Sim, com certeza, e colocá-las sob a administração dos próprios trabalhadores dessas áreas. […] Se você tira os trabalhadores de qualquer produção, a produção para.”

Izadora desenvolveu o argumento afirmando que funcionários com décadas de experiência conhecem concretamente o funcionamento da produção, enquanto os grupos econômicos proprietários recebem os rendimentos obtidos pela empresa. A candidata vinculou a estatização da Embraer a um programa mais amplo de desenvolvimento tecnológico e industrial, sobretudo nos setores aeroespacial, nuclear e de defesa. Também atribuiu parte das limitações brasileiras nesses ramos à pressão dos Estados Unidos e das principais potências europeias, países imperialistas.

O papel dos grandes veículos de comunicação também foi questionado. Izadora defendeu o cancelamento de concessões e a estatização das grandes empresas de comunicação sob controle dos trabalhadores. Sua resposta concentrou-se nas eleições: segundo ela, o predomínio dado a Tarcísio e Haddad reduz o conhecimento do público sobre as demais candidaturas. A candidata citou como contraponto a imprensa própria do PCO, composta por jornal impresso, revista, televisão pela Internet e materiais distribuídos nas ruas, e afirmou encontrar eleitores que sequer sabem da existência de outros candidatos ao governo paulista.

Ao final, Izadora explicou também a própria participação do PCO no processo eleitoral. Segundo ela, o Partido não considera que as eleições, por si mesmas, sejam capazes de resolver os problemas dos trabalhadores. A disputa serve como uma tribuna para apresentar o programa político, entrar em contato com setores mais amplos da população e organizar uma intervenção que deve continuar para além do período eleitoral.

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