No último dia 30 de maio de 2026, o sociólogo Renato Sérgio de Lima publicou um artigo de apresentação do livro Segurança pública em disputa: democracia, medo e política no Brasil contemporâneo, de autoria de Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo. Sob o pretexto de oferecer uma “bússola” para “decifrar a esfinge da segurança pública”, o texto condensa o que há de mais reacionário e capitulador no debate intelectual da esquerda pequeno-burguesa contemporânea. O autor defende a tese absurda de que a esquerda deve disputar a gestão da chamada “segurança pública”.
Logo no início, Lima escreve que o campo da segurança é “perpassado por fortes disputas” e comemora a obra de Azevedo como uma “intervenção intelectual decisiva”. O núcleo do argumento é sintetizado na seguinte passagem:
“O argumento central do livro é cristalino: em uma sociedade atravessada por desigualdades profundas como a brasileira, a garantia da segurança não é o oposto dos direitos humanos, mas sim uma condição fundamental para o exercício da cidadania e a efetividade dos próprios direitos. O autor desarticula a falsa dicotomia que obriga a sociedade a escolher entre segurança ou garantias constitucionais…”
Trata-se de uma farsa. Falar em “segurança pública” dentro dos marcos do capitalismo é, por definição, adotar uma pauta da direita. O Estado burguês é um instrumento de dominação de uma classe sobre a outra, e o seu aparato armado — as polícias e o sistema prisional — não foi criado para proteger o cidadão, mas sim para garantir a propriedade privada dos meios de produção e manter a classe operária sob a ponta da baioneta.
O texto defende abertamente o “direito” do Estado de exercer a violência contra os explorados:
“Rodrigo Azevedo defende que a repressão penal é um instrumento estatal legítimo – inclusive para proteger a democracia –, desde que submetida a rigorosos controles institucionais, critérios de proporcionalidade e mecanismos efetivos de responsabilização.”
E o texto avança, intimando a esquerda a abraçar a polícia:
“Os defensores de direitos humanos e aqueles que se reconhecem como pertencentes ao centro e à esquerda do espectro político ideológico não podem fugir da discussão sobre como, dentro do marco legal, modernizar as instituições da área e, em especial, sobre como reduzir a impunidade e a criminalidade que hoje são gatilhos da insegurança e do medo.”
Essa ideia de uma “repressão penal legítima e proporcional” para “proteger a democracia” é de uma monstruosidade teórica. De que “democracia” esses senhores estão falando? Da “democracia”, que em pleno 2026, continua jogando milhares de jovens negros em presídios medievais e promovendo chacinas semanais nas favelas do Rio de Janeiro? Dizer que a polícia pode ser controlada por “mecanismos de responsabilização” ou por penduricalhos tecnológicos como “câmeras corporais” é uma tentativa criminosa de legitimar a força de ocupação militar que aterroriza os bairros operários.
A polícia sob o capitalismo não pode ser “modernizada” ou “humanizada”, porque sua natureza é a violência de classe. O verdadeiro programa da esquerda passa pelo desmantelamento completo do aparato repressivo do Estado, pela dissolução de todas as polícias e pelo fechamento das câmaras de tortura que o Estado chama de presídios.
Perto do encerramento, Renato Sérgio de Lima diz:
“O autor convoca o campo acadêmico a ir além da criminologia crítica tradicional. Reconhecendo o mérito histórico das teorias críticas em denunciar a seletividade penal, Ghiringhelli de Azevedo resgata a incômoda pergunta de Luciano Oliveira: ‘E se o crime existir?’ (…) argumenta que a pesquisa acadêmica deve ser (…) capaz de compreender as angústias reais da população frente à criminalidade e de oferecer diagnósticos aplicáveis às políticas públicas, evitando que a segurança seja monopolizada por discursos autoritários.”
O “crime” que assusta a população trabalhadora no cotidiano não é uma entidade mística que surge do nada, nem o fruto da maldade inata de indivíduos que precisam ser trancafiados. A criminalidade é o resultado direto da decomposição social gerada pelo capitalismo. É o subproduto da fome, da miséria, do desemprego e da falta absoluta de horizontes econômicos que o capitalismo impõe às massas.
Ao transformar o crime em um problema de “política pública de segurança” e gestão de inteligência contra as facções, a esquerda pequeno-burguesa oculta as causas do problema. A população tem angústias reais frente à violência, mas a solução para essas angústias não é colocar mais viaturas na rua ou aumentar o monitoramento eletrônico para criar uma “prisão sem muros”. A resposta real é a destruição das condições de miséria material por meio de uma política social, como o emprego pleno e redução da jornada de trabalho sem redução de salários; a estatização sob controle operário das riquezas nacionais para financiar saúde e educação e o desmantelamento do tráfico de drogas por meio da legalização total, arrancando o mercado das mãos do crime organizado e da polícia corrupta.




