Mahdieh Esfandiari anunciou uma queixa formal contra o governo francês em Kermanshah, no Irã, na quarta-feira (27), após ser libertada de 237 dias de prisão. A iraniana disse ter sido mantida por 235 dias em isolamento e classificou sua detenção como tomada de refém política, em um caso que se encerrou depois de uma troca envolvendo dois franceses acusados de espionagem.
A ativista de comunicação Mahdieh Esfandiari voltou a falar publicamente após deixar a detenção na França e afirmou que acionará os meios legais contra o país. Segundo ela, a denúncia busca provar que sua prisão não teve caráter comum, mas político, e que sua liberdade foi usada como peça de negociação. A iraniana relatou ter passado quase todo o período encarcerada sozinha, sob pressão permanente por manter o véu islâmico e por se recusar a abandonar suas posições políticas.
Esfandiari era responsável por um canal de notícias dedicado a traduzir e divulgar informações sobre o chamado Eixo da Resistência, com conteúdos relacionados ao Irã, Líbano, Palestina, Síria, Iraque e Iêmen. Para ela, esse trabalho foi tratado como crime pelas autoridades francesas porque contrariava a versão difundida por governos imperialistas sobre a Palestina e a ofensiva de “Israel” contra Gaza. A iraniana afirmou que seu delito, na prática, foi “revelar a verdade”.
O caso ganhou dimensão diplomática porque a libertação de Esfandiari coincidiu com a soltura de dois cidadãos franceses detidos no Irã sob acusação de espionagem. A própria ativista usou essa coincidência para reforçar a acusação de que foi mantida como refém política. Segundo seu relato, mesmo após a legislação francesa permitir que aguardasse recurso em liberdade, as autoridades teriam mantido restrições contra ela sob a alegação de ameaça à segurança nacional.
Outro ponto central de sua denúncia diz respeito ao tratamento recebido na prisão. Esfandiari afirmou que o direito de usar o hijab foi limitado e que, após insistência de advogados, só conseguiu autorização parcial para cobrir a cabeça em audiências ou encontros diplomáticos. Ela disse que a pressão contra o véu teve peso particular porque, para mulheres muçulmanas revolucionárias, o hijab não é apenas uma prática religiosa, mas também uma afirmação política.
A iraniana também acusou o Judiciário francês de duplo critério. Ela criticou a possibilidade de seu nome ser associado a listas europeias de terrorismo, enquanto autoridades responsáveis por ataques contra palestinos circulam com apoio ou tolerância de países europeus. Em seu discurso, Esfandiari vinculou a própria prisão à política de alinhamento da França com “Israel” e com os Estados Unidos (EUA), especialmente depois de outubro de 2023.
A ação prometida por Esfandiari busca transformar o caso em denúncia internacional contra prisões políticas disfarçadas de processos judiciais. Sua fala aponta para uma disputa mais ampla, na qual ativistas pró-Palestina e defensores do Irã são tratados como ameaça, enquanto crimes cometidos contra civis palestinos seguem sem punição efetiva por parte das potências europeias.



