Em texto publicado pelo Brasil 247, Olímpio Cruz Neto apresenta a tese de que a crise no estreito de Ormuz abre uma “hora do Brasil”. O mundo entra em turbulência, o petróleo fica ameaçado, a Europa procura fornecedores mais estáveis, e o Brasil, com sua riqueza natural, sua produção energética, seus minerais e sua localização estratégica, apareceria como uma espécie de porto seguro no novo equilíbrio mundial.
O problema é que essa análise pula justamente a questão decisiva: quem controla o Brasil?
Não basta ter petróleo, minério, terras raras, água, alimentos, território continental e uma das maiores classes operárias do mundo. Tudo isso é potencial. E potencial, sob controle de uma classe dominante entreguista, vira apenas matéria-prima para enriquecer os outros.
O Brasil poderia, sim, ter um papel gigantesco na crise mundial. Poderia usar suas riquezas para desenvolver uma indústria nacional, fortalecer a Petrobrás, controlar setores estratégicos, ampliar a soberania energética, negociar de igual para igual com outros países e melhorar as condições de vida da população. Poderia ser um dos centros de reorganização econômica do mundo.
Mas esse não é o Brasil real de hoje.
O Brasil real é um país cuja economia está amarrada aos interesses do capital financeiro. Um país onde o Banco Central “independente” funciona como escritório dos bancos. Um país onde a Petrobrás é pressionada permanentemente pelo “mercado”. Um país onde a política externa é vigiada pela imprensa burguesa, pelos militares, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Por isso é ilusório dizer que a crise de Ormuz simplesmente “convoca” o Brasil a uma nova função global. Convoca quem? A Petrobrás submetida aos acionistas? O Itamaraty pressionado pelo imperialismo? O governo acuado pelos capitalistas? O Congresso dominado pelo agronegócio, pelos bancos e pelos monopólios?
O próprio artigo reconhece, ainda que de maneira tímida, o risco de o Brasil permanecer como fornecedor do básico enquanto os outros ficam com a tecnologia, o processamento, os semicondutores, a inteligência artificial, as patentes e a engenharia. Mas esse não é apenas um “risco”. É a regra histórica do capitalismo brasileiro.
A ideia de que o Brasil deve oferecer “previsibilidade” ao mundo precisa ser examinada com cuidado. Previsibilidade para quem? Para o trabalhador brasileiro, que vive endividado, explorado e esmagado pelos juros? Ou para a refinaria europeia, a trading internacional, o banco estrangeiro e a multinacional da mineração?
Quando a burguesia fala em previsibilidade, normalmente quer dizer submissão. Quer dizer que o País não deve nacionalizar, não deve controlar remessa de lucros, não deve enfrentar os bancos, não deve mexer nos contratos das grandes empresas, não deve usar suas riquezas conforme o interesse popular. Deve ser previsível como uma colônia bem-comportada.
É por isso que a crise de Ormuz não pode ser vista como uma oportunidade automática. O imperialismo pode até procurar o Brasil diante da instabilidade no Golfo. Mas procurará o Brasil para quê? Para transformá-lo em peça auxiliar da sua própria crise.
E aqui está o ponto que os analistas institucionais costumam esconder: as instituições brasileiras não mudarão de posição espontaneamente. Elas não acordarão um dia patrióticas. Não haverá uma iluminação súbita no Congresso, no Banco Central, no Judiciário, nos quartéis ou na direção das grandes empresas. Essas instituições estão comprometidas com a ordem atual.
Só uma grande mobilização popular pode obrigar o Estado brasileiro a mudar de rumo.
Sem o povo nas ruas, sem pressão dos trabalhadores, sem luta contra a política econômica dos bancos, sem defesa real da Petrobrás, sem enfrentamento ao imperialismo, a tal “hora do Brasil” será apenas mais uma oportunidade para os capitalistas estrangeiros comprarem barato aquilo que pertence ao povo brasileiro.





