Na última quarta-feira, o jornalista esportivo Mauro Beting publicou uma coluna no O Estado de S. Paulo intitulada: Neymar fica cada vez mais longe da Copa. Se no Santos não segura a pressão, imagina no Mundial. Na esteira da campanha que já se arrasta há mais de 10 anos contra aquele que o próprio Mauro reconheceu, em março, ser “o melhor jogador que estreou neste século no país”, o jornalista novamente argumenta contra a convocação do craque para a Copa do Mundo, que começa em menos de dois meses.
Após algumas colunas criticando a falta de ritmo de jogo de Neymar — que está voltando de lesão —, nesta última, sugeriu que ele não consegue lidar com a pressão psicológica dentro de campo. Trata-se, justamente, do maior artilheiro da Seleção Brasileira, que marcou seus 79 gols em jogos oficiais jogando, muitas vezes, sem companheiros do mesmo nível.
O mote para essa avaliação foi o jogo entre Santos e Deportivo Recoleta, pela fase de grupos da Copa Sul-Americana, na terça-feira, dia 14 de abril. A partida, disputada na Vila Belmiro, terminou em empate, com um gol para cada time. Neymar foi o autor do gol santista.
O resultado foi considerado muito negativo porque o Deportivo Recoleta ocupava, na ocasião, apenas a oitava colocação no Campeonato Paraguaio e disputa uma competição internacional pela primeira vez. Buscando recuperação no campeonato nacional, a equipe trouxe a campo contra o Santos um time reserva. O próprio Mauro Beting reconhece que “não é fácil, dentro de campo, estar na pele e no lugar do Neymar, ainda mais enfrentando um dos piores momentos institucionais e técnicos da história do Santos”.
Mesmo assim, além do gol, Neymar criou muitas oportunidades, todas desperdiçadas pelos companheiros de equipe: “fez lindas jogadas e assistências que não deram em gol”. Em 2026, Neymar contabiliza oito jogos pelo Santos, nos quais conseguiu marcar quatro gols e dar três assistências — quase uma participação em gol por jogo. Em Copas do Mundo, ele soma oito gols e quatro assistências em 13 jogos. Isso sem contar os passes e jogadas que não entram nas estatísticas, mas que desconcertam as defesas adversárias e abrem espaços que não existiam. Para além da objetividade, o que Neymar faz em campo é a razão pela qual o futebol é o esporte mais popular do planeta: o improviso e a visão de jogo que surpreendem até quem observa de fora.
No mês passado, ainda criticando a falta de ritmo do atleta, Beting sugeriu no título de sua coluna que “Neymar está muito longe do jogador genial que é e precisa mudar para voltar a ser o mesmo”. A questão que não é respondida no texto é: mudar o quê? Nesta altura da carreira, um jornalista sério como Beting acredita mesmo que o jogador não cuida da própria trajetória com profissionalismo? A campanha de ataques contra o craque procurou criar uma imagem de desleixo, incluindo sugestões de que o agravamento de suas lesões tinha relação com a falta de cuidados — enquanto Neymar era agredido covardemente dentro de campo, com um enorme arsenal de câmeras registrando as ações violentas e a passividade dos árbitros com os agressores.
Sobre a pressão psicológica, o próprio jornalista admite que Neymar é pressionado para além da medida. É uma pressão que passa pela perseguição dos árbitros, pela cobertura da imprensa e pela paixão que move o esporte. Na Copa de 2018, ele sofreu uma campanha internacional que ridicularizava suas quedas. De repente, bater era considerado aceitável; pular para não ter as pernas quebradas, não.
Beting argumenta que, mesmo com essa carga exagerada, ele teria a obrigação de reagir melhor. Convenhamos que isso seria ótimo, mas não é razoável cobrar tal estoicismo. O que pode ser cobrado é a dedicação nos treinamentos e jogos — e, nisso, Neymar corresponde esportivamente. É o que compete a ele. Segue um trecho da análise de Mauro Beting:
“Imagino que não deva ser fácil, mas fica mais difícil ainda para ele se ficar respondendo a quase todo mundo. E fica cada vez mais difícil ele estar numa Copa do Mundo — que ainda sonho, quase que deliro, que ele esteja em 2026. E não é só pela intensidade do futebol, cujo retorno ainda não foi devidamente comprovado, mas por conta de atitudes como essa.” (O Estado de S. Paulo, 15/04/2026).
Não é “delírio” ter Neymar na Copa do Mundo daqui a dois meses; trata-se do caminho mais lógico. Jogadores raros como ele são imprescindíveis se estiverem disponíveis. Neymar deveria ser convocado até se estivesse machucado, caso houvesse chance de retornar ao longo da competição, pois possui recursos que ninguém mais tem.
Ainda mais quando a lista permite 26 jogadores — espaço suficiente para dois times inteiros, três goleiros e peças extras de linha. Em qualquer país “normal”, não caberia discussão sobre convocar ou não o seu maior craque. Enquanto isso, a Itália está fora da Copa pela terceira vez seguida, temos um comando técnico estrangeiro na Seleção e o melhor jogador brasileiro das últimas duas décadas continua sendo tratado como um jogador qualquer.





