No último sábado, 30 de maio de 2026, o jornalista Marco Damiani publicou no sítio Brasil 247 o artigo intitulado Flavio Bolsonaro perdeu a condição de sair às ruas. No texto, o autor adota um tom triunfalista e quase infantil para decretar o sepultamento político definitivo do senador e pré-candidato da extrema-direita. Segundo a tese de Damiani, as recentes revelações sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, somadas à sua viagem aos Estados Unidos, teriam provocado um derretimento instantâneo de sua base eleitoral. Contudo, longe de ser uma análise realista das forças políticas em jogo, a matéria é um exemplo acabado do oportunismo atroz da esquerda pequeno-burguesa, que prefere viver em uma bolha de ilusões virtuais a encarar a dura realidade da luta de classes.
A facilidade com que a imprensa progressista de salão confunde os seus próprios desejos com a realidade objetiva das ruas chega a ser constrangedora. Escreve Damiani:
“Em apenas 15 dias, FB encontrou e percorreu, com o pé na tábua, o caminho mais curto para reverter uma situação de empate técnico nas pesquisas, em relação ao presidente Lula, para a de nem mais poder sair às ruas sem ser alvo de apupos. Em qualquer logradouro, de qualquer cidade, de qualquer estado do País.”
E prossegue:
“Na direita, não há quem o queira por perto, nem Tarcísio de Freitas, nem Silas Malafaia, nem Rodrigo Constantino, nem o até agora calado Carluxo. Virou personagem tóxico. (…) Em poucos dias, aposte-se, será um ex-pré-candidato miliciano-entreguista — e assim entrará para a história.”
Essa premissa de que uma candidatura majoritária de extrema direita desmorona em “15 dias” por conta de denúncias de corrupção ou de escândalos de bastidores é de uma ingenuidade política assustadora. Nada nas pesquisas de opinião indica que Flávio Bolsonaro perdeu sua sustentação eleitoral ou que o eleitorado conservador e antipetista abandonou o barco por causa de um vazamento de áudio ou vídeo.
Apostar que o adversário vai se “auto-nocautear” é a senha da paralisia política; é o pretexto perfeito para que a esquerda pequeno-burguesa continue sentada em frente aos seus computadores, enquanto a extrema-direita segue organizada pressionando a população explorada. O bolsonarismo é um movimento social com raízes profundas, e fingir que ele acabou em duas semanas é desarmar perigosamente a classe trabalhadora para os embates reais que estão por vir.
O segundo e mais profundo erro de Marco Damiani é a crença cega de que escândalos morais, vazamentos de áudio e denúncias na imprensa burguesa são capazes de fazer evaporar correntes políticas que arrastam milhões de pessoas. O colunista do Brasil 247 chega ao cúmulo de abdicar de qualquer rigor analítico sério para basear seu diagnóstico triunfalista no humor volátil de algoritmos de redes sociais. Escreve Damiani:
“[Flávio Bolsonaro] espetou no próprio peito o broche de inimigo número 1 da soberania nacional. Forjou uma verdadeira frente ampla de asco e rejeição contra si mesmo. Uniu em sua oposição, com tempo recorde, das favelas à Faria Lima, como observou um arguto comentarista no universo TikTok.”
A tolice atinge seu ápice quando o autor tenta traçar um paralelo histórico descabido entre as revelações e os maiores momentos de mobilização e comoção popular da história do país:
“Fazia tempo que a gente brasileira, de todas as classes e regiões, não se unia tão rápida e firmemente. Lembrando aqui, a campanha das Diretas, em 1984, mobilizou nacionalmente (…) Recordem o que recordem — da campanha do Petróleo é Nosso, entre as décadas de 1940 e 1950, à genuína consternação pelas perdas de Tancredo Neves, em 1985, e de Ayrton Senna, em 1994 —, fazia tempo que nada nem ninguém contribuíra tanto e tão diretamente para a união nacional quanto o FB.”
Elevar o vazamento de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro ao status de uma “nova Diretas Já” ou comparar o impacto político de um escândalo sobre financiamento de filme biográfico com a campanha histórica do “Petróleo é Nosso” não é apenas um exagero literário; é puro delírio.
Para desmoralizar esse tipo de ilusão rasteira, basta olhar para a própria história recente da esquerda nacional. O que a grande imprensa e o imperialismo fizeram contra o lulismo durante a engrenagem da Operação Lava Jato? Durante anos, o atual presidente foi alvo de uma campanha de perseguição por parte da imprensa e do Judiciário. O escândalo era infinitamente maior, e o líder petista acabou preso em Curitiba.
E qual foi o resultado material? O lulismo acabou? Não. O Lulismo sobreviveu e voltou ao governo porque representa forças sociais vivas e interesses econômicos concretos de uma parcela real da sociedade.
O bolsonarismo funcionada mesma forma. O eleitorado que apoia a extrema direita não o faz por acreditar na pureza moral imaculada de suas lideranças ou na santidade de seus negócios privados; faz por uma identificação política, social e ideológica profunda e pela oposição de classe ao projeto adversário.
O desfecho do artigo de Marco Damiani escancara a paralisia crônica e o esvaziamento político que assolam a esquerda pequeno-burguesa. Em vez de convocar os trabalhadores à organização, às ruas e ao enfrentamento aberto contra o programa entreguista da extrema direita, o jornalista do Brasil 247 prefere terceirizar a luta política para o aparato repressivo do Estado. Damiani deleita-se com a ilusão de que o sistema penal fará o trabalho sujo que o articulista se nega a fazer nas ruas:
“Por aqui, além de protagonizar o maior vexame político dos últimos tempos, Flavio Bolsonaro corre o risco de, ali na frente, ir em cana, a exemplo do que tem acontecido com chefões e chefetes do crime organizado, reconhecidos por vulgos e siglas, captaram? Sobre o FB recaem como uma luva acusações formais, por exemplo, de associação ao crime organizado, no caso Bozomaster, e pela relevante atuação internacional lesa-pátria.”
Essa torcida entusiasmada para que um parlamentar da oposição burguesa simplesmente vá “em cana” revela uma incompreensão brutal sobre o caráter do Estado capitalista. Esperar que o Judiciário, o Ministério Público ou o sistema penitenciário — instituições que formam a espinha dorsal de controle da burguesia — sirvam como ferramentas de emancipação popular ou de combate ao fascismo é assinar um atestado de falência intelectual.
A história já provou, exaustivamente, que o recrudescimento penal e o arbítrio judicial nunca salvam a pele dos trabalhadores. Muito pelo contrário: cada poder entregue de bandeja para a magistratura punir crimes políticos acaba se voltando, mais cedo ou mais tarde, contra os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda revolucionária.




