Editorial

Lula no barco furado do centro

Cercado por governos em crise, Lula insiste numa política que já fracassou

“O mundo não é de esquerda”. Foi o que disse Lula, em conversa informal captada pela transmissão do G7, ao defender que a maioria dos governos segue hoje o que chamou de “caminho do meio”. Disse isso cercado por governos de centro que perdem apoio, acumulam derrotas eleitorais e já não conseguem apresentar uma saída para a crise política em seus próprios países.

A frase poderia ter algum sentido há 20 anos. Naquele período, a burguesia ainda conseguia impor sua política com relativa estabilidade, e o chamado centro aparecia como o terreno natural dos governos. Era o tempo em que se administrava o capitalismo com promessas de estabilidade, em que o reformismo moderado e o conservadorismo tradicional dividiam o poder sem grandes abalos. Esse tempo acabou, e acabou justamente nos países que Lula tomou como referência.

O centro que ele celebra não governa nem a mesa em que estava sentado. Um dos personagens centrais daquele G7 é Trump, que não tem nada de caminho do meio e se apresenta como expoente da extrema direita. A declaração de Lula foi desmentida pelo próprio ambiente em que foi feita.

Veja-se a França. Macron, o grande amigo do presidente brasileiro no G7, governa um país que o rejeita amplamente. Perdeu a última eleição, não tem maioria, é atacado pela direita e pela esquerda. Seu governo está liquidado, sustentado por manobras institucionais, sem nada que se pareça com apoio popular. O centro francês deixou de ser força de equilíbrio e sobrevive apenas porque o regime político ainda consegue mantê-lo de pé.

Na Alemanha não é diferente. Merz chega ao poder e a primeira preocupação de todo o grande empresariado, dos partidos tradicionais e do aparelho de Estado é impedir que a extrema direita vença a próxima eleição. Toda a estrutura política alemã, montada no pós-guerra para garantir a hegemonia do centro, range sob a pressão de uma crise que não consegue conter.

O padrão é geral. Não se trata apenas da incompetência deste ou daquele dirigente. A política de centro foi a política dominante de toda uma época. Hoje, já não encontra a mesma base social para se sustentar. Seus partidos perdem votos, seus governos se tornam impopulares e suas saídas não convencem mais a população.

É nesse momento que Lula escolhe o “caminho do meio” como horizonte. A política dominante das últimas décadas se esgotou, e os fatos confirmam essa avaliação a cada eleição. Quem ainda enxerga no centro o porto seguro da governabilidade não está acompanhando a evolução da crise política internacional.

Há aí um motivo político. O PT vem se colocando cada vez mais como partido do regime, e Lula parece querer ocupar o lugar que antes foi do PSDB: o partido confiável para a burguesia, capaz de conter a pressão popular e governar sem romper com os interesses fundamentais dos capitalistas. Quanto mais o PT se adapta ao regime, mais o “caminho do meio” lhe aparece como saída natural.

Lula declara nunca ter sido esquerdista no momento em que vive o período mais esquerdista de sua vida, de uma esquerda pequeno-burguesa e identitária que ele encarna sem reconhecer. Seu governo está recheado de ministros ligados a essa política, sua atuação é marcada por concessões a esse setor, e a própria declaração contra Neymar mostrou o desprezo dessa esquerda pelo sentimento popular.

Quando afirma que não é esquerdista, Lula deveria se olhar no espelho. O apoio popular ainda o sustenta, mas empurra noutra direção. O povo que votou em Lula não quer o centro europeu em decomposição, não quer Macron, não quer a política dos governos que desmoronam no G7. Quer salário, emprego, soberania nacional e enfrentamento com a direita. É dessa contradição que o governo não consegue sair.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.