O debate sobre o “mercado ilegal das apostas” é uma dessas farsas cuidadosamente montadas para parecer preocupação social. Fala-se em proteger o pobre, em combater fraudes, em impedir lavagem de dinheiro, em salvar famílias do vício. Tudo muito bonito. Mas o centro da questão é outro: querem discutir o cassino eletrônico para não discutir o cassino muito maior, legalizado, protegido pelo Estado e apresentado como pilar da economia nacional — os bancos.
O artigo publicado no Poder360 trata o problema das apostas como uma questão de regulação. Segundo o texto, em 2025 cerca de 25,5 milhões de pessoas usaram plataformas autorizadas, 36% da população acima de 16 anos declarou já ter feito ao menos uma aposta e o mercado ilegal responderia por algo entre 41% e 51% do setor, podendo crescer ainda mais. A conclusão do artigo é que seria preciso uma regulação mais racional e repressão mais eficiente aos operadores clandestinos.
Essa conversa ignora deliberadamente a raiz social da degradação. O trabalhador que aposta compulsivamente o faz porque está esmagado. Porque o salário não chega ao fim do mês. Porque o aluguel subiu, a comida subiu, a conta de luz subiu, o transporte subiu, e a vida virou uma roleta permanente. Quando a sociedade produz miséria em escala industrial, ela também produz agiotagem, prostituição, informalidade desesperada e todo tipo de expediente degradante de sobrevivência.
A verdadeira máquina de destruição da vida popular não é a bet clandestina. É o banco legalizado. É o cartão de crédito. É o cheque especial. É o rotativo. É o empréstimo pessoal. É a dívida empurrada goela abaixo do povo por um sistema financeiro que opera com a proteção do Banco Central, do Congresso, dos tribunais, da imprensa burguesa e de todo o regime político.
Os números são escandalosos. De acordo com a Agência Brasil, com base em dados do Banco Central, os juros médios para as famílias chegaram a 60,1% ao ano em dezembro de 2025. O rotativo do cartão bateu 438% ao ano. O cartão parcelado chegou a 189% ao ano. O crédito pessoal não consignado foi a 116,8% ao ano. O endividamento das famílias ficou em 49,8% da renda acumulada em 12 meses, e o comprometimento da renda com dívidas chegou a 29,3%.
Isso é o quê? Isso não é vício? Isso não é destruição familiar? Isso não é fraude social?
A diferença é que, quando o pobre perde dinheiro numa plataforma de aposta, a imprensa chama de tragédia social. Quando o mesmo pobre entrega metade da renda ao banco, isso aparece como “educação financeira”, “inadimplência”, “custo do crédito” ou “risco de mercado”. A aposta ilegal é escândalo. A usura legal é política monetária.
O Ministério da Fazenda informa que, desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente, e que os sites autorizados usam a extensão “.bet.br”. (Serviços e Informações do Brasil) Mas ninguém pergunta quem autorizou os bancos a cobrar centenas de por cento ao ano de um trabalhador que atrasou a fatura.
É este o ponto central: o Estado burguês não quer acabar com a exploração. Quer organizá-la. Quer separar o saque “legal” do saque “ilegal”. Quer transformar o vício social em ramo tributável. Quer arrecadar com as bets, punir o clandestino e manter intocado o grande mecanismo que produz a miséria que alimenta tudo isso.
A conversa sobre “combater o mercado ilegal” serve, no fundo, para salvar o mercado legal. O problema não seria o trabalhador ser sugado por uma indústria parasitária, mas ser sugado pela indústria errada. Se a empresa pagou licença, recolheu imposto e obedeceu às regras da Fazenda, então pode explorar a ruína psicológica e econômica do povo.





