Governo Lula

Muito lamento, nenhuma política

Articulista encontra mil razões para criticar o governo federal. No entanto, não propõe o óbvio: o rompimento com a frente ampla

O texto de Aldo Fornazieri tem um mérito inicial: ele percebe que há desgaste, mal-estar social, falhas estratégicas e perda de comando. O problema é que para no meio do caminho. Faz várias observações corretas ou plausíveis, mas foge da caracterização essencial do governo e, por isso, também foge da conclusão necessária. O artigo descreve os efeitos, contorna a causa e termina numa fórmula vazia sobre “comando”, “narrativa” e “vontade de triunfar”.

A grande insuficiência do texto aparece logo na sua arquitetura. Fornazieri sustenta que o governo “adotou uma embocadura errada desde o início”, que houve “renúncias de protagonismo político”, que o governo “deixou-se dirigir pelo centro” e que nunca teve “um comando político estratégico”. Tudo isso pode ser dito. Mas o ponto decisivo é outro: por que isso aconteceu? O artigo evita responder. E evita porque, para responder, teria de tocar no problema da frente ampla e do próprio caráter da coalizão governante.

Esse é o centro da questão. O governo não é apenas um governo mal coordenado, mal comunicado ou apático. É um governo politicamente amarrado desde a origem por uma aliança que impede qualquer rumo mais definido. Quando Fornazieri escreve que o governo “não dirigiu o bloco de aliança que se estendia ao centro” e que “deixou-se dirigir pelo centro”, ele já está a um passo da conclusão correta. Mas recua. Porque a conclusão seria reconhecer que a própria frente ampla produziu esse resultado. Não foi um acidente de condução. Foi consequência da composição do governo.

Não se trata de um detalhe secundário. Um governo montado para tranquilizar frações conservadoras do regime, setores do mercado, velhos caciques parlamentares e figuras como Alckmin e Tebet não poderia mesmo apresentar um programa forte, nítido e transformador. Não poderia assumir uma inflexão nacionalista consequente. Não poderia romper com a linha dominante da política econômica. Não poderia bater de frente com os interesses que ajudaram a formar sua base de sustentação. Em outras palavras: a falta de programa não é simples falha técnica. É expressão política da coalizão real que governa.

É por isso que o texto fica ensaboado. Ele percebe a ausência de rumo, mas não diz que essa ausência de rumo é funcional à frente ampla. Ele nota que o governo não se apresenta como “novo e inovador”, mas não explica que alianças desse tipo existem justamente para bloquear qualquer novidade substantiva. Ele fala em “defensivismo político”, mas não admite que um governo montado para conciliar forças antagônicas tende inevitavelmente ao defensivismo.

O artigo também cai num outro expediente comum: transformar um problema político em problema de gestão. Quando diz que o governo não teve “um comando político estratégico, um estado-maior dirigente”, Fornazieri parece sugerir que faltou coordenação superior, inteligência operacional, central de comando. Mas isso continua aquém da questão real. Ainda que houvesse esse “estado-maior”, qual seria o conteúdo da direção? Direção para fazer o quê? Para aprofundar a mesma política de conciliação? Para administrar melhor a mesma impotência programática? Sem enfrentar a natureza da aliança governante, o problema não se resolve com mais comando, mas apenas com uma administração mais eficiente da paralisia.

A mesma fuga aparece na parte econômica e social. O artigo faz uma longa enumeração de sintomas: endividamento das famílias, bets, preços altos, juros, segurança pública, crise ambiental, tarifaço, escândalos, saúde, saneamento. Mas, ao empilhar problemas, evita novamente a pergunta central: por que o governo não respondeu a isso com medidas de impacto? A resposta mais óbvia é que não quis ou não pôde comprar conflito com os interesses que cercam sua própria sustentação. Aí está a raiz do imobilismo. Não é que o governo “dormiu no ponto” por distração. Ele está preso a limites políticos bem concretos.

Por isso também o texto patina quando fala de corrupção, penduricalhos e privilégios. Fornazieri observa que o governo e o PT foram incapazes de assumir “de forma assertiva” essa agenda. Mas por quê? Porque um governo apoiado numa ampla engrenagem congressual, institucional e oligárquica não tem liberdade para fazer essa ofensiva até o fim sem atingir aliados, operadores e bases de governabilidade. Mais uma vez, o artigo descreve a timidez sem nomear a dependência política que produz essa timidez.

O trecho final concentra o problema de toda a análise. Fornazieri afirma que “o governo ainda tem tempo, meios, ativos, máquina e recursos para mudar esse jogo a seu favor” e que os problemas estariam “na ausência de comando e de capacidade e na construção de um projeto com uma narrativa e um discurso persuasivos e mobilizadores”. Essa conclusão é fraca porque volta a reduzir uma crise política profunda a uma crise de direção e linguagem. Não falta apenas narrativa. Falta programa. Não falta apenas discurso mobilizador. Falta decisão política de romper com a lógica que tornou o governo refém do centro e da frente ampla.

Afinal, um projeto mobilizador não nasce da vontade abstrata de convencer. Ele nasce de medidas reais, de uma direção nítida, de antagonismos assumidos e de um campo social efetivamente convocado a sustentar o governo. Um governo que tenta agradar ao mesmo tempo sua base popular e os setores que operam como freio permanente de qualquer mudança tende a não mobilizar ninguém de forma plena. O resultado é exatamente o que o texto descreve: apatia, desalento, defensivismo e perda de iniciativa.

Esse é o ponto em que o artigo se mostra mais covarde do que crítico. Ele chega perto da verdade, mas não a formula. Diz que o centro dirige o governo, mas não conclui que isso decorre da frente ampla. Diz que falta projeto, mas não conclui que a coalizão impede o projeto. Diz que falta narrativa, mas não admite que não existe narrativa capaz de dar alma a um governo sem rumo próprio. Diz que o governo precisa reagir, mas omite que reagir de verdade exigiria romper com os limites políticos que o constituíram.

No fim, o texto de Fornazieri é revelador justamente por aquilo que não diz. Sua crítica parece severa, mas permanece contida dentro dos limites da conciliação. Ele enxerga o fracasso, mas não nomeia seu fundamento. E um diagnóstico que não nomeia a causa principal pode até soar lúcido, mas serve pouco para entender o que está acontecendo e menos ainda para indicar o que deveria ser feito.

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